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o Sol Era Uma hemorragia Ruivo-Oxigenada

Batendo forte, a poesia sem folga de Bruno Sanctus e o seu O Sol Era Uma Hemorragia Ruivo-Oxigenada

Enquanto a crítica esmaecida faz alarde a um garoto cabeludo que mal sabe juntar letras, outro escritor estoura as fronteiras da marginalidade com um livro realmente bem escrito e visceral. Não é preciso contar desgraça social nos muros além literatura ou cair nos recorrentes equivocos de quem tenta domar a periferia pela escrita para mostrar-se bom, basta fazer o dever de casa. Com refinamento de uma lâmina e ironia na medida certa – pois, mais, seria pedante, menos, seria clichê-, Bruno Sanctus apresenta um retrato preciso, sujo e sensibilizante da realidade urbana e da sua própria concepção de existência, bem compreendida, por sinal, em versos do primeiro poema do livro:

“sei que sou a porra dum filho da puta
e esse vento fodido de agosto
está cortando a merda do meu corpo esguio
como uma navalha cega.”

Bruno sabe, inclusive, que o mundo não precisa de mais poetas. Que fique-se com a poesia:

“já não bastasse dizer que o mundo
não precisa de pessoas iguais a mim.”

Por certo, não de poetas ruins, de repertório pequeno, de vida de faz-de-conta e literatura de flores e fadinhas em rios de leite ninho e montanhas de nutella. Bruno é denso e joga pesado sem precisar colocar um ornamento de bicheiro no peito, aba reta na cabeça ou ingressar em algum coletivo trotskysta para ser elevado à condição de guia pelos seus membros. Ele faz boa poesia, só isso. E como é difícil alguém entender que basta pouco para termos uma pancada atrás da outra, basta alma, basta gana e sangue nos olhos. Poesia que não incomoda, que não larga aquele gosto de amargo na boca, não presta. Não tem razão de existir.
Ao longo do livro, em que os poemas fluem como um rio caudaloso (ou vomitar de um bêbado?), a narrativa testa a imaginação do leitor, fazendo-nos imaginar o que seria verdade e o tanto de invenção que há na vida deste poeta em seu segundo livro-petardo.
O Sol Era Uma Hemorragia Ruivo-Oxigenada não é um livro limpo, bem comportado, pudico. Nem está no papel. É um livro sujo e que deveria ser proclamado nas ruas, nas esquinas deste País, por jovens sem esperança ou por aqueles que querem ser poetas (‘grandes merdas’, me diria um amigo, poeta gay e aidético que assinava seus textos com um pseudênimo feminino e saía com um diretor da Globo para pagar as contas miúdas). Não é um livro que seria publicado pela Companhia das Letras. Não faz o perfil dos caras. É bom demais e o autor não se tornou modinha. Espanta apenas que tenha sido ignorado pelas editoras independentes. Leia e tire as suas conclusões. (http://appaloosabooks.com/book.php?bookasbn=AP0013). O livro pode ser baixado gratuitamente no site da editora Appaloosa.
Claro, o autor ainda está em processo de amadurecimento. Alguns poemas poderiam ser talhados com mais cuidado, outros, suprimidos. Ainda assim é dos melhores livros de poemas do ano.

‘do fracasso nascem os poetas’

Assim nasceu Bruno Sanctus.

_Marcelo Adifa, escritor.
Sophyzta Macabro
Enviado por Sophyzta Macabro em 19/04/2018
Código do texto: T6313337
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sophyzta Macabro
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
249 textos (8821 leituras)
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