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Hamlet, uma Perspectiva Cristã

                        Hamlet – Uma Perspectiva Cristã

“Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir as vossas sepulturas, e vos fizer sair       delas, ó povo meu.” (Ez.37:13)

                                      Sinopse
     Foram utilizadas duas versões como referência, uma digital e a outra de Medeiros e Mendes, de 1981.

     Foi escrita entre 1600 e 1602 e impressa pela primeira vez em 1603.
     Tudo começa quando o espectro de seu pai aparece e pede vingança. Segundo o fantasma, o irmão Cláudio, agora rei em seu lugar e casado com a rainha, o teria envenenado. Desde então, Hamlet perde o equilíbrio interior e passa a planejar a vingança. No entanto, o jovem príncipe, é tomado por dúvidas atrozes. Sua decisão de vingar a morte do pai é sempre adiada, o que acontece só no final da peça.
      Polônio, conselheiro de Cláudio é o pai de Laertes e Ofélia a quem Hamlet parece amar. Polônio presume que os devaneios do amor estão deixando Hamlet louco e informa isso a Cláudio, Gertrudes e também a Ofélia, pedindo à filha para esquecê-lo. Mais tarde Hamlet acaba rompendo com Ofélia.
     Hamlet em discussão com sua mãe Gertrudes, mata Polônio pensando ser cláudio, quando aquele estava atrás de uma cortina. Desde então Ofélia, demente em luto pelo pai, fica a vagar, e acaba suicidando.
      Laertes enfurecido com a morte do pai e triste com a situação da irmã é convencido por Cláudio de que Hamlet é o único culpado, Cláudio propõe a Laertes uma luta de espadas entre ele e Hamlet, onde Laertes usaria uma espada envenenada, sendo que será oferecido ao príncipe uma taça de vinho com veneno, se o plano da espada falhar.
      No fim, enquanto o castelo estava sitiado pelo exército de Fortimbrás, a competição começa, Hamlet que não toma a bebida envenenada na hora que lhe é oferecida, vence o primeiro e o segundo assalto, e a rainha toma a taça envenenada em seu lugar.
      Enquanto a mãe de Hamlet enxuga-lhe a face, Laertes decide feri-lo com a arma envenenada. Hamlet, usando sua força, começa a lutar e no corpo-a-corpo, trocam as espadas que acaba atingindo Laertes, que revela ser o rei o culpado de toda a infâmia. A rainha morre envenenada.
      Hamlet fere o rei com a espada envenenada, obrigando-o a beber o veneno e o mata, vingando a morte do pai. Laertes morrendo aos poucos, despede-se de Hamlet e  perdoam-se. Quando é a vez de Hamlet, Horácio, o amigo fiel do príncipe, diz que morrerá junto, mas o príncipe não permite, tombando para trás e dizendo que quem deverá governar é Fortimbrás que invade o castelo e carrega o corpo do príncipe morto para o catafalco.

      Ser Humano...  Não ser Humano ... Ser vida ... Ser Morte.... Ser ou não Ser?

