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dissertação adjetiva do sanhauá

nem por essa lassidão
que lhe devora o jeito e a forma
possa o Sanhauá desmerecer-se
de eventuais revoltas
que por ser assim pacato
enlaçando em vão a Felipéia
penda do seu ombro o gosto exato
das maravilhas de que pode a terra
nem por essa lama avara
que lhe rega o dorso impunemente
percam seus habitantes mais chegados
a condição informe de presentes
que por ser assim anônimo
na revolução de suas águas
seja um sintoma tão premente
de mascarar de paz a mágoa
nem por ser regaço de Felipéia
no gesto inato de serpente
encontre-se o mais rápido relance
de figura incompetente
que por ser assim tão plácido
no seu ofício dormente
não saiba dizer em suas águas
o gosto de sangue tão latente
nem por ter da terra a intimidade
e a consistência incauta de um grito
saiba engolir as contradições
sem a justeza efêmera dos dissídios
nem por ser tal condutor
de homens quase líquidos
deixe de reconhecer a lágrima
que escorre do vão do seu umbigo

que sabendo-se estrada
de tanger a solidão
invente pela memória
um punhado de razão

porque rio, saiba constante
 que o baldio homem que leva
é muito mais uma distância
que trafegar ninguém se atreve

nem por estar pejado
do mais fundo sacrifício
possa não cogitar da fartura
em que às vezes se acredita

nem por ser das estrelas
um espelho avariado
não saiba trazer nas rugas
toda sua intimidade
pois de tão material
lhe venha a ser conteúdo
a estrela mais fugaz
que desabita seu futuro

nem por ser do universo
uma corrente sem volta
não saiba descabelar-se a tempo
nas lembranças que lhe tocam

correndo de si próprio
em maratona tão  já gasta
o Sanhauá bebe a miséria
dos homens que lhe acatam
desce no frêmito mais lânguido
ordenhado em mãos tão avaras
que esquece que às vezes é rio
onde deságuam várias almas
e se nunca rompe o equilíbrio
entre a geografia e a sua calma
quem lhe cavalgará o dorso
com a presteza de astronauta?

nem por escorrer freqüente
não tenha lapsos de memória
quem distribuiu Felipéia
no peso de suas costas?

da maciez da lama
se tire a paciência
 nos caranguejos enrolados
nos cachos da consciência
e da assembléia das águas
que filtram toda manhã
o sol nunca desconfie
de que trava uma luta vã
pois por mais vapor que construa
nas suas lanhadas costas
ele sempre volta rio
em águas que ninguém nota
e quando se alça bruto
no estômago das nuvens
ele leva além de vapor
os sonhos de quem se urge

da condição humana
o Sanhauá não cogita
por que levar tanto sangue
num feixe magro de tripas?
antes rio gordo dessa lama
queira-se mais comedido
pois por ser rio não lhe cobram
sonhar mais do que é preciso.

ao beber o Sanhauá
em geral não se pressente
o gosto rico dos homens
e a dúvida de seus viventes

no suicídio reconhece
uma lúdica insistência
de deixar de ser homem
de matéria incompetente
pra travestir-se de rio
nos sonhos-lama da gente
não tem a filosofia
dos suicídios mais compostos
pois a pose é sempre a lama
e como rio não lhe importa
a pouquidão dessas vidas
 e a certidão de qualquer norma

de ser cúmplice da fome
o Sanhauá se redime
nos quilos magros de peixe
que os homens lhe retirem
e não tem a desfaçatez
das promessas mais nervosas
pois tem de si a compreensão
de um rio sem tantas forças

nem por ser interlocutor
das fomes mais atrevidas
deixe de engordurar-se
dos caranguejos da vida
que em sendo forasteiros
das águas que lhe socorrem
possam ditar o exercício
da crueza da revolta.


