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"Libelo contra a arte moderna" de Salvador Dalí: maior do que a genialidade de Dalí, apenas o seu ego

Livro "Libelo contra a arte moderna", escrito pelo pintor espanhol Salvador Dalí. Pequeno em tamanho, a obra permite uma ampla discussão...

Antes de falar da obra em si são necessárias algumas definições. A palavra "libelo" vem do ambiente jurídico. Segundo o Professor Google, trata-se de uma "dedução apresentada pelas partes a um magistrado antes do início do processo, na qual se encontra o essencial da acusação ou da defesa" ou, para ser mais preciso, uma "acusação ('apresentação escrita ou oral')". E é justamente nessa segunda definição que o livro se encontra, com Dalí tecendo ataques contra a Arte Moderna. Mas o que é a "Arte Moderna", afinal?

Arte Moderna designa todas as expressões artísticas que surgiram entre o final do século XIX e metade do século XX. Com o advento da Revolução Industrial e o consequente desenvolvimento das máquinas, criou-se entre os artistas de então uma percepção de que a vida mudava e rapidamente. O surgimento do Cinema, da Fotografia, de ciências que buscavam um estudo mais detalhado da mente, como a Psicologia, principalmente o método psicanalítico (ironicamente pseudocientífico)... tudo isso influenciou para que os artistas da época migrassem para três correntes de pensamento/atuação: primeiro, uma busca pela ruptura com o status quo, com as regras vigentes da Arte, tentando representar os novos tempos, a vida moderna ("Estilo"); em segundo, uma tendência à introspecção, colocando-se nas obras uma representação interior dos sentimentos, das emoções humanas ("Mente"); por fim, havia alguns artistas (arquitetos e designers principalmente) que se preocupavam com a funcionalidade da Arte, focado no modo de vida das pessoas e como estas se relacionavam com a mesma ("Função"). A Arte Moderna foi definida principalmente através das vanguardas artísticas, ou seja, uma série de movimentos artísticos independentes e que iam de encontro com essas três correntes díspares.

Uma das vanguardas que mais se destacariam nesse período foi o Surrealismo. Surgido em Paris, nos anos de 1920, idealizado por André Breton, tinha como principal influência o trabalho de Sigmund Freud, pai da Psicanálise. Sendo assim, os artistas surrealistas buscavam, em suas obras, temas ligados ao inconsciente, aos sonhos, à atividade criativa. O Surrealismo influenciou o Cinema, tendo Luis Buñuel como principal expoente, o Teatro, na figura de Antonin Artaud, e as artes plásticas em si, com vários artistas, como René Magritte, Max Ernst e, é claro, Salvador Dalí, principal e mais conhecido artista do movimento.

Breton pintava numa técnica mais "tradicional" temas de sonhos/alucinações, Ernst acrescentou uma certa ironia e elegância aos temas e Yves Tanguy promoveu em suas telas paisagens imateriais. Dalí, por sua vez, representava a síntese do que havia de melhor e mais criativo na pintura surrealista, englobando tudo isso que foi citado em pinturas com imagens vibrantes em temas freudianos.

Num ambiente prolífico de vanguardas, com diversos artistas fazendo todo tipo de experimentações, nem tudo agradava a Dalí. No livro, ele tece críticas aos trabalhos de artistas quase inquestionáveis como, por exemplo, Rimbaud, Miró, Le Corbusier, Cézanne, Mondrian e, principalmente, Picasso. Os ataques de Dalí eram direcionados não apenas aos artistas cuja obra ele detestava, mas aos críticos que as enalteciam. Para Dalí, a Arte Moderna não só enganava como também corneava os próprios críticos, promovendo a feiura generalizada e a hipervalorização da técnica. Uma arte que deveria ser moderna, para Dalí, deveria ser, no mínimo, equivalente em qualidade a uma obra de Rafael, artista renascentista, por exemplo. Ainda segundo Dalí, os críticos de Arte (Moderna) podem ser enganados de quatro formas diferentes: pela feiura, pelo moderno, pela técnica e pelo abstrato.

Sobre a feiura, Dalí diz que os críticos começaram a odiar o Classicismo, menosprezando-o, neste período de evolução, "maravilhando-se com uma nova beleza, que diziam 'não-convencional'" e que, comparada com a beleza clássica, se tornava frívola. O cúmulo da feiura seria Pablo Picasso, consolidador do Cubismo. Por exemplo, a tela "Nu deitado" de Picasso. Para Dalí, "gravíssimo, impossível algo pior, pura bestialidade". Dalí chegava a escrever a Pablo Picasso para criticar suas pinturas. Um telegrama sarcástico é descrito no livro e é inusitado (para não dizer divertido), observar essas "tretas" entre os pintores: "Pablo, obrigado! Tuas últimas pinturas ignominiosas mataram a Arte Moderna", assim começava o texto enviado.

