Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A alma do poetrix

Todos aqueles que desejam escrever poetrix, esses poemas tão pequenos e belos, precisam entender que eles não são fotografias, não são estruturas estáticas, não são frases cortadas em fatias, que não existem receitas prontas que nos garantam que eles sejam bons ou ruins.

O grande lance do poetrix é que ele é subliminar. Você tem que fazer dos três versos uma obra de arte onde o leitor terá que "enxergar" além dos verbos e substantivos que os compõem. Às vezes o leitor precisa da ajuda da matemática, da filosofia, da ciência e até do bom senso para fazer uma boa leitura. Não basta que ela seja dinâmica, não basta um olhar apenas atento, não basta querer escrever poetrix. Eles são, por natureza, exigentes e complexos. São teimosos, brigam com as rimas, com o contraponto, com a concisão, com o susto e com o belo.

Afirmar que o poetrix tem alma parece algo estranho, mas não é. Quando escrevemos um bom poetrix, sua alma salta aos olhos. Qualquer pessoa percebe sua aura, sua extensão psicológica, sua crítica social, seu humor, sua grafia, mesmo que rebuscada. Para ilustrar minha constatação vou utilizar um dos meus poetrix.

Banzo

Em noites frágeis
as pedras são mais duras.
Diamantes pingam de meus olhos

O título Banzo nos remete aos mais cruéis dias da nossa história social, nos leva aos tempos da escravatura, ao subterrâneo do ser humano. Deixa claro que a alma do poema tem cor, tem raça, tem textura, tem um nome. "Em noites frágeis" expõe a condição em que se encontravam aquelas criaturas, o estado de humilhação a que eram submetidas, independentemente de serem adultas ou crianças, homens ou mulheres. "As pedras são mais duras" revela que os negros são mais duros, mais resistentes, mais puros em suas crenças. A poesia nos permite coisas impressionantes! "Diamantes pingam de meus olhos". Vejam, que contraponto interessante: frágeis/pedras/diamantes. Quando não havia mais nada, as lágrimas caíram dos olhos daquelas pessoas como diamantes, a pedra mais dura que existe. A crueldade não foi suficiente para estancar as gotas d'água que desaguaram daqueles olhos horrorizados - o Holocausto brasileiro. O poema tem uma plástica especial, uma escada, degraus, sobre os quais a alma caminha.

Morte

(Anthero Monteiro)

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga

Antero Monteiro é um poeta português que sempre nos presenteou com seus escritos de forma clara e gostosa. Em 2003, postou na página do grupo poetrix o poema Morte. Já no título fala claramente na existência da alma dos poemas. Para os católicos a alma está diretamente relacionada com a destruição do corpo. No poetrix este fato acontece da mesma forma, pois que o poetrix também tem um corpo com cabeça tronco e membros, ou seja, início, meio e fim. No poema Morte está dito que a alma do poema já deixou o seu corpo, o seu criador, a sua concretude material, passando para o estado metafísico. Veja que no primeiro verso está dito "uma cadeira vazia" e, no segundo, "sentada numa tarde de outono". Quem está sentado? A alma, pois a cadeira esta vazia. O terceiro verso é límpido "a olhar o meu ponto de fuga". Quem está fugindo? O corpo, a parte material do ser. O ponto de fuga dá a profundidade dos objetos, é a linha que traça o nível dos olhos em relação ao horizonte - lá longe, a fugir dos olhos. É assim que o autor estava se vendo. Estava construindo a sua perspectiva, sua visão tridimensional em relação à sua morte. Veja que ele projetou seu ponto de fuga em uma alameda, em uma tarde de outono, justamente quando as árvores estão mudando as folhas, ele estava construindo o seu caminho encantado.

É interessante notar que o autor está falando de sua morte. Se, é assim, onde está a alma do poema? Ah! Está no entendimento, na leitura que é feita, está na intimidade dos versos. Quando o leitor absorve a poesia que existe por trás do texto, ele enxerga a alma, a aura que o agasalha enquanto poema. É este relacionamento entre o corpo e o espírito que nos dá esta certeza. A concepção do poema em relação ao mistério da morte e a dor do autor, é a liberdade. A sublimação, outro fato relevante nessa relação, é o rompimento entre a matéria (poema) e o espírito (alma), neste momento, a alma se livra do corpo que o aprisionava voltando para o seu criador.

Viva a poesia!!!
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 12/01/2006
Código do texto: T97780
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
4325 textos (94900 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 20:23)
Pedro Cardoso DF