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Cisne Negro: pequena e rápida análise

Darren Aronosfky tem uma filmografia recheada de personagens neuróticos que se autodestroem na busca por um ideal particular de plenitude, do campo matemático ao meio familiar, passando pela experiência transcendental e do espaço de um ringue à exibição artística no palco. Em Cisne Negro (Black Swan, 2012) Natalie Portman interpreta uma bailarina talentosa cujo grande potencial é, a um só tempo, exigido e represado por uma Barbara Hershey no papel de uma mãe super protetora e emocionalmente dependente do sucesso e do empenho da filha.

Nina (Portman) é uma personagem tímida e retraída, infantilizada pelo abusivo controle maternal e a trama do filme gira em torno desse rígido invólucro de repressão que começa a partir-se, muito mais do que uma busca inumana por perfeição artística, quando ela é escolhida para o papel de bailarina principal de O Lago dos Cisnes. A fissão em sua personalidade não se dá porém devido ao seu empenho para interpretar o cisne negro que representa no palco tudo o que ela não é, dentro e fora dele. É Lily (Mila Kunis), a sua rival nos bastidores, mais do que as investidas inconvenientes de seu diretor artístico (Vincent Cassel), quem lhe desperta uma sexualidade latente, sexualidade esta que, em doses homeopáticas, encontra vazão, tanto no exercício de tarefas autoestimulantes quanto em fantasias e sonhos molhados, e é personificada na figura de uma Doppelgänger, um duplo.

E quem pode desdenhar o papel omnipresente dos espelhos no filme? O espelho, que segundo as crenças populares é o que nos revela a alma de seu observador, pois a Doppelgänger de O Cisne Negro não é o peso da consciência de William Wilson de Poe, nem a entidade física e anômala de Máximo Afonso de Saramago, ou mesmo o que viria a ser, na adaptação para os cinemas do último, uma fantasia inconsciente que escapou às quelíceras de mulheres predadoras em O Homem Duplicado (The Enemy, 2013) de Denis Villeneuve; o duplo de Nina é o que emerge de suas autoflagelações, tanto reais quanto sonhadas, um potencial represado e uma carga de energia vital e sexual que foi imolada pelo controle doméstico rígido e um empenho mecânico e imaturo para alcançar um nível artístico elevado e estéril que no seu modo de ver é a própria perfeição artística. Perfeição ascética que sofre duros golpes durante o curso inteiro do filme até o momento derradeiro em que, liberta finalmente de suas inibições, ela compreende, tarde demais, que a plena performance artística está aliada não somente ao empenho e ao talento mas à destruição de todos os medos e amarras.
vagas paragens
Enviado por vagas paragens em 21/04/2019
Reeditado em 23/04/2019
Código do texto: T6628958
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
vagas paragens
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 25 anos
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