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Ao Cair da Tarde (Emiliano Perneta)

Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo,
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa,
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo...

Nem rosas, nem luar, nem damas... Não me iludo,
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O sol! E no covil negro deste abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde!

Para que mais viver, folhas tristes do outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.
         
          O soneto, “Ao Cair da Tarde”, de Emiliano Perneta, construído nos moldes simbolista, cujo estilo se consagra pelo culto da sugestão, da imagem, do simbólico,  da insinuação da realidade, na qual há um mundo de ideias, onde as sensações podem transmitir pensamentos, sentimentos e emoções, os mais variados e imagináveis possíveis.
         O poeta, “No cair da tarde”, dispõe da paisagem como sugestão para  descrever o que pensa da vida e da morte, e emprega várias imagens para sugerir algo além de um final de dia, aqui, representando o final da vida.
          Para aqueles que reverenciam o estilo, o real deve ser apresentado por meio de simbologias e de maneira bem subjetiva, que é como eles adentram no mundo do inconsciente, do vago, do nebuloso, da ilusão, do caos, do ilógico. Os simbolistas buscam êxito  por meio da ótica do leitor oferecendo-lhe a coautoria, quanto mais esse coautor for familiarizado com a labiríntica linguagem simbolista, mais se fortalece essa parceria. Nesse estilo, o som das figuras   assonância e  aliteração é o maestro que dá o tom, e nessa orquestra, os instrumentos vão ficando mais nítidos  entre o jogo de palavras  misturadas com a fantasia. Ter esse domínio é um  privilégio para interpretar dados do real na lógica  da visão particular/pessoal da autoria.
         A leitura proposta consiste em identificar, no segmento do poema, o recurso expressivo do tempo. Com base na identificação desse elemento, o  poema tem seu início num advérbio de tempo: “agora”, essa posse  temporal que vinha sequencial, no título nos mostra uma queda :  “Ao cair da tarde” e passa então para o tempo estático na palavra ”agora”, nesse instante. Está lá, parado no inicio de um verso com duas frases nominais, sem verbo, sem ação, com quatro letras surdas: “Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo”; um prenúncio num presságio de morte. O verso tem outra característica a ser observado: a palavra silêncio entre dois pronomes indefinidos:   “(...)Tudo silêncio. Tudo”. O eu-lírico dando continuidade à  inercia do tempo na sua letargia, a sua inatividade,  produz mais um discurso sem verbos, em   dois versos em tempo de fixidez e estagnação: “Esses claros jardins com flores de giesta,/Esse parque real, esse palácio em festa,”__ só no verso seguinte vem o verbo, vem a ação, não do eu- poético, mas do jardim de flores de giesta; “Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo...” Esse cicio das alveolares imitando o sussurro do silêncio, como um aviso: é melhor que não as acordem. As giestas, flores que enfeitam a vida e significam renovação. Agora dormem, repousam, conservam-se imóveis, ficam inativas, sem realização. .
         O tempo, na segunda estrofe, é de rosas, mas não há; é de luar, mas não há; é de damas, mas não há; também não há ilusão. Há, sim, um conformismo diante da desilusão. “A mocidade aí vem”; ela toma, empurra os que não a aceitam, ela ruge, invade,  se mostra bruta. Veja o tempo, aqui há uma confluência dele, não mais se sucedendo, mas coexistindo, duelando, o tempo estático diante da queda, e o dinâmico, chegando e tomando. E o poeta, então chega a conclusão que é melhor ceder. E justifica a concessão com  uma interrogativa que antecede uma condicional implícita: “Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde o sol”. Nesse verso, o jogo metafórico não se reduz a comparar a vida ao sol que não brilha e que não arde. O eu-lírico vai além e nos diz que não se trata de um elemento da composição, mas da harmonia dos contrários: o sol que não brilha cedeu lugar ao covil negro que domina, então se está em pleno tempo outonal.
           Estamos, aqui no fim do poema, e mais uma vez num nível em que o tempo induz a consciência do poeta. Ele sabe que o tempo é cíclico que depois do outono só o inverno... Então é “(...) muito tarde.”__ O último verso do soneto é conhecido como “chave de ouro” , uma vez que deve conter em si a essência  da ideia do poema: Que não percamos mais tempo “São horas de dormir o derradeiro sono”.
   



Luzineti Espinha
Enviado por Luzineti Espinha em 03/05/2018
Código do texto: T6326392
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Luzineti Espinha
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil, 59 anos
90 textos (6553 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/09/18 00:08)
Luzineti Espinha

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