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"Entre mitos e verdades: a história do regime militar" de Brasil Paralelo: um revisionismo histórico mentiroso, desonesto e repulsivo

Livro "Entre mitos e verdades: a história do regime militar" publicado pelo site Brasil Paralelo, defensor do Liberalismo Econômico e de alinhamento ideológico à Direita. Distribuído gratuitamente em formato digital, a obra medíocre apresenta uma versão alternativa bizarra para a história da Ditadura Militar no Brasil.

Tem estado na moda no Brasil, em anos recentes, principalmente após a não-aceitação do resultado equilibrado das Eleições Presidenciais de 2014 pela oposição (PSDB, na figura de Aécio Neves), a prática do Revisionismo Histórico, com alinhamento à Direita no espectro político, com fortes características reacionárias, conservadoras e, em alguns casos, fascistas. A presente obra não foge à regra.

O livro tenta desconstruir três fatos já consolidados sobre história da Ditadura Militar no Brasil:

1) A Ameaça Comunista nunca existiu
2) O Regime Militar foi um Golpe, pois não teve apoio popular
3) Os grupos guerrilheiros lutavam pela democracia.

O Revisionismo Histórico tem uma característica peculiar. Ao mesmo tempo em que ele desconsidera mais de 50 anos de estudos nas áreas de História, Política, Sociologia, Antropologia, etc., com uma narrativa já consolidada com fontes, em paralelo, ele hipervaloriza certos acontecimentos que, por si só, não teriam a importância apregoada. Adicione uma dose generosa de Teorias da Conspiração, intolerância com pensamentos antagônicos e elitismo e, pronto: você tem um cardápio recheado de inverdades/fantasias e de desonestidade intelectual.

A SUPOSTA AMEAÇA COMUNISTA

O livro começa a narrativa remontando à Internacional Comunista (Comintern), organização criada por Lenin, na União Soviética (URSS), e que tinha como objetivo congregar organizações/partidos que tivessem o mesmo alinhamento e objetivos. Segundo o livro, a expansão dos ideais da Comintern se expandiria no Brasil através da criação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), com foco na figura de Luís Carlos Prestes. Isso é controverso visto que, desde aquela época, uniformidade de atuação e pensamento nunca foi uma constante na Esquerda brasileira.

A criação da ANL seguiu o exemplo de várias organizações criadas naquela década de 30 em vários países, e que surgiram a partir da necessidade de unificarem a atuação para enfraquecerem o avanço do Nazismo e do Fascismo. Havia igualmente uma preocupação em lutar contra um governo totalitário que, no Brasil, era representado na figura de Getúlio Vargas. Logo, muito longe de ser um plano maquiavélico secreto para implantar o comunismo aqui.

O livro então trata da derrota de Prestes na chamada Intentona Comunista, mas o livro ignora o complexo quadro político daquela época. Desde a década de 20 e 30 o Brasil vivia em instabilidade. Com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 ainda ecoando e Vargas governando como ditador, revoltas pipocavam no país a todo momento, por meio do Tenentismo e da Revolução de 30, e que tinham objetivos de vários tipos, a maioria buscando a melhoria das condições do povo (ainda que, por vezes, com atuação controversa).

Reduzir a atuação da Intentona Comunista apenas a um plano de expansão da URSS é ignorar toda a balbúrdia presente naqueles anos, nos quais este movimento foi apenas um dentre vários, e que só está recebendo um tratamento diferenciado no livro por ter tido uma suposta interferência da Comintern. Isso é desonesto. O livro deixa subentendido também que todo aquele quadro revoltoso existente no país inteiro era apenas representações de tentativas de tomada de poder por comunistas, o que é absurdo.

Há, inclusive, uma afirmação de que Nikita Khrushchov, então líder da URSS, e Luís Carlos Prestes teriam se reunido em 1961 para planejarem a "revolução agrária no Brasil". Fontes? Nenhuma. Atribui-se ao líder soviético uma importância exacerbada no que diz respeito à atuação dos comunistas no Brasil. Nikita não gozava de tanto prestígio assim nem mesmo na URSS. Suas críticas a Stalin e sua atuação na conhecida crise dos mísseis em Cuba minaram a maior parte de sua influência entre os políticos de seu país.