o Sanhauá  e a inquirição da vida


que tal Martim Leitão
senhor assim da matéria
ousou limitar o rio
na corda de muitas regras?
quem supôs o artifício
de decretar Felipéia
e trazer pras suas costas
o peso de muitas guerras?
quem compôs tal partitura
que na cabeça do futuro
faria o Sanhauá ter homens
pendidos de tantos muros?
que tão Martim Leitão
forasteiro da competência
ousou distribuir nestas terras
os palmos de sua crença?
quem forjou a brutalidade
de romper teu equilíbrio
e navegar tuas águas
com a intimidade do cio?
quem ausentou do teu corpo
a carne de Piragibe
e que nunca mais a carne
no teu ofício reteve?
 quem lançou sobre ti
essa algema virtual
como se não tivesses da ponte
a desnecessidade de tal?
quem comprimiu o leito
de propriedade indisfarçável
e quis esmagar teu peito
com a selvageria das traves?
quem duvidou da conseqüência
do teu ofício informe
de levar a água pro mar
misturada aos sonhos de quem não pode?

que tal Martim Leitão
amigo já de Piragibe
matriculou Felipéia
no dorso de tua crise?
quem te pôs acorrentado
entre cimento e miséria
pra iludir tuas águas
na mágoa intensa da guerra?
quem te forjou novo ofício
de amarga competência
de engolir tantos homens
esquecidos da consciência?
quem te pôs assim restrito
numa forma tão imensa
e atravessou o infinito
nos palmos de tua ausência?
quem te fez tão urbano
num foro tão agrário
quem nem soletras nas águas
a parcimônia do cansaço?
quem te fez transeunte
de uma vida regulada
em que poucos tem muito
e quase todos quase nem alma?
quem te fez tão concreto
nessa pátria movediça
e te engravidou dessa lama
de eficácia tão triste?
quem te usou como rio
explorando teus viventes
pra navegar no teu lombo
 um magote de presenças?
quem te pôs sem vela
num mar tão incontido
e acorrentou tuas águas
aos pés desses edifícios?
quem te ousou sadio
nessa sala tão doente
que não perceba que o sonho
é quase sempre da gente?
quem te armou as costelas
de pedras e penas e gritos
e construiu na tua boca
palavras sem sentido?


de Piragibe tirante a mágoa


corre o ano 85
de 1500 - vasta espera
escondendo agosto na barriga
cinco dias e outras léguas

quem é esse ouvidor
que Martim Leitão se engalana
como se o nome fosse patente
que pusesse medo em quem chama?

quem é esse ouvidor
que assim fustiga a consciência
e que se crê marido da terra
e quer lhe por em moenda?

quem é esse ouvidor
que de Olinda assim desfeito
trunca uma vontade inteira
na franja inata do peito?

quem é esse ouvidor
que dos passos não se afasta
e que palmilha sua distância
numa parca matemática?

corre o ano 85
de 1500 - quanta guerra
cinco dias de um tão agosto
muito chão e et ceteras

quem são esses indivíduos
parentes em vão da terra
que espelham suas rugas
nas rugas que já não levam?

quem são esses forasteiros
que revéis da cidadania
cosem a vida com o barro
sem lhe cobrar serventia?

quem são esses tabajaras
que nus da própria existência
teimam em deitar com a vida
nos cabides da paciência?

quem são esses tabajaras
que tecem com todo alinho
uma vida que mais medra
com a insistência do espinho?

quem são esses tabajaras
que mercê do seu aprumo
deitam com a liberdade
na cama quase sem rumo?

corre o ano 85
de 1500 - magra era
engolido agosto já tanto
cinco dias, muitas trevas

quem é esse Piragibe
que sentado no seu sorriso
inventa a simplicidade
com a mesma força do rio?

quem é esse Piragibe
que presidente das horas
decreta o fim do dia
pela espinha da história?

 quem é esse Piragibe
que à paz se tem afeito
e que arquiva guerras no tempo
como as tristezas no peito?


corre o ano 85
de 1500 - nave exausta
construído assim agosto
em 5 dias de pauta

quem é essa Felipéia
das neves de tal senhora
que cresta ao sol desse rio
como um infante tão breve?