     Quem nunca se perguntou: O que é o homem, ora tão criativo e capaz de atos de  sublime amor, ora protagonista das mais vis atrocidades?
     Quantas vezes ouvimos notícias sobre políticos, pessoas comuns e até nosso próprio comportamento e nos perguntamos: como fomos capazes de tal coisa? A alma humana abriga muitos adjetivos -  é abismo de escuridão; ao mesmo tempo é capaz de atos de  misericórdia e bondade. Onde nascem a ganância, corrupção, intrigas, esse lado obscuro do ser? De onde vem, a angústia diante do silêncio das perguntas sem respostas que a vida, como esfinge, insiste a sussurrar em nossos ouvidos interiores: “Decifra-me ou te devoro...”.
   A morte presente em cada ato humano, um corpo que carrega uma alma que se angustia diante da vida... Por que tal sofrimento? De onde vêm tais ânsias? Se temos toda tecnologia à nossa disposição, por que tanta solidão? Ricos suicidas, famosos depressivos, pobres angustiados com a conta a pagar no fim do mês... Homens-bomba em nome de Deus...   Por quê?
     Sobre que pilares e fundamentos está construído o ser humano? Que verdades norteiam o homem e seus feitos? É possível julgar as pessoas pelos seus atos?  É possível conhecer alguém de fato? Em que se sustenta a vida?
     A precariedade da vida, no entanto, esbarra em mistérios que ora a debilita, ora a  engrandece. Hamlet, retrata esses mistérios. Ele é um homem que busca sentido ou a falta dele em tudo ao seu redor.  Seria ele um louco, ou se fazia de louco?
      Leithart (1996) afirma “... in an age dominated by scientific idolatry, Hamlet is a reminder that people are not machines, that there is a mysterious complexity to human nature. Hamlet is not only a dramatic exploration of the evils of the revenge ethic, but also a profound meditation on the nature of man.”
     O existencialismo resolveu a questão do incompreensível no ser humano e na vida, ao negar a lei espiritual e invisível que rege ou, se não rege, é pano de fundo para a História do homem. Tentar negar a natureza humana, é simplesmente fechar os olhos para o belo e o feio ao nosso redor. Todas as mazelas que vivemos são expressões visíveis do mundo obscuro e invisível onde habita o coração do homem. Por outro lado, todo sentimento de solidariedade que há no mundo, é expressão da lei moral que jaz no interior de cada um, seja ele ateu ou crente.
       O existencialismo de Hamlet é uma fonte de busca interior, se fosse destrutivo ele teria se suicidado.  O existencialismo moderno quer matar mitos, destruir a marteladas ideias clássicas, desbancar “deuses” que o aflito mundo interior do homem erigiu através dos séculos.
      É possível inferir que Hamlet preocupa-se com alguma forma de verdade, de outro modo, por que estaria tão ansioso? Que loucura lúcida seria essa que o faz ver além das aparências?  Ele é a possibilidade das possibilidades; Nietzsche declarou a morte de Deus e passou alguns anos de sua vida, até a sua morte, em profundo silêncio. Hamlet acredita-se um covarde, por não ter suicidado... Ele vislumbra possibilidades até mesmo após a morte; sonhos que poderíamos sonhar durante o sono da morte.  É um pós-niilista, pois critica a si próprio. Enquanto o existencialismo se dá por satisfeito em tirar Deus da equação, Hamlet investiga todas as possibilidades. Como tal, é expressão do pensamento humano que é livre para investigar e criar, aceitar ou recusar os recados subliminares em meio ao caos da existência. Os outros personagens não parecem muito preocupados com o que preocupa Hamlet, por isso, é considerado louco. Hamlet destoa dos demais, parece não haver lugar para ele naquele reino. Esses recados subliminares norteiam toda a obra de Shakespeare, não somente em Hamlet. Em Hamlet, a sutileza, a ironia jaz em cada frase, pois “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia.” (1.5.46)

                      “Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a
                       dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a
                       considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono
                       da morte, quando nos tenhamos libertados do torvelinho
                       da vida. Aí está a reflexão que torna uma calamidade a
                       vida assim tão longa”! (3.1.253)
 
    “... E é assim que a consciência nos transforma em covardes e é assim que o primeiro verdor de nossas resoluções se estiola na pá da sombra do pensamento e é assim que as empresas de maior alento e importância, com tais reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação...” (3.1.252)

