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"COM AÇÚCAR E COM AFETO" de Chico Buarque



Essa foi a primeira canção composta por Chico Buarque em que o “eu lírico” fala por intermédio de uma mulher. “Com açúcar, com afeto” foi gravada originalmente em 1975, pela cantora Jane, do grupo gaucho “Os três Moraes”.  O próprio autor admite que se recusou a interpretá-la com receio de que as más línguas passassem a duvidar de sua masculinidade. Anos depois, Nara Leão, de quem Chico disse que recebeu o pedido para escrever a letra da música, gravou com enorme sucesso. Trata-se de uma história de resignação feminina com o descaso do marido na relação a dois, consciente das suas mentiras e sabendo que ausente de casa ele se entrega à farra. No entanto, vendo-o na volta abatido e cansado, se compadece, perdoa e outra vez toma-lhe nos braços. O cotidiano de um contexto social patriarcal, em que a mulher fica em casa esperando o marido chegar para oferecer-lhe todos os cuidados de uma companheira fiel e submissa.

“Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto/pra você parar em casa, qual o que/com seu terno mais bonito, você sai, não acredito/quando diz que não se atrasa...  E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado/ainda quis me aborrecer, qual o que/logo vou esquentar seu prato/dou um beijo em seu retrato/e abro os meus braços pra você”.

 Carinhosamente, na intenção de lhe fazer um mimo, e assim prendê-lo mais tempo em casa, ela faz o doce de sua preferência. Fica triste quando vê  que ele não deu  a menor importância e se diz apressado para sair, alegando que não pode chegar atrasado nos seus compromissos de trabalho. Ela já o conhece bem e não acredita nessas suas afirmações, ainda mais ao perceber que ele veste o terno mais bonito, o que a induz a desconfiar que a programação dele não é exatamente de trabalho, mas de lazer.

Ela sabe que é tudo mentira, mas disfarça e demonstra acreditar  que vai à luta pela manutenção do lar. No caminho pára de bar em bar, em comemoração a qualquer coisa, sempre encontrando um motivo para beber.

Sabe que nessa farra se dedica ao bate papo com amigos e a entreter-se na observação das mulheres que desfilam seus corpos bronzeados pelas praias. Enquanto fica em casa, ele se diverte, esquecido da companheira.

Ao anoitecer ainda se encontra na bebedeira, cantando, entre amigos, músicas que trazem lembranças agradáveis do passado. As horas passam sem sentir que tem a esposa a esperá-lo.

Vencido pelo cansaço, já tarde da noite, resolve retornar à sua casa. E ao chegar, vem cheio de atenções, rogando perdão pelo atraso. Pede que ela releve esse seu comportamento e promete, como sempre, após cada orgia, que vai mudar e assumir com responsabilidade suas obrigações de marido e de dono de casa. E, numa declaração fingida de amor, diz que fará isso para agradá-la.

A primeira reação ao vê-lo daquela forma, desarrumado, bêbado, fatigado, é de raiva, aborrecimento, contrariedade, mas não consegue. Logo se compadece do seu estado e vai esquentar o seu jantar, alimentar seu corpo e afagar sua alma com carinho. Enfim rende-se a essa paixão que a faz sempre perdoá-lo em tudo, e lhe toma nos braços num aconchego de quem ama verdadeiramente.

• Do livro “UM OLHAR INTERPRETATIVO DAS CANÇÕES DE CHICO”, a ser lançado brevemente.


Rui Leitão
Enviado por Rui Leitão em 11/11/2017
Código do texto: T6168628
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Sobre o autor
Rui Leitão
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Rui Leitão