Há igualmente no livro citações sem fontes abordando o treinamento militar (de guerrilha) no exterior, de militantes de esquerda, no período entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o Golpe Militar (1956-1964). Esse período, por coincidência, foi certamente o apogeu do PCB, que defendia (vejam só!) uma Revolução Burguesa, de característica mais reformista, não de guerrilha. Foi o sucesso da Revolução Cubana, por meio da luta armada, que fez com que alguns membros do PCB se sentissem insatisfeitos e partissem para organizações mais aguerridas, por assim dizer, como a Ação Popular (AP) e a Política Operário (POLOP). Estas, só começaram, de fato, a atuar numa "guerrilha", após o Golpe de 1964! O livro é igualmente desonesto ao afirmar que tais treinamentos surgiram de forma organizada, principalmente entre o período de 1945 e final da década de 1950. A postura de atuação por meio da força se fortaleceu a partir do início da década de 60 mas, ainda, era insipiente, não havia uniformidade de atuação. A luta armada de resistência por parte da Esquerda teve início realmente, de fato, como falei, a partir da instalação da Ditadura Militar em 1964, como resistência a ela!

O livro cita uma reportagem de 01/12/1962 no qual o jornal O Estado de São Paulo, de alinhamento à Direita, anuncia "o desmantelamento de um campo de guerrilha no Estado de Goiás, pertencente às ligas camponesas". A publicação é desonesta pois, em nenhum momento, ela diz que tais ligas camponesas já existiam desde o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e tinham como objetivo a busca da reforma agrária e a melhoria das condições de vida no campo do Brasil!

Em outro trecho, o livro aborda o "Congresso Continental de Solidariedade a Cuba", ocorrido em 1963, em Niterói (RJ), como mais uma evidência do "perigo comunista". Tal evento teve ampla divulgação na época, com participação de líderes e organizações do mundo inteiro, e que queriam demonstrar o apoio ao direito de autodeterminação do povo cubano, representado na Revolução de 1959. Cuba sofria as consequências de um embargo econômico recém-criado pelos EUA e que visava enfraquecer o país. Tal evento, portanto, se justificava e não havia nenhum objetivo soturno. Pelo contrário: o recado deveria ser claro ao mundo, ou seja, que deveria-se respeitar o direito de Cuba. Na teoria do livro, isso assume características de teoria da conspiração. Afinal, que revolução secreta é essa que faz tudo às claras? Essa paranoia lembra muito a questão do "Foro de São Paulo", entidade "secreta", mas que todas as atas de reunião estão disponibilizadas gratuitamente na internet (risos).

Então, vem o Governo de João Goulart (Jango). Por ser de esquerda e querer fazer as chamadas "reformas de base", o livro classifica isso como evidência do "perigo comunista". Afinal, dentre as reformas, havia a proposta de reforma agrária (e isso é "coisa de comunista", né?). Jango defendia a reforma educacional, fiscal, eleitoral, urbana e bancária, alinhada ao Plano Trienal. Tais reformas poderiam ter reduzido em muito a desigualdade no Brasil. Contudo, o clima não era favorável. Cisões nas Forças Armadas eram constantes, somado ao clima de Guerra Fria estimulado pelos EUA. Acrescente como combustível o caráter conservador da Sociedade (influenciado pela Igreja Católica e pela imprensa) e a postura crítica de camadas influentes (empresários, banqueiros, grandes proprietários de terras, etc.), cujos privilégios poderiam ser ameaçados por pautas "de esquerda", tais como a reforma agrária. Diga-se de passagem que, já naquela época, grande parte das propriedades do território nacional estava concentrada nas mãos de políticos e empresários, formadores de opinião. Jango teve dificuldades inclusive para assumir, após a renúncia de Jânio Quadros, tendo sido necessária a criação da "Campanha da Legalidade", liderada por Leonel Brizola.

Diante de um quadro tão complexo, Jango desde sempre optou pelo diálogo, tentando negociar as reformas que o país já precisava naquela época. O golpe de 1964 se deve mais à polarização dentro das Forças Armadas, totalmente divididas, do que propriamente à postura de Jango. E isso foi grave pois as Forças Armadas deveriam garantir a estabilidade necessária para o Governo eleito poder atuar, e não desestabiliza-lo. Se a população elegeu um governante (ou vice) de esquerda, respeita-se. Não cabia e não cabe às Forças Armadas se colocarem acima do povo no direito de escolher quem bem entender, tão pouco interferir no Estado de forma criminosa.