      Hamlet é uma viagem ao interior de um homem profundamente angustiado por não poder confiar em ninguém e por saber que vivia num mundo construído mais sobre mentiras e aparências do que verdades. Sua herança lhe foi tirada. Ser só aparência não satisfaz, pois, aparências escondem verdades mais profundas, aparências podem disfarçar mentiras ou acobertar verdades que deveriam ser reveladas.  “Não ser” pressupõe a essência do que deveria ter sido.  Onde está, pois, a essência? Esta é a grande armadilha para o pensamento... Não há escapatória... O verbo “SER” é intenso, não se esvazia - SER CHEIO DE NADA, SER VAZIO DE TUDO; o vazio é a possibilidade do que poderia ter sido. O “nada” angustia a natureza humana. A consciência nunca se esvazia... Seria o último sopro de vida capaz de encerrar a consciência? “O resto é silêncio” (5.2.190), o silêncio pode ser muito eloquente para o espírito humano. Astronautas descrevem o silêncio sideral como sendo algo que assusta e revela a nossa insignificância, deixa-nos deslumbrados e impotentes.  O silêncio eterno soa à alma humana como uma prisão sem grades...Palavras inaudíveis que a alma humana consegue decodificar. Como diz Leithart (2006, p.11) “We are, after all, made in the image of the God whose name is word.”
      Quando Deus apareceu a Moisés, identificou-se como: “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.” (Êxodo 3:14) O verbo ser remete a nossa essência - “SER HUMANO”, por isso, a morte nos soa estranha; não nos acostumamos com ela, apesar de ser tão real.

      O primeiro coveiro pergunta: “Quem fez construções mais sólidas do que o pedreiro, o engenheiro ou o carpinteiro”? (5.1.303) “... Quando te fizerem a pergunta uma outra vez, responderás: o coveiro. As casas que ele constrói duram até o juízo final”. (5.1.303)

      Segundo o primeiro coveiro, a morte é o vazio mais sólido da vida.  Para Sartre a morte torna a vida absurda. Para muitos, a morte não faz sentido... Não seria isso um desejo por eternidade? Não seria a vida tão preciosa que deveria eternizar-se? Para Hamlet a vida é um evento singular, é possível extrair valor até onde eles não existem. A consciência humana é algo extraordinário, de difícil investigação para aqueles que querem excluir Deus do palco da existência. A consciência e os pensamentos são a prova viva de que Deus habita em nós.  Há uma lei moral que habita até no coração do ateu.   “Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que é visível.”  (Hebreus 11:3)
 
                  Hamlet - Será que esse homem não tem consciência de seu
                               ofício, cantandoenquanto abre uma cova?”
                  Horácio -  O costume familiarizou-o com a tarefa.
                  Hamlet  -   É exatamente isso; a mão que menos trabalha, é
                                aquela que tem o tato mais suave”.  (5.1.303)
     
        Hamlet busca o ideal, por isso se angustia, Hamlet é o ser incompleto, vivendo só a realidade, porém querendo algo mais além do que covas, pás e crânios podem representar. Para o cristianismo, o mundo ideal é o que move a fé. Viver sem fé é viver só a existência, seria um crânio sem história, seria História sem juízo final. A mão que menos “trabalha” é o espírito. Trabalho interior, por isso é a mão “que menos trabalha”, pois ninguém a vê... Mas está lá... alimentando angústias, esperanças e sonhos.  O espírito é ator no palco interior do ser humano, lá onde o pó da terra não vai corroer.
        A náusea da existência é a consciência de que o real é absurdo, desprovido de razão de ser. Para Heidegger a angústia retira “o indivíduo do cotidiano e o reconduz ao encontro de si mesmo.” (Aranha & Martins, 2009, apud Heiddeger)
        O cristão angustia-se diante da sua incapacidade de ter vida em si mesmo e encontra sua identidade de filho, através da união com Cristo. A cruz é a angústia pela qual todo cristão tem que passar, a morte é o confronto final com nossa essência pó, essência coveiro... enterramos pais, irmãos, amigos – nosso primeiro choro é o começo da vida da nossa morte, ao que chamamos existência.   Penso que a fé é mais vantajosa que a descrença. A fé genuína te leva ao encontro da sua fraqueza que pode se tornar sua força. Nenhum remédio criado pelo poder da ciência é capaz de trazer a paz em cápsulas. Ciência sem Deus é frágil, ela é mão amiga e confortante só para a vida que conduz até a cova; a ciência se enterra a si mesma quando nega Deus. Ao descartar o criador, a ciência se automutila, declara-se apenas maquiadora de cadáveres. A ciência droga o ser humano para que ele morra sem dor, a fé nos dá força para suportar a dor da morte e aguardar o dia radiante da ressurreição. O céu da ciência é o céu do ‘Prozac’. O céu do Cristão é paz interior a despeito do confronto com a dura realidade da morte.
       O coveiro cantando enquanto abre covas é o existencialismo que se agarra à morte como única forma de vida.  A canção do niilismo ateu, é uma forma de adoração ao nada. As duas grandes guerras conceberam uma geração de incrédulos; a morte viva na memória da velha Europa, os fez descrentes da vida.  É a espera vã de Estragon e Pozzo, em “Esperando Godô”, peça de Samuel Becket, que narra um diálogo aparentemente sem sentido entre dois homens.  Quando God, “godô” não vem, a vida perde o sentido.
       O cristão, entretanto, enfrenta a morte todos os dias, ao lembrar a si mesmo que ele é pó, por isso precisa de fé para ver o invisível, onde reside toda a beleza da vida.  Para o existencialista a vida não tem sentido por causa da morte. A ciência e a filosofia vivem pelo que vê e raciocina, o cristão vive pela esperança da ressurreição, pela volta à casa do Pai Eterno.
   
