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De Olinda em carnaval de tudo

Até parece que o frevo
Inventando a emoção
Escreve assim
Pelas pernas
Um infinito no chão

E assim descendo a Ribeira
Ladeiras no coração
Olinda toda me chama
Em cada ângulo de casa
Em cada palma de mão

As pernas fogem pro peito
ensaiam a rebelião
Dos sons que o ouvido engole
Com a exata compreensão
De que Olinda não é cidade
É apenas uma saudade
Misturada com a razão

As gentes pulam seus jeitos
Com a mesma sofreguidão
Com que o sol esperneia
Nas faces dessa canção

Até parece
que o frevo
espreguiçando-se em vão
adormece já sonhando
as coisas da ilusão

e assim fingindo ser tarde
a noite mal principia
e monta toda a manhã
que meu peito consentia

e a hora nem se apercebe
de que o tempo é relativo
e esconde seus minutos
nas curvas dos meus sentidos

Olinda é quase uma guerra
De generais consentidos
Soldados que sejam tantos
Nas marcas do meu sorriso

Até parece que o frevo
Despenca já lá do alto
E cai no peito da gente
Com a mesma simplicidade
Com que os neurônios inventam
As máscaras em que se  cabe

Olinda assim já é tarde
Pra essas coisas de cidade
Antes é um grito tão tanto
Barganha da liberdade

E ainda assim o perigo
De esquecer a própria vida
E nem pensar que amanhã
Travestido de avenida
O homem passeia sua dor
Nos restos de frevo
Que lhe consintam

II

Olinda então já chorava
Olinda enfim já sorria
E sem caber no meu peito
Em carnaval se explodia
Como uma nave desfeita
Nos mares que eu nem sabia

O frevo assim parecia
Uma alegre matemática
Que dividia todo meu medo
Nas contas que eu não usava

E urdia nos cabelos
Uma ventania inexata
Que deslocava meus sonhos
No rumo infante da praça

Olinda então consentia
Arrumar esses viventes
Num jeito de alegria
A que às vezes
A gente se consente
Sem perceber que a vida
É muita menos verdade
E muito mais de repente

O frevo descendo a praça
É quase uma liberdade
É um jeito desajeitado
De inventar a cidade
Na ponta palma dos pés
Na pronta face da tarde

O frevo medra
Nos ombros na multidão
Peso que nem seja tanto
Tomado em comparação
Aos pesos tantos da vida
Que se carrega em vão



III

A nota
Não é música
Apenas publica o povo
Na pauta do seu susto

O frevo não é tudo
Mas abarca um jeito de inteiro
No prazer incontrolado
De ser repente compassado

Cai pela face do povo
Misturado à tristeza
Que desce rindo nas pernas
De quem lhe cobra a certeza
O bloco é sanguessuga
Que sangra o peito de Olinda
E invade suas carnes
Com a mesma sanha
De uma sina

IV


Olinda morena
Moreno
Senzala da liberdade
Revoltas no passo
Do frevo
Do medo
Um futuro
Que nem se sabe

E denuncias no canto
Das pedras em que te cabes
Os infinitos que jogas
Nos ombros de tuas tardes

Olinda sabe a desejo
Como uma força que invade
A franja incauta do peito
De quem do frevo nem há de

E a Sé
Repousa sem jeito
Numa contrição desmedida
Que arruma o canto da gente
No frevo exato da vida

Coqueiros balançam a tarde
Numa preguiça infinita
E ventam todos os barcos
Que eu trago à deriva


Olinda
Nua assim na alegria
Drapeja bandeiras tantas
Como uma tristeza
Que nem sabe que sabia

Olinda, assim bailarina
De palcos e coxias
Jogava o frevo em meu peito
Com a mesma melancolia
Que arrastava meu sonho
Nos passos que eu não havia
E nem importava que a vida
Contivesse o que eu sentia
E que explodisse na sem razão
Do que meu corpo pedia

Olinda, assim transeunte
De ruas que eu não devia
Pesava em vão nos meus passos
Os caminhos da alegria
Ornada em mágoas e mágica
De intransitiva serventia
Completava as curvas da dança
Com a certeza da esperança
E um certo quê de agonia

Olinda, assim tão seu povo
Cozida às costas do frevo
Inventava um carnaval
Dentro de todo meu medo
E nem sobrava nas ladeiras
Qualquer ângulo mais exato
Em que não se visse da vida
Uma vida em sobressalto

Pulando assim na Ribeira
Nos quatro cantos do mundo
Olinda versa uma razão
Com a intimidade de tanto
E constrói na minha mão
Nas pernas do coração
Um sentimento profundo
De montar uma esperança
Apesar de tudo

Olinda inventa um jeito de nave
Em cosmos que nem habita
E trai um jeito de infinda
Apesar de tão contida

Olinda contraria a tristeza
Com a mesma euforia
Com que o mar lhe inventa
Pelos navios dos dias

Olinda é quase um tempo
Assim mesmo relativa
É continente e conteúdo
Gesto de deixar aos pulos
O coração de quem lhe vê
Porto de desamores
Ilha de quem lhe usa
Um jeito incauto de ser nada
Mesmo sabendo tudo

Destempo e minuto
Hora desapercebida
Que flui no vão do cérebro
Com a mesma força
Dos sentidos da avenida


Eu te vejo Olinda
Na textura do tato
Na carência dos dedos
Na sola dos meus sapatos
Na timidez do meu medo
Na intrepidez do enredo
Que a gente ensaia sem palco