Sobre o moderno, segundo Dalí, "nada envelheceu mais depressa e pior do que aquilo tudo que num momento eles qualificaram de 'moderno'". Primeiro, Dalí tenta desqualificar os críticos por meio de um artigo onde ele defendia seu amigo Gaudí, o "último grande gênio da arquitetura", preterido pelos críticos em comparação com Le Corbusier. Gaudí representava o que, de fato, seria algo mais moderno e criativo do que a arquitetura apagada e atenta apenas "para o uso" representada pelo chamado Modern' Style. A arquitetura de Le Corbusier, Barr, Sweeney e Malraux seria envelhecida.

Sobre a técnica, para a Dalí, os críticos de Arte Moderna era ludibriados pelo Impressionismo. Nesse ponto, Dalí tece um ataque contra Paul Cézanne que, por sua vez, em suas pinturas, não buscava se orientar pelas leis da perspectiva, mas modificava-as tomando como base formas geométricas básicas (cilindro, cone, esfera) na representação da natureza. Cézanne é considerado um dos precursores do Cubismo, movimento encabeçado pelo citado Picasso.

Sobre o abstrato, segundo Dalí, os críticos foram enganados pela Arte Abstrata cuja semente estava em Picasso (que fixação!) e que, em essência, ao valorizar a forma, perdia significação, tornando-se um nada. Pollock e Mondrian são as vítimas aqui.

Dalí era de um ego tão grande quanto sua genialidade. Era exagerado e injusto em boa parte dessas suas críticas. Uma das coisas que tornam a Arte fascinante é sua capacidade de se modificar e promover pontos-de-vista díspares. Ao limitar o espectro artístico, Dalí perdia a oportunidade de expandir a possibilidade de sua atuação. Era um gênio, mas com visão limitada pela sua própria genialidade. É falacioso ou injusto comparar uma pintura de Rafael com uma de Picasso quanto, na realidade, são contextos históricos e propostas diferentes.

Dalí era um conservador, dentro da forma de ver a Arte. E esse conservadorismo era perceptível em outras questões. Na década de 30, por exemplo, apoiava abertamente a ditadura de Francisco Franco, durante a Guerra Civil Espanhola, fato que o levou a ser expulso do Movimento Surrealista por Breton. Mesmo apoiando Franco, um fascista, Dalí, aparentemente, não concordava com as ideias anti-semíticas do ditador. Por exemplo, Dalí era amigo do design e arquiteto Paulo László, que era judeu, e se declarava admirador de Freud e Einstein, que possuíam ambos raízes judaicas.

Era de certa forma irônico Dalí elogiar a ditadura de Franco, de característica conservadora-religiosa e, em paralelo, ter um caso amoroso extraconjugal com o poeta Federico García Lorca. Detalhe: durante toda a vida, Dalí foi casado com Gala Éluard, sua musa inspiradora.

Isso denota uma personalidade contraditória e que, ao mesmo tempo que tinha o anseio de se aventurar no novo, seja no campo pessoal quanto no artístico, ele retornava a uma zona de conforto. Esse conflito se traduzia numa personalidade crítica/ácida em relação aos demais e numa preocupação excessiva em buscar criar uma identidade própria (até o peculiar bigode contribui para o entendimento dessa busca). Dalí era uma figura fascinante para aqueles que ele admirava e, para os desafetos que ele criticava, uma figura, no mínimo, cruel e injusta em suas colocações, certamente.

Enfim, "Libelo contra a arte moderna" é uma obra que permite um olhar mais profundo para o pensamento do famoso pintor e que, independente de se concordar ou não com suas opiniões, incentiva a um mergulho nas diversas ramificações artísticas. Injusto, sarcástico, contraditório, reacionário e irônico, bem como genial e bem-humorado... todos adjetivos pertinentes a Dalí, uma criatura complexa tanto como artista quanto como pessoa. Contudo, se não fosse a autenticidade, nenhum adjetivo seria perceptível e, consequentemente, sua Arte, tão fascinante, cairia ainda mais no intimismo, dificultando sua compreensão e contemplação.

Sugestão de algumas obras para melhor compreensão da resenha:

Pinturas:
- "A persistência da memória" de Salvador Dalí.
- "Escola de Atenas" (1509), de Rafael.
- "Nu couche et femme se lavant les pieds", de Pablo Picasso.
- "Montagne Sainte-Victoire" de Paul Cézanne.
- "Natureza-morta e um relógio preto" de Paul Cézanne.
- "Composição II em vermelho, azul e amarelo" (1930) de Piet Mondrian.
- "Número um" de Jackson Pollock.

Arquitetura:
- "Vila Savoye" (França) de Le Corbusier.
- "Casa Calvet" (Barcelona, Espanha) de Antonin Gaudí.
- "Parque Guell" (Barcelona, Espanha) de Antonin Gaudí.

(DALÍ, Salvador: tradução de Paulo Neves. Libelo contra a arte moderna. Porto Alegre: L&PM, 2018, (L&PM Pocket Plus, volume 713), 112 páginas)

P.S.: Resenha escrita em 2018.
Manoel Frederico
Enviado por Manoel Frederico em 23/04/2019
Código do texto: T6630952
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Manoel Frederico
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 36 anos
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