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"APESAR DE VOCÊ" de Chico Buarque


Surpreendentemente essa canção não sofreu a censura dos ditadores quando do seu lançamento em 1970. Só veio a ser proibida no ano seguinte, quando Chico, em uma entrevista, admitiu que o “você” a quem se dirigia na música, era o presidente Médici, voltando a ser liberada em 1978. Na sua letra traz uma manifestação de desabafo na insatisfação com o governo de então e, ao mesmo tempo, uma convocação para a luta pela reconquista da liberdade, da democracia.

“Hoje você é quem manda/falou, ta falado/não tem discussão, não/a minha gente hoje anda/falando de lado e olhando por chão/viu?”.  A triste e dolorosa constatação de que estávamos sob o império de um sistema político ditatorial, onde sequer tínhamos o direito de contestar as ordens dos militares que estavam no poder. Os brasileiros só se manifestavam às escondidas, falando baixinho, no receio de que fossem flagrados na desobediência e punidos severamente. O estado de submissão fazia com que nos sentíssemos oprimidos pela força, de cabeça baixa, olhando para o chão, numa atitude de humilhante subserviência.

“Você que inventou esse estado/inventou de inventar/toda escuridão/você que inventou o pecado/esqueceu-se de inventar o perdão”.  Dirige-se ao general ditador atribuindo-lhe a autoria das arbitrariedades a que estávamos submetidos, e que colocavam  o país mergulhado numa escuridão, sem que pudéssemos ver a luz da liberdade. Quem criara as leis que massacrava os infratores, não tinha qualquer sensibilidade para produzir atos de compreensão, respeito às divergências, perdão.

“Apesar de você/amanhã há de ser outro dia/eu pergunto a você/onde vai se esconder/da enorme euforia?/como vai proibir quando o galo insistir/em cantar?/água nova brotando/e a gente se amando sem parar”. Embora percebendo o clima de apreensão e medo que dominava a nação, o “eu lírico” afirma que, apesar de tudo, não perdia a esperança de que o “amanhã” seria diferente. E, ao sonhar com esse dia, se perguntava como o general ditador iria se comportar ao verificar a perseverante emoção nacional de um povo que se cansava de sofrer? O que ele faria quando ouvisse os gritos de liberdade de uma gente que tomava a decisão de se rebelar? Uma nova consciência política nascendo no espírito de cidadania dos brasileiros. Um sentimento de amor fraterno, solidário, compartilhado, dando energia a um movimento cívico em favor da democracia.

“Quando chegar o momento/esse meu sofrimento/vou cobrar com juros, juro !/todo esse amor reprimido/esse grito contido/esse samba no escuro”.  Continuava a imaginar o futuro desejado. Na oportunidade em que isso acontecesse, haveria de cobrar com juros todo o padecimento a que estavam impondo o nosso povo. O impedimento de agirmos conforme as nossas vontades, a proibição de que expressássemos nossas insatisfações, a torturante sensação de que estávamos vivendo na  escuridão das trevas,  seriam cobrados dos responsáveis por esse nosso infortúnio,  no instante em que a luz da democracia voltasse a  brilhar  no  país.

“Você que inventou a tristeza/agora tenha a “fineza”/de desinventar/você vai pagar e é dobrado/cada lágrima rolada nesse meu penar”.  Exigia, portanto, que os promotores da tristeza que se instalara no coração dos brasileiros, cuidassem em promover mudanças que trouxessem de volta a alegria tão característica de nossa gente. Porque, do contrário, iriam “pagar dobrado” todo o pranto derramado, todas as dores sofridas, toda a aflição experimentada, consequentes do poder de mando que exerciam.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia/ainda pago pra ver o jardim florescer/qual você não queria/você vai se amargar vendo o dia raiar/sem lhe pedir licença/e esse dia há de vir/antes do que você pensa/apesar de você”.  Manda um resoluto recado de que, mesmo contrariando o arbítrio do general ditador, o Brasil retornaria ao seu estado democrático de direito. Estava disposto a enfrentar a luta com coragem, na ansiosa expectativa de ver germinar em nosso solo a flor da liberdade, ainda que ele estivesse fazendo de tudo para tornar nossa terra infértil para produzir os frutos da democracia. Tinha a certeza de que estava próximo o dia em que o veria lamentando a perda de poder, quando raiasse no nosso horizonte o brilho da liberdade. E isso aconteceria sem que fosse necessário pedir-lhe permissão. Seria a vitória da vontade popular, a expressão patriótica de um povo que ansiava por sua independência cidadã. E não demoraria, essa era a entusiasmada  esperança.

“Você vai ter que ver/a manhã renascer/e esbanjar poesia/como vai se explicar/vendo o céu clarear, de repente. Impunemente?/como vai abafar nosso coro a cantar/na sua frente?/apesar de você”  E proclama o desafio. Questiona o que haverá de fazer quando esse dia chegar, assistindo a festa em comemoração pela liberdade alcançada? Afirma, com convicção, que ele não terá mais força para conter o grito que ecoará nas praças públicas,  o canto uníssono dos que se animarão em manifestar seu descontentamento.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia/você vai se dar mal/etecétara e tal”. Finaliza acentuando de que “apesar dele”, já se vislumbrava um futuro em que estaríamos livres dos grilhões da ditadura. E se inverteriam as situações, ele é que passaria a enfrentar os dissabores da culpa pelos males causados à nação.

• Do livro CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS


Rui Leitão
Enviado por Rui Leitão em 02/11/2017
Código do texto: T6160328
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Rui Leitão
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Rui Leitão