Havia naquela época e há no livro uma tendência à demonização do Comunismo. Da mesma forma que não basta você dizer que está numa democracia para isso tornar seu país democrático, igualmente não podemos afirmar que basta um país se dizer comunista para que ele, de fato, esteja alinhado com o pensamento definido por Marx e Engels. O Comunismo, em essência, sequer precisaria de um Estado e, obviamente, isso anularia de seu alcance todas as experiências que já tivemos. Nunca houve um país comunista, dentro da definição dada pela própria teoria comunista. O comunismo é uma utopia, um ideal, cuja aplicação no mundo real não possui um manual (Marx não descreveu isso). A maioria dos comunistas não apoiavam a ditadura de Stálin, que influenciou outras ditaduras pelo mundo (certamente, Marx sentiria repúdio disso). Não existia sequer consenso, entre os comunistas, de que a luta armada é o melhor caminho para alcançar esse ideal. E sobre Cuba, fica a pergunta: se o Comunismo é tão nocivo por que se dar ao trabalho de aplicar um embargo econômico impedindo um país de se desenvolver? Por que tentar sabotar um país com um embargo e não deixar ele se colapsar sozinho? Seria, talvez, medo de que Cuba demonstre a viabilidade do Comunismo como regime? Há quem diga que o principal motivador da atual ditadura cubana é o embargo que causa instabilidade e não, propriamente, o comunismo...

Voltando ao livro... lá se afirma: "A vulnerabilidade do cenário político provocou estagnação econômica e uma inflação descontrolada". Na realidade, Jango já herdou esse quadro. Em seguida, o livro fala que Jango então pede a aprovação de um decreto de Estado de Sítio, diante do clima dividido e politizado. O que o livro não diz é que foram os próprios ministros militares que sugeriram esse decreto! O livro omite isso para não atrapalhar a narrativa fantasiosa, no qual Jango tentaria dar um golpe comunista a todo custo.

O livro então aborda os Grupos dos Onze (G-11) idealizados por Brizola nos idos de 1963. Novamente aqui o livro atribui uma importância maior do que deveria, seguindo o exemplo lá do seminário de apoio à Cuba. O clima do país era tenso, dividido ideologicamente por influência da Guerra Fria. Jango precisava implementar reformas necessárias para o país diminuir a desigualdade e se desenvolver. Precisava fazer isso com setores reacionários e conservadores influentes dizendo "não" a qualquer iniciativa sua, classificando-o como "comunista". Além dos setores de praxe (empresários, políticos, proprietários de terra), com receio de perder privilégios, havia ainda contra Jango camadas das Forças Armadas (não era toda a organização), a Igreja Católica, a Imprensa... Diante desse quadro, Brizola criou os G-11 como uma forma de atrair o povo à discussão das reformas e não atrair a população para a luta armada, como o texto sugere! Chega a ser risível isso, principalmente quando sabemos que os G-11 não chegou a ter um funcionamento de fato, conforme a própria fonte citada no livro! O máximo que os G-11 conseguiram foi promover o semanário "O Panfleto", de Brizola. Os G-11 não tinham orientação comunista, sequer socialista; na prática, estavam mais para uma inciativa nacionalista.

No início de 1964, devido à toda essa resistência, Jango começou a viajar pelo país para tentar sensibilizar a população para a necessidade das reformas de base. Em 13/03/1964, Jango iniciou essa fase com o famoso discurso na Central do Brasil, com mais de 150.000 pessoas presentes. Esse discurso foi o estopim para o golpe. A questão é que não há nele nada, uma única linha, que indicasse um golpe. Havia sim a ideia de iniciar as reformas, principalmente a agrária. Em nenhum momento Jango disse que desrespeitaria o Congresso. Pelo contrário: disse que submeteria as reformas para apreciação e convidou os congressistas a escutarem as vozes das ruas. Jango elogiou as Forças Armadas (pasme!).