          Hamlet – Que eu possa guardar o vosso segredo e não o meu. Além do mais, ser interrogado por uma esponja! Que poderá responder-lhe um filho de rei?
          Rosencrantz – Tomais-me por uma esponja, príncipe?
          Hamlet – Sim, Senhor, que chupa os favores, as recompensas e a autoridade reais. Aliás, semelhantes cortesãos prestam ótimo serviço ao rei, que procede com eles como o macaco, conservando-os por algum tempo no canto da boca, antes de engoli-los. Quando tem necessidade do que acumulastes, basta espremer-vos, para que, esponjas, fiqueis novamente enxutos.
                       Rosencrantz – Não compreendo o que dizeis, Senhor.
                       Hamlet – O que muito me alegra. As sutilezas dormem
                                      no ouvido dos parvos. (4.2.126)
           
       
          Para Hamlet, a vida real jaz nos bastidores de nossos atos, Hamlet percebe as sutilezas por trás de cada gesto hipócrita.  Hamlet é sensível a sua alma:

                                Hamlet - ... Meu Pai! Às vezes julgo ver meu pai.
                                Horácio – Como, Senhor?
                                Hamlet -  Com os olhos da alma, Horácio.  (1.2.23)

         Há uma vida que pulsa por trás da vida que dizemos ser real. Nesta peça Shakespeare dá voz à alma humana, sufocada pela prisão da existência natural, a voz da alma que sente saudades de algo que ela mesmo não sabe o que é.  No monólogo com o crânio de Yorick as ânsias do homem interior, aprisionado pela mortalha da existência vêm à tona. Onde reside o espírito, se os ossos os vermes vão comer? Se os sentimentos são tão reais, para onde eles vão, depois que o corpo voltar ao pó, à sepultura? A dor interior de Hamlet é tão real quanto a vida que ele percebe através dos sentidos.
      Hamlet é um “herói” porque busca a verdade em meio a pessoas que querem apenas existir. A sua sensibilidade o faz ver que existe algo por trás da aparência das coisas.
“...Que demônio vos logrou de uma vez na cabra-cega? O olho sem tato, o tato sem visão, o ouvido só por si...” (3.4.115) A ciência, muitas vezes, é olho sem tato, tato sem visão, pois ao explicar as leis físicas, tentam excluir a causa primeira delas.
   Hamlet carrega um desconforto consigo mesmo, uma angústia, uma busca pelo ideal, embora envolvido por dura realidade; sua herança lhe foi tomada.  Na verdade, não somos mais os mesmos desde que nos separamos do pai, no Éden. Para Platão o mundo das ideias é onde habita toda beleza.  A Bíblia declara: “Pela fé compreendemos que o Universo foi criado por intermédio da Palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi produzido a partir daquilo que não se vê”. (Hebreus 11:3)
 
      Aquele de olhos sensíveis à alma vão estar sempre à procura de um pai perfeito, um rei bom que morreu dentro de si. O espectro do pai, é a identidade de filho perdida no Jardim do Éden. O governo da vida se fundamenta num pai bondoso e ético.  Segundo o coveiro, Adão foi o primeiro a abrir covas, a morte entrou por ele. Abrindo covas, para esconder seu erro, para sepultar mortos, para fugir do pai eterno: “Um grande rei, um homem, na acepção lata do termo foi assassinado sem que ninguém visse...” (1.2.23) A vida no Éden era sustentada pela relação íntima com o pai, o criador. O homem assassinou seu próprio ser ao distanciar-se do criador.
               Leithart (2006, p.17) diz: “Shakespeare uses ghosts to make profound points about guilt and the consequences of sin”.

