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ESTUDO COMPARATIVO DAS OBRAS: RIBANCEIRA DE DALCIDIO JURANDIR E WAGLEY CHARLES – UMA COMUNIDADE AMAZONICA – ESTUDO DO HOMEM NOS TROPICOS, COM BASE NA TEORIA DA RECEPÇÃO DE STIERLE KARLHEINZ.

          Quem escreve precisa saber para quê e para quem, portanto uma vez isso estabelecido cabe ao autor, no seu ato criativo, direcionar o seu texto, através da estrutura textual e da linguagem literária, buscando sempre adequar estilo e objetividade; por outro lado, quem lê precisa saber o que procura para não se perder em um mar de divagações e informações insalubres que não lhes acrescentará maiores saberes. A leitura e a literatura andam de mãos dadas e caminham passo a passo com a história do mundo, daí a necessidade de saber se reportar ao meio e se encontrar no meio.
            Dentro da perspectiva da recepção literária proposta por Stierle (1979), o significado da obra literária é apreensível não pela análise isolada da obra, nem pela relação da obra com a realidade, mas tão só pela análise do processo de recepção, em que a obra se expõe, por assim dizer, na multiplicidade de seus aspectos. Assim há de se  observar o texto como ato revelador do homem, não só na sua essência humana, mas como ponto de referência deste enquanto dentro do seu horizonte de atuação.
              Por este prisma passaremos a analisar as obras Ribanceira, Jurandir (1978) e Wagley (1988) considerando a intertextualidade presente nas mesmas  – elemento este que torna o primeiro texto referência do segundo ,logo, a leitura se torna quase obrigatória para a compreensão do segundo  – Ressaltando que  de acordo com comentário ´por parte do professor , em sala de aula,  o escritor paraense teria conversado com o pesquisador por ocasião de sua vinda ao Pará e relatado boa parte de sua estada no Município de Gurupá , assim como apresentado o romance que narra as suas experiências junto aquele local .
           Esta referência oral para Benjamim (1994) é considerada como valiosa, pois contribui para atribuir a narrativa maior verossimilhança entre o fato relatado oralmente e o transcrito, uma vez que   segundo ele:
A experiência que passa de pessoa a pessoa, é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. Entre estes, existem dois grupos, que se interpenetram de múltiplas maneiras. A figura do narrador só se torna plenamente tangível se temos presentes esses dois grupos. "Quem viaja tem muito que contar", diz o povo, e com isso imagina o narrador como alguém que vem de longe.


           O texto a Ribanceira, escrito em forma de romance traz à tona uma narrativa ficcional que traz algumas descrições que nos permitem, em meio as descrições, desvendar o local físico em que se passa, sem, contudo, revelar o nome do lugar ou localiza-lo geograficamente, apesar das sugestões implícitas na descrição do lugar. Recurso este identificado nas primeiras páginas da obra, mais precisamente na nona página, por ocasião da descrição do Fortim e do percurso hidroviário.
            No tocante ao Fortim, ele diz: De repente o Fortim, no largão aqui fora...
           Como na descrição a seguir: (...) pela proa, lá pra lá no encalço da Prainha, Arumanduba , Santarém e Óbidos, Manaus e Tio Sebastião, esparrama-se a baia e  no fogo da tarde e de onde fogem velas assustadas .
           Em contraponto Wagley (1988) situa a cidadezinha em seu texto: The present way of life in Itá and in its surrounding rural neighborhoods might seem old  fashioned and backward to the urbanite of Belém, Manaus, or even Santarém, but it is shared in its broad outlines by the majority of the rural population of the Amazon Basin and by the inhabitants of the working-class districts of the cities, which are filled with recent rural migrants.