O que o livro chama de "ameaça comunista" era, na realidade, a tentativa de realizar a reforma agrária e outras reformas que muito melhorariam o país. O que se viu não foram tentativas dos comunistas de tomarem o poder a todo custo. Não há nenhuma evidência de que haveria uma revolta armada nos moldes do que ocorreu em Cuba. O que se viu foram algumas camadas das Forças Armadas promoverem a instabilidade no Governo e, consequentemente, no país. Isso, somada a um clima de divisão ideológica reforçado pela Guerra Fria e uma postura reacionária/conservadora da Igreja, da Imprensa e de forças militares, permitiu o início da Ditadura. O Comunismo nunca foi ameaça pois nunca seus ideais foram colocados em prática. E dizer que as experiências ditatoriais da URSS e de Cuba, cada uma com suas complexas diferenças e características, se repetiriam no Brasil, é fantasiar, mentindo e estabelecendo supostas ligações a eventos que, por si só, não tem ligação alguma.

Por fim, pode-se dizer que a tomada de poder pelos militares, sem qualquer indício de resistência contrária, é uma evidência de que não havia intenção de Jango ou dos comunistas em tomarem o poder.

O SUPOSTO APOIO POPULAR

Na segunda parte do livro, a obra tenta transmitir a falsa ideia de que o Regime Militar teve amplo apoio da sociedade. Cita a constrangedora "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", como ficaram conhecidas as marchas surgidas a partir do discurso de Jango. Esses eventos tinham a participação de organizações conservadoras e de cunho religioso, como o próprio nome sugere.

O que o livro não explica bem é que boa parte dessas manifestações foram organizadas pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) que, por sua vez, recebeu generosos financiamentos de empresas nacionais e multinacionais, com o intuito de manipular a população de classe média baixa e os mais pobres. O objetivo era claro: dar a falsa impressão de que várias camadas da sociedade eram contra as reformas de base que, por sua vez, favoreceriam a própria sociedade. A citada Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) chegou a mobilizar mulheres atuando, inclusive, em favelas, para influenciar a opinião das camadas menos favorecidas, e que eram o principal ponto de sustentação do Governo de Jango.

Naturalmente que a Imprensa, mais conservadora, e quase sempre ligada a grupos de interesse dominante, não apoiaria as reformas.

A massa popular, que hoje ainda não tem voz suficiente, naquela época pouco ou nada influenciava. Sua voz não era escutada pelos grupos dominantes. Sempre foi assim. E, convenhamos: numa ditadura, quem manifesta-se contra, é sumariamente calado. Simples assim. E os atos institucionais impostos pelo Regime Militar calaram a população, que se sentiu coagida.

A SUPOSTA LUTA DOS GUERRILHEIROS CONTRA A DEMOCRACIA

Nessa parte do livro, a obra tenta vender a ideia de que os guerrilheiros de esquerda, que foram a resistência à Ditadura, não lutavam de fato pela Democracia. É a parte mais repulsiva do livro. Observem esse trecho:

"(...) O risco de um golpe socialista no Brasil era evidente. A ocupação do poder pelos militares não fora leviana. Possuía metas claras: desmantelar as estruturas de poder da extrema esquerda, a fim de restaurar um ambiente de plenitude democrática; e promover uma reorganização econômica e o combate à corrupção (...)"

Ora, não havia qualquer evidência de um golpe socialista, como dito acima. O Golpe de 64 quis foi impedir a aplicação de reformas necessárias à população, idealizadas por um presidente democraticamente eleito.

Não houve "reorganização econômica". Pelo contrário: ao término da Ditadura, os militares entregaram um país falido, afundado na inflação e na dívida externa. A Ditadura Militar representou mais de duas décadas de atrasos para o Brasil e seu estrago será sentido ainda por vários anos.

E sobre o "combate à corrupção", isso é uma piada! Toda a estrutura corruptiva do Brasil na atualidade, teve sua gênese e/ou sua estruturação/expansão durante a Ditadura, quando não havia quaisquer controles e tudo ficava encoberto. A população não tinha acesso, ora devido à anuência da Imprensa, ora devido à censura em vigor. Quem denunciasse era censurado e/ou assassinado! A Ditadura Militar favorecia empresários que lhes apoiavam, por meio de troca de favores e com muito dinheiro envolvido!