         Na escuridão do seu ser, Hamlet, não consegue distinguir verdade de mentira.
 “...tão duvidosa é a forma que assumiste... dou-te o nome de Hamlet, rei, meu pai...” (1.4.36) Um príncipe não pode deliberar sem luz, nas trevas, na incerteza. Sem saber o que via ou quem era, Hamlet deu ouvidos à sua própria dor e frustrações. A vingança não compete a príncipes. Um governo justo não vinga, pratica atos de justiça.  Hamlet poderia impedir a ação de Cláudio, de modo mais prático. Essa é a sua falha. Os guardas, a noite escura, a espera da invasão inimiga, fala dos ataques psicológicos que sofremos na vida. O sofrimento pode nos fazer prisioneiros de nós mesmos.
                                        De acordo com Harold Bloom:
                            Prince Hamlet is the intellectual´s  intellectual: the
                        nobility, and the disaster of Western consciousness. Now
                        Hamlet has also become the representation of
                        ntelligence itself, and it is neither Western nor Eastern,
                        male nor female, black nor while, but merely the human
                        at its best, because Shakespeare is the first truly
                         multicultural writer. (Bloom, 1998:205)

       “Há algo podre no reino da Dinamarca.” (4.1.221) isto é, no coração do homem, que acaba refletindo na forma como ele governa seus interesses.  Hamlet diz:
 ‘Um assassino, um vil escravo... um simples gatuno de governo desta terra que a coroa empalmou da prateleira e a pôs no bolso... “Certo congresso de vermes políticos...” (4.3.283)
    Hamlet consegue ver o que os outros não perceberam: a essência de Cláudio, o usurpador ‘Onde está o rei? ... Está ceando... Um rei gordo e um mendigo magro são iguanas diferentes; dois pratos, mas para a mesma mesa: eis tudo.’ (4.3.129) Hamlet se recusou a aliar-se ao falso rei, a ser comido pela sua falsidade e dela saborear.  Hamlet luta pela sua integridade. Não quis ser cúmplice de crimes contra sua própria identidade, não quis ir contra a voz de sua consciência.
              O sofrimento faz de Hamlet um cético, um descrente. O suicídio de Ofélia é a pureza que não tem trânsito na vida do homem desiludido, ferido, machucado, corrompido.  A inocente donzela se vê oprimida pelo pai interesseiro, o ‘mendigo magro que come à mesa do rei gordo’ e pela indefinição de Hamlet. A pureza não tem lugar nos palácios. O poder se corrompeu.
            A tragédia, como modalidade dramática, mostra que apesar da limitação, o homem é uma grande possibilidade. Há sempre quem sobrevive para contar a história do herói morto. A tragédia é uma forma de lembrar ao homem da sua mortalidade - sua  falha trágica, e o frágil poder dos poderosos. De acordo com Smith:
                           
                   Only Christianity offers a worldview in which tragedy
                    makes sense and tragedy as a literally genre is edifying
                    … the fact that salvation can only come through
                    suffering is part of the theology of tragedy. In a fallen
                    world in a world of suffering there are no simple
                    solutions. The problems of sin cannot be solved by
                    comic means. It takes death to remove death (49).

               Hamlet é a tentativa humana, a fragilidade humana em busca de algo mais sólido. Sua falha é a sua indecisão, o não agir quando necessário. Embora seja o responsável pela morte de muitos ao seu redor, o homem/Hamlet é também a própria esperança. Hamlet representa o pensamento, a vã filosofia dos nossos filósofos que  amam a investigação por si só, como exercício puramente intelectual, não a busca pela verdade e pela virtude como propuseram Sócrates e Platão, hoje “desprezados”.
   