             Enquanto na obra de Jurandir (1978), O autor ´personagem se revela descrevendo suas impressões diante da grande ribanceira que anuncia a cidade e seus poucos atrativos, porém faz uso de uma linguagem que mais sugere que mostra, trazendo à tona toda a riqueza da linguagem literária. Recurso este que estará presente não só neste trecho da obra, mas que se mostrará como a principal característica do autor, haja visto a polissemia presente por todo o texto literário, que de forma sedutora, redesenha as palavras e seus sentidos surtindo um efeito mais do que meramente comunicativo e sim impingindo uma força imagética digna da representatividade da grandeza da cultura e da gente retratada no texto.
              Como nos trechos: (...). Lá está o chalezinho caiado, a preço de meio instante estamos na ribanceira. (...). Meus vinte anos onde não é mais o mundo ao pé deste bicho rio que se cevou no dilúvio.
             E posteriormente ao final da página 09 iniciando a 10, continua revelando a essência da cidade ao mostrar-se aos que chegam: Mas a cidade? Ainda encaramujada na Ribanceira. Reserva-se. quer nos pegar de surpresa, tapando nossos olhos com suas mangueiras ou mostrar-se telha por telha, retraída pelas paredes, preguiçosa de se levantar.
              Em contraponto, no texto cientifico, documentário, de Wagley (1988), observa-se que o autor não faz uso de uma linguagem literária, rica de subjetividades, mas que preza pelo emprego de recursos que , em parte se completam com a subjetividade de Jurandir, considerando que o autor, também faz uso da adoção de um termo indígena para nomear a cidade descrita.“ Itá is situated in the sub-region known as the Lower Amazon, below the juncture of the Negro and Solimões rivers. In addition, it lies close to the Islands of the delta, and thus two ecological sub-regions of the valley affect the life of the community.”
              Mesmo resguardando uma certa distância no olhar, esquivando-se da nostalgia exposta no texto de Jurandir ao descrever a chegada do personagem ao seu destino (cito pag. 10), Wagley (1988), revela um olhar cada vez mais objetivo e especifico direcionado a seu objeto de pesquisa. Nesta redação, não cabe uma linguagem poética ou estilizada por conta da origem e do destino do texto, o leitor desta obra não é o mesmo que o do romance, pelo menos não o seria em uma perspectiva de estilo literário.
                 Jurandir ao contrário, expõe em sua obra um olhar saudoso e benevolente que convida o leitor a se deixar levar pelas sutilezas e exageros expressos através do uso de figuras de linguagem e neologismos. Faz uso da linguagem desenhando o cenário amazônico e seus personagens, abordando não só quem eram, mas também como se sentiam diante das grandezas das pequenas coisas vivenciadas naquele lugar.
                  Como no trecho: De repente o fortim sobre o largão aqui fora em que se observa a preponderância do fortim, sob o largão, dando-lhe a relevância imprecisa do olhar. A figura enaltece o fortim, embora de uma forma carinhosa e diminuta.
                   O autor precisa ter o olhar no que narra, na forma narrativa e também na preocupação com a recepção, pois, apesar de não caber ao autor ser explicito em seu intento de comunicar o pensamento ou o fato narrado, porém, tal qual o autor do documentário, este exibe uma preocupação latente em situar o leitor na narrativa, partindo do horizonte interno, ou seja a sua estrutura, para que este possa com mais precisão entender a relevância dos temas apresentados.
                 No da obra de Jurandir, a relevância se dá no ‘estar no lugar’ e viver as emoções daquele momento, enquanto que para o Wagley (1988), a relevância se apresenta no sentido de retratar o acontecimento, as características do lugar e do povo que ali se encontra, daí ele dá enfoque, por exemplo, a visita ao cemitério onde a história está enterrada, se encerrou como ato e inicia-se como fato, em detrimento às ruas, descritas por Jurandir, onde a vida acontece.
                   O texto, a obra, o ato de narrar através da construção semântica, ocorre nos dois estilos, tanto literário, quanto cientifico, todavia, a palavra, instrumento de trabalho dos dois autores, se revela como principal elemento de destaque dentro da perspectiva da recepção. Mostrando-se, hora como reveladora e hora como sugestiva e dentro destas perspectivas traz à tona os segredos e mistérios da produção literária, seja ela pragmática ou ficcional. Esteja ele, procurando situar o leitor e o autor dentro de uma perspectiva centrífuga ou centrípeta de acordo com a posição tomada pelo narrador, ao se posicionar no emaranhado de dados e detalhes descritos, narrados e dissertados na construção do texto, o autor mesmo assim tem o seu intento reservado e perpetuado nos possíveis ditos e não ditos da palavra escrita.
judi Brasil
Enviado por judi Brasil em 27/05/2018
Código do texto: T6348355
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
judi Brasil
Macapá - Amapá - Brasil, 52 anos
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