O livro tenta o indefensável: justificar as violação dos direitos individuais e da população por meio de atos institucionais criminosos! É repugnante o malabarismo intelectual necessário para tentar justificar uma "ditadura" em nome de uma suposta "ameaça comunista" que nunca foi evidenciada. Centenas de pessoas foram assassinadas e torturadas (crianças, inclusive)! As torturas envolviam desde espancamentos e choques, até mesmo a inclusão de ratos vivos em vaginas de prisioneiras (prática difundida por Brilhante Ustra, vangloriado pela Extrema Direita brasileira)!

Naturalmente, diante de uma Ditadura, aí sim surgiu uma luta armada de resistência e o livro tenta estabelecer paralelos entre ela e os grupos esquerdistas (e os episódios isolados) citados no início da obra. Em resumo: estabelecer falsas relações e analogias para sustentar uma narrativa onde a Esquerda, tal como uma "entidade uniforme", tenta a todo custo tomar o poder e destruir a nação, o que justificaria uma ditadura militar para destruí-la e salvar o país. Uma loucura!

O livro chega a sugerir como prática usual que militantes de esquerda, quando queriam abrir mão da luta armada, eram assassinados por seus pares, tentando fazer aqui, provavelmente, uma analogia com grupos criminosos atuais surgidos com o advento da Ditadura, tais como o PCC e o Comando Vermelho. Repugnante!

O livro sugere que o Brasil viveu uma "guerra", onde os militantes de Esquerda (chamados de "terroristas") estavam guerreando contra a Democracia. Isso "justificaria" a Ditadura. Quantas aspas!

CONCLUSÃO

O autor desse lixo literário, desta porcaria de livro, é o site Brasil Paralelo, um dos vários grupos da chamada "nova direita" que surgiram nos últimos anos. Esse revisionismo histórico se baseia numa visão bizarra da realidade onde todas as faculdades e centros de ensino foram invadidos por militantes de esquerda que, com sua visão "ideológica", influenciaram a versão oficial da história.

É uma teoria da conspiração, uma pseudo-intelectualidade, que encontra ecos apenas na internet, onde qualquer um pode ter voz e público. Um exemplo disso são os engraçados terraplanistas, numa analogia.

Nada no livro se baseia em evidências, mas em suposições malucas. Neste livro, de 67 páginas, por exemplo, constam apenas sete referências, que tentam refutar a "história oficial" já consolidada nos últimos 50 anos. 67 páginas contra 50 anos de estudo referenciado! Contudo, essas referências citadas não abrangem a narrativa, mas pontos isolados, tentando enganar o leitor. Por exemplo, há como referência alguns verbetes do "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro", da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Há o discurso do Jango e as atas daquele Seminário sobre Cuba. Por fim, há uma fonte indicando a posição da OAB sobre a Ditadura, também uma publicação da FGV. Patético!

No meio acadêmico e científico esse revisionismo histórico não é levado a sério. É motivo de piadas, de ridicularizações.

Para finalizar, tal livro foi feito como uma forma de divulgação de um documentário chamado "1964, o Brasil entre armas e livros", feito pelo mesmo site. O documentário que, pelo trailer, defende a Ditadura Militar, deve estrear em breve, e traz os depoimentos de alguns "intelectuais", dentre eles: o ex-astrólogo e guru da família Bolsonaro Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé e Luiz Philippe de Orléans e Bragança, "herdeiro do trono brasileiro". Tenso...

A luta contra o Comunismo, um inimigo inexistente, sempre foi uma desculpa usada como justificativa para todo tipo de abusos contra a população. Foi assim em 1964, é assim nos dias atuais. "Entre mitos e verdades: a história do regime militar" é um livro com conteúdo mentiroso, desonesto, irresponsável e repulsivo, que tenta atenuar um crime cometido contra a Democracia brasileira, provavelmente o pior deles, visto que sacrificou grandes oportunidades que o Brasil tinha e estabeleceu os parâmetros de boa parte daquilo que nos envergonha, hoje, na Política.

(BRASIL PARALELO. Entre mitos e verdades: a história do regime militar. Brasil Paralelo, 2018, 3ª edição, 67 páginas)

P.S.: Análise de obra escrita em março de 2019.
Manoel Frederico
Enviado por Manoel Frederico em 30/03/2019
Reeditado em 20/04/2019
Código do texto: T6611435
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Manoel Frederico
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 35 anos
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