             De alguma forma a ciência, a filosofia, e o intelecto humano tentam usurpar o lugar de Deus na História e no coração do homem. Para se conhecer a Deus a um caminho a ser percorrido entre o coração e a razão. Agostinho declarou: ‘Creio para compreender e compreendo para crer melhor”. A ciência de Kant, não acredita em verdades absolutas, só na aparência delas. Montaigne, crítico do humanismo cristão, vê com ceticismo o dilema humano; hoje, o pós-modernismo/pós-estruturalismo, sequer se preocupa com “uma presença”; na verdade, nem tenta tomar o lugar... Importa desconstruir...  “Vive la diffèrrance!”
         
              A sua história será recontada por Horácio, o amigo fiel, o sobrevivente.  A razão operante, a vida que continua, mesmo que imperfeita. Pode ser que pelo seu exemplo, outros não incorram no mesmo erro.  A história humana é recontada em várias narrativas, sob vários ângulos e pontos de vista. Tudo depende do leitor. Nietzsche, coitado, fez do seu inferno seu ideal, “O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz um ideal do seu inferno." Em meio ao lusco-fusco da existência, há os que buscam pela luz, pelas respostas. Alguns buscam na filosofia outros na religião, política, poesia, e há outros que não se preocupam... apenas vão vivendo, cantando, enquanto abrem covas... Outros, fazem da cova sua canção.
       
            Horácio -   “uma vez chegados a esta cena sangrenta, uma da
                             Inglaterra, outra da guerra da Polônia, ordenai que
                             os corpos sejam expostos num tablado bem à vista,
                             que eu contarei ao mundo que o ignora como tudo
                             se deu... dos atos carnais, de incestos, sangue,
                             julgamentos casuais, mortes fortuitas, crimes por
                             acaso ou pela astúcia, e de planos gorados caídos
                             sobre os próprios autores. Com verdade tudo isso
                             contarei... Ponhamos pressa, enquanto inquietos os
                             espíritos se acham, para novas desgraças evitar,
                             oriundas de erros ou de trama
                              conscientes.’(5.2.191)
 
    Segundo o coveiro uma mentira viva que circula, é que a sepultura é somente para os mortos. Não seria o parágrafo acima a descrição de um cemitério e não da história da humanidade, tecida com sangue, ódio, rancor e intrigas?

                               O Brasil das Esponjas

       No Brasil, tornou-se público o esquema oculto sob o qual operam os políticos... Quão real é para nós brasileiros a cena final a qual presenciamos por aqui... Muitos são os mortos, envenenados pela mentira, caem na teia que eles próprios tecem; as delações premiadas são um tipo de espada envenenada; cálices trocados cheios de morte.  vítimas da corrupção e ganância pelo poder... Esponjas, sugam  e espremem uns aos outros. Assassinaram em si o ideal de servir ao povo, prostituíram-se em casamento falso, cuja festa celebram com dinheiro público; ao povo somente as migalhas que caem das suas mesas; O povo não precisa apenas de pão; o líder verdadeiro deveria gerar no povo também um sentimento de integridade; o brasileiro faminto, segue após o milho como galinhas. Afinal, não foi assim que se expressou o célebre comunista? “Primeiro vem o estômago.”  O povo que sofre não merece só milho, o verdadeiro líder deveria ser espelho de sonhos... dar-lhe o pão e também o céu. Em nome da governabilidade se associam descarada e inescrupulosamente buscando somente lucro pessoal e a manutenção no poder.
        Na peça, não fica claro se Claudio e Gertrudes são traidores ou se são muito autoconfiantes... Tudo é muito sutil... Não há culpa explícita neles. Cinismo ou inocência? Alguns dos nossos, aqui no Brasil nos passam a mesma impressão; mentem tão sinceramente e ainda carregam atrás de si muitos adeptos. “Há algo de podre no reino” ... No Brasil, o fantasma da corrupção passou a incomodar alguns... Nesse ponto, não quero ser cética, mas às vezes duvido se sobrou algum “Fortimbrás” honesto no Brasil.