Eu te tenho Olinda
Enquanto te despossuo
E ao mesmo tempo que te faço
Me desfaço no teu uso
Num carnaval diferente
Que trava o peito da gente
Num frevo que eu nem escuto

Descendo Olinda e ladeira
Descamba a cidade avulsa
Presa de passos e pesos
Prenha de segredos e sustos

Chego ao Carmo
E nem me medo
Olinda ainda é alegre
Tarde que já é cedo
Noite que é quase um dia
Num tempo que ainda esqueço

Olinda flutua
Na mansidão dessas águas
Que se dizem suor e sangue
Ou mesmo baldias lágrimas
Choradas pelo vão riso
Como senões imatemáticos

Olinda não se conta
Pelas casas que possua
Mas pelo jeito que engendra
No íntimo de suas ruas

Olinda não descansa
De ser vária e avulsa
E pesa os tempos que alinha
Na cara de seus sustos

Cidade, nem se apercebe
Que a história continua
Entrançada em suas pedras
Nos passos de quem lhe usa

Morena, nem se acalma
Com a graça de seus viventes
E se deixa desesquecida
No coração de quem sente

V


Olinda não é porto
É parto
E nem é perto
Quando em barco
Se escreve no mar
Como um salto
E nem é longe
Ao largo
Quando constrange a praia
Com jeito de ancoradouro
De tudo que não é exato

Olinda não é tanta
É toda
E nem é limitada
Pois existe um jeito de Olinda
Em cada palmo de madrugada
Em todo raio de lua
Que no seu colo deságua


VI


Nos Bultrins, quem sabe,
Não se conte a alegria
Que se desce assim do Amparo
Rompendo o ventre do dia
Pois se lhe ajeita um modo
De viver a serventia
Que tem o cartório geral
Dos sentimentos que alinha

Nos Bultrins, quem sabe
Permaneça uma agonia
Um tanto ou quê de provisória
Que seus viventes presenciam
Mas que traz uma nesga de riso
Nas dobras urgentes do pranto
Que escorre pelas ruas
Com um jeito de canto

Nos Bultrins, a fantasia
É um sentimento inato
Que recolhe no coração
A simplicidade do fato
De que o povo se exonera
De qualquer desesperança
Com a força bruta das pedras
Que lhe pesam na lembrança

Nos Bultrins,
O tempo nem se apercebe
Que bebe o peito do povo
Numa proporção imatura
Que faz um segundo ser tanto
No riso de quem lhe usa

Nos Bultrins,
Constantemente,
A vida se planta sem sementes
E sem orgulho
A gente se afirma
No seu pulo

Nos Bultrins
Há um cheiro de cidade
Que se pretende desurbana
Campo que nem lhe cabe
Pois trai um gesto cosmopolita
Na sua ruralidade
Fazenda de homens e meninos
Trânsito da felicidade

Nos Bultrins
A alegria se anuncia
Nas letras do estandarte
Que balança a vida do povo
Numa tal intensidade
Que chega a querer ser tanto
Apesar do pouco que lhe cabe

Nos Bultrins,
Havido o carnaval
Há reis que nem sabem
Dos reinos que ainda sentem
Embutidos nas camisas
Como uma máquina urgente
Que pulsa o tempo e o homem
Com a força do presente

Nos Bultrins, quem sabe?
Ainda existe a compreensão
Da liberdade


VII


No Amparo
Tudo desce
O tempo e a cidade
E a gente que lhe preenche
As veias lúdicas de pedra
Que tapetes são do tempo
De quem há de

No Amparo
A alegria se permite
Habitar cada garganta
Como um frevo ou uma frase
Que contivesse palavras
E lembranças

E nessa mistura
De verbos e sentimentos
O Amparo se permite
Afirmar o que se segue:
O Amparo é um estado
De insensatez da matéria.
Mas é dessa sem razão
Que contém a simetria
Dos gritos que a vida engendra
No cartório da alegria

No Amparo,
Havido o carnaval,
O tempo não se conta
Como um inteiro preciso
É uma fração que se traz
No bolso da camisa
E que se espalha na rua
À medida que o frevo
Espalha o resto da vida.

No Amparo,
Finalmente,
Nunca se acaba uma alegria
Impunemente
Pois o riso é interno
Ao frevo que se sente.


VIII


Ouro Preto que lhe diga
Os versos que desalinha
Na pauta ingente dessas ruas
Por que o povo caminha.
Porque de ser desmedido
Caiba-lhe a contrafação
De remar contra a corrente
Nos rios do coração

Ouro Preto nem se ilude
Com a textura do som
Um frevo que inventa um povo
Com um jeito de ser de novo
Inventor da manhã

Ouro Preto nem se apercebe
Nas manhãs de carnaval
Que a vida tornou-se um palco
De um teatro informal
Que joga os medos da vida
No meio da avenida
Nos passos de um frevo tal
Que desmente até a cidade
Naquilo que não contém
Pois traz uma felicidade
Que não pertence a ninguém
Pertence ao passo do frevo
E àquilo que lhe convém.


IX

Até parece que o frevo
Inventando a emoção
Escreve assim pelas pernas
Um infinito no chão.
Aurélio Aquino
Enviado por Aurélio Aquino em 15/01/2006
Reeditado em 10/09/2009
Código do texto: T99135
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aurélio Aquino
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 64 anos
375 textos (11646 leituras)
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Aurélio Aquino

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