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"A loucura em Guimarães Rosa (Breve análise do conto “A Terceira Margem do Rio”).

Guimarães Rosa, por seu traço peculiar, caracterizado pela inovação, elabora para sua obra uma linguagem lexicalmente particular, arraigada de poesia e repleta de recursos estilísticos, ao mesmo tempo que consegue a faceta de tornar seus textos acessíveis, apesar de sua complexidade.
Costuma escrever focando na tipicidade dos personagens, sobretudo, descrevendo o homem do campo e sua difícil jornada. Usa assiduamente também categorias estigmatizadas como: crianças, loucos, velhos... , em seus enredos.
No pormenor loucura, Rosa instaura tal elemento como simbólico e com ele tece a trama focando numa grande reflexão acerca da problemática existencial do ser humano, aliando loucura e razão, realidade e devaneio, universalidade e regionalidade, prosa e poesia. Tudo isso com o intento de fugir do transitório, do banal e previsível, criando dentro da sua língua uma linguagem particular, objetivando alcançar o leitor além do plano meramente literal de sua obra.
A profundidade do elemento loucura em Guimarães Rosa é tamanha. Dessa forma, seus conceitos sobre a mesma por vezes se mostram antagonicamente: ora utiliza da amplitude para representá-la, ora condensa essa amplitude numa mesma ideia. Um exemplo desse último aspecto podemos ilustrar com a fala do narrador-personagem do conto a Terceira Margem do Rio: “Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então todos.”.
“A Terceira Margem do Rio” é um dos contos mais lidos do autor, que se destaca pela subjetividade, uma vez que Rosa desperta, no leitor, através da linguagem, múltiplas percepções e interpretações. Isso começa já no título, visto que, um rio possui apenas duas margens, uma opondo-se à outra.
A narrativa tem início com a construção pelo pai de uma embarcação. Em seguida, o conflito se instaura mediante o exílio do pai dentro dessa, no caso, uma canoa. Os familiares tentam entender o comportamento do homem, ao crer numa viagem inusitada.
Podemos depreender que essa viagem permite ao homem uma evasão absoluta, como se ele estivesse abandonando a sua existência. O que Heloísa V. Araújo, no livro O espelho: contribuição ao estudo de Guimarães Rosa, conceitua como “excessus vitae”, ou sai do senso.
À medida que o tempo transcorre, a família vai fugindo da situação, abandonando o homem. Apenas seu filho permanece, sob o compromisso moral de proteger o pai de sua própria loucura. Passado algum tempo, o filho, cansado, desiste de acompanhar a trajetória do pai dentro do rio e, em dado momento, intenciona substituí-lo, mas teme que o pai tenha se transformado em fantasma. Por fim, o pai some e o filho resolve também entregar-se à morte, como forma de se punir pelo que não havia feito pelo pai.
Nesse conto, assim como em outros, Guimarães Rosa ilustra casos de transmissão de loucura em família pela convivência com os doentes. Há também a amostragem dos sentimentos de dor e perda, que culmina com a evasão do estado de consciência “excessus mentis” que Araújo chama também de “excessus vitae”.
Em síntese, o interesse de Guimarães Rosa pelos dramas existenciais foi estabelecido pela convivência com a difícil realidade do homem do campo, além do exercício da profissão de médico a qual se dedicou brilhantemente durante muitos anos.
Suely Andrade
Enviado por Suely Andrade em 16/10/2017
Reeditado em 16/10/2017
Código do texto: T6144510
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Suely Andrade
Fortaleza - Ceará - Brasil
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