       Ser ou não ser, eis a questão: viver ou morrer diariamente, ser comido pelos vermes que habitam sob o pó da existência, ou beber do veneno da vida aparente, vida que é morte, vida que é sombra, espectro, ilusão da mente, engano do coração angustiado.
       
                                       Desconectados ...

        Não se pode compreender Hamlet sem reconhecer em Cláudio um usurpador, ele tirou de Hamlet o direito de ser rei. Leithart (apud WILSON, 1996, p.125) afirma:
“we cannot understand Hamlet without recognizing that Claudius is a usurper, who seized the throne that should rightly have passed from King Hamlet to his son.”
        Segundo o Cristianismo a vida real nos foi tomada no Éden pelo pecado. Hamlet em sua profunda angústia, não conseguiu amar, pelo contrário, levou à morte muitos ao seu redor.  Hamlet é emblema da condição do homem caído, longe do pai. Boa intenção só não basta... Intelecto é muito pouco diante do infinito. A ciência, a política e a religião são sistemas humanos falhos e imperfeitos. O Cristianismo é um relacionamento de Pai e Filho, relacionamento este que foi perdido no Éden, mas restaurado pela cruz de Cristo.
       A vida, segundo o ensino bíblico se fez do nada, e é sustentada pela palavra de Deus, logo, o invisível rege o visível. O sustento da matéria se dá pelo espírito.
        Fica a pergunta final: Quem governa o palácio que é o seu coração?
      Para o cristão, há uma esperança: Deus, o Pai eterno, pelo seu filho, vingou a vida que nos foi tirada no jardim do Éden, crime tendo como testemunha ocular o próprio Deus, o pai eterno que tudo vê, Aquele que abre sepulturas e sopra o vento da vida sobre ossos secos.

 
Referências

ARANHA, M.L. de A. Aranha & MARTINS, M.H. P. Filosofando - Introdução à Filosofia. São Paulo. Moderna, 2009.
SHAKESPEARE, William. A Trágica História de Hamlet Príncipe de Dinamarca. Ridendo Castigat Mores. www.Jahr.org. Nelson Jahr Garcia. EbooksBrasil.com.
Hamlet. Direção: Franco Zefirelli, Screenplay:  Christopher  De Vore,  1991.
Bíblia Sagrada, Ed. Revista e atualizada no Brasil.  Ezequiel 37:13, Romanos: 5: 12.
Hebreus 11:3
BLOOM, Harold. Shakespeare: the invention of the human. New York: Riverhead Books, 1998.
LEITHART, Peter J. Brightest heaven of invention: a Christian guide to six Shakespeare plays. Moscow, ID. Canon Press, 1996.
MENDES, Oscar & MEDEIROS, C. de Almeida C. Shakespeare – Tragédias. Sinopses, Dados Históricos e Notas de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros. São Paulo: Abril Cultural, 1981.
SMITH, Ralph Allan. Shakespeare the Christian – The Bible in Shakespeare´s Plays, 2011. pdf.www.berith.org. accessed Sept.2015, 49.
ROSS, David A. The Poetics of Philosophy [a reading of Plato] Newcastle – UK. Cambridge Scholars Publishing, 2009. Web. 45
SOELLNER, Rolf. Shakespeare´s Patterns of Self-Knowledge. Ohio State University Press, 1972. Print.  3, 18, 29-28, 44
VASCONCELOS, José A. “O que é a Desconstrução.” Revista de Filosofia, Curitiba, v. 15 n.17, p. 73-78, jul./dez. 2003, acessado 24.05.18
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000073.pdf
http://www.sparknotes.com/home/shakespeare
Obed Souza
Enviado por Obed Souza em 29/05/2018
Código do texto: T6349667
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Sobre a autora
Obed Souza
Pedra Azul - Minas Gerais - Brasil, 53 anos
40 textos (16893 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/06/18 02:59)
Obed Souza