quem  é essa Felipéia
tão íntima da natureza
e que se forja com barro
de tão estranha certeza?

quem é essa Felipéia
que tão dolente nem nota
que já pertence a senhorio
de quem nunca foi devota?

quem é essa Felipéia
que rebento assim de repente
como aceiro de si mesma
se quer coisa de gente?

quem é essa Felipéia
que do futuro nem sabe
dos quilos de tanta fome
que vão encher sua face?

quem é essa Felipéia
que alheia a seu batismo
perdeu-se de boca em boca
e nas voltas do seu umbigo?

quem é essa Felipéia
que da postura se cante
como uma rede ancorada
nas paredes do horizonte?
 há de essa criança
de gente e barro urdida
abraçar-se com o presente
com o futuro na barriga

há de essa demarche
ser mais longa e prometida
que os anéis que pendem do dedo
do ouvidor de Olinda
há de essa cidade
que agora se amamenta
criar com leite das pedras
as maltrapilhas presenças

há de essa estrada
ser feita em grave ofício
e que o destino lhe cubra os anos
com a displicência de um íntimo

há de essa morada
trazer pró leito do rio
a tez macia do açúcar
e um gosto de pau-brasil

corre o ano 85
de 1500 restrito
agosto amanhã sem jeito
5 dias comprimidos

em que cartório e recinto
sua posse foi lavrada
pra que dispusessem de si
como as carnes de uma vaca?

quem foi tal tabelião
que em exercício truncado
registrou que sua pele
podia fazer-se mercado?

quem foi que dilacerou
a sua estada de virgem
e que a querem tão mundana
nas carnes que ainda exibe?
 
quem foi que desabrochou
numa tarefa fugaz
seu ventre de muitas coisas
pra coisas que vendem mais?

diz que em 85
de 1500 o tempo
agosto quis por inteiro
há cinco dias no ventre
desfazer-se de um terreiro
que lhe jazia urgente
e inventou Felipéia
na vida desses viventes

e assentaram como assim
no cartório dessa gente
que a cinco de agosto
Felipéia era presente

do braço do Sanhauá
como um músculo saltimbanco
Felipéia saltou da vida
com a presteza de um pranto

e desse abraço infinito
que o rio sempre lhe dá
molhou-se seu lábio verde
da incoerência do mar

que por ser só atlântico
não se acha tão disposto
a abraçar Felipéia
na proporção do seu gosto

antes se quisesse mais rio
de compleição menos lata
pra abraçar Felipéia
com a prontidão de um gato

mas mesmo com parcimônia
nesse exercício de andante
esquece um gosto de África
no ombro grave do mangue
 
e o Sanhauá com ciúmes
no leme já de si mesmo
ostenta um ranço de história
pelo desvão de seus dedos

quem foi esse ouvidor
que não previu tal desatino
romper o verdor da terra
com o equilíbrio do rio?

quem foi esse tal Martim
que se inventou do nada
e fez xixi nessa praça
no meio dos tabajaras?

esse xixi de ouvidor
tem utilidade bastante
pra te construir novo corte
te dar um novo horizonte

e Felipéia se alastrou
como canavial conseqüente
que mastigasse a moenda
na verdura de seus dentes
e pronto veio o costume
de ter retrato mais conforme
aos tijolos mais impingidos
que a mão do homem lhe adorna

e de ser mais urbana
lhe veio a vã teimosia
de lutar contra os viventes
que no seu peito se aninham

lhe veio a solicitude
da concreta solidão
de tijolos alinhados
à custa de exploração
assim cresceu a ganância
de ser tão decomposta
lavrada num suor mais forte
que o rio que lhe comporta
 
e aprendeu nessa lida
que na vida a que se apresta
é preciso ser menos um
e ser muitos et ceteras.
Aurélio Aquino
Enviado por Aurélio Aquino em 15/01/2006
Reeditado em 10/09/2009
Código do texto: T99134
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aurélio Aquino
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 64 anos
375 textos (11677 leituras)
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Aurélio Aquino

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