UM LIVRO DE PRESENTE (CULT)

Professores, escritores, músicos e jornalistas destacam os livros que mais os impressionaram em 2013

Livros têm vida longa e alguns mudam a própria vida. É um prazer estético vê-los dispostos nas prateleiras de livrarias e uma alegria manuseá-los calmamente, sentindo cada página pelo tato.Livro cheira melhor que perfume francês e tem mais delicadeza e elegância que qualquer roupa disposta em araras de boutiques. Livro finge displicência, mas exige repertório.

Eles não são perecíveis, não saem de moda e combinam com todas as casas e com todas as almas. Basta olhar para eles e saber escolher. As jovens jornalistas Amanda Massuela e Mariana Marinho conversaram com alguns professores, escritores, músicos e jornalistas – que leem muito e acompanham a produção literária nacional e internacional – e fizeram a eles a seguinte pergunta: “Em 2013, qual livro você destaca e porquê?”.

As respostas servem de guia para a sua escolha de presente de Natal. Bom proveito.

Francisco Bosco, escritor e filósofo

Lançado há pouco no Brasil, o livro Longe da árvore,de Andrew Solomon, é um vasto estudo cultural, entrelaçando medicina, psicanálise, política – e é ainda um belo depoimento pessoal que encarna as situações estudadas. Em suas quase mil páginas, Solomon entrevista mais de trezentas famílias nas quais os pais tiveram filhos com algum tipo de deficiência ou de diferença em relação ao padrão familial ou cultural. Justamente, uma grande questão do livro é analisar as noções de identidade e de deficiência por meio de um debate teórico agudo (que, de passagem, mostra ao leitor brasileiro o quão conservador e pouco experimental é o nosso país também em questões civis e direitos de minorias). Conversando com pais de surdos, autistas, esquizofrênicos, criminosos, Solomon empreende ainda uma investigação sobre as dimensões narcisistas e altruístas do amor parental. Em conjunto, o livro é um exuberante debate sobre os desafios políticos, socias e culturais, os dilemas éticos das novas tecnologias (como o projeto Genoma) e as formas do amor no mundo contemporâneo.

Tom Zé, músico

Estamos lendo aqui em casa, em voz alta, um grande romance de formação, que ombreia com outros importantes, como o paradigmático A Educação Sentimental, de Flaubert. Falo de Ganhando o meu pão, da trilogia autobiográfica de MaksimGórki, da Cosac Naify. Lamento que o livro seja finito, gostaria que a leitura se estendesse por anos. Ela se incorpora ao leitor, a cada capítulo, pela solda de sua verdade, seu teimoso entusiasmo pela vida. Identifica singularidade, beleza, fragilidade e força em cada sujeito da narrativa. No romance, há lixo e brilhantes. Górki prova o poder invencível do talento: nascido muito pobre, sujeito ainda menino a um trabalho escravizante na Rússia do século 19, desenvolve a fé vital na convivência com a avó – personagem inesquecível – e na paixão pela leitura. Ainda criança, torna-se leitor e crítico surpreendente de livros emprestados aqui e ali. Exausto pelas tarefas brutais do dia, os patrões o proibindo de ler, a criança não pode ser detida e se torna um gigante da criação literária. Porque tem alma.

Francisco Alambert, professor

Sim. Eu o reli porque ele morreu. Quando o li pela primeira vez, na metade dos anos 1980, dizia-se que o que havia morrido era a “modernidade”. Na verdade, ninguém, nem os que a “mataram”, sabia bem do que se estava falando, com a exceção de um outro marxista norte-americano, FredricJameson. Aí apareceu Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman. O livro mostrava a modernidade como um vórtice de transformações e inovações constantes, libertárias e medonhas, desde o pacto terrível de Fausto, desde as destruições de Baudelaire ou dos urbanistas. E que quem havia entendido tudo isso, melhor do que qualquer outro, foi Marx, sobretudo em seu Manifesto Comunista, que Berman ensinava que podia ser lido tanto como uma reflexão profundíssima sobre o caráter do moderno capitalismo quanto como um épico modernista. Aprendemos que o pós-moderno era uma impostura do moderno e que Marx estava vivo. Gostei e coloquei meio de lado. Tenho restrições a uma série de questões, restrições que se duplicaram nesta releitura de agora. Mas o que se multiplicou mesmo foi a admiração por uma reflexão tão livre e ousada, tão generosa e cheia de desdobramentos. Dividi-o com meu alunos, que se empolgaram ainda mais que eu, obrigando-me, inclusive, em nome da dialética e da reflexão marxista aprofundada, a defender seu crítico, Perry Anderson. Mas ficou a certeza de que Berman, o judeu marxista do Bronx, foi mesmo um dos mais insubordinados e vivos pensadores modernos. Gostava do Brasil e odiava Brasília. Gostava de Marx, Baudelaire, John Coltrane e Bruce Springsteen (ele me disse uma vez quando o conheci pessoalmente, junto com Virgílio Costa e Nicolau Sevcenko, que ninguém poderia entender a classe operária norte-americana sem ouvir Springsteen). Seus textos eram cheios de cultura “moderna”, do ponto de vista das ruas, e de imensas contradições. Um livro que pode não ser tão sólido, mas que jamais se desmancha no ar das ideias toscas liberais. Um sujeito muito bacana.

Noemi Jaffe, escritora e crítica literária

Tipos de perturbação, de Lydia Davis, conseguiu, como adianta o título, me perturbar de várias formas diferentes, e acho que essa é uma das reações mais interessantes que a literatura pode provocar. A ausência de transbordamento, mesmo ao falar de situações dramáticas, é realmente perturbadora e deixa o leitor num estado entre pânico, estranhamento e desassossego constante. E tudo isso sem apelo à complicação ou ao pedantismo. Tudo na maior simplicidade. Gosto também do fato de ela experimentar formas novas, quase sempre breves. Para mim, esse livro foi, durante o ano, um sinal de que sempre é possível encontrar o novo na literatura.

Marcelo Mirisola, escritor

Vejam só o que o autor de Dentro da Baleia escreveu em 1940: “(…) quase com certeza estamos rumando para uma era de ditaduras totalitárias – uma era em que a liberdade de pensamento será o princípio de um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem sentido”. Acertou no alvo: a liberdade de pensamento e as individualidades agonizam. Um pouco mais de George Orwell, 73 anos depois:

“(…) Nenhum chavão religioso do tipo ‘a verdadeira individualidade só é alcançada através da identificação com a comunidade’ pode esconder o fato de que uma mente comprada é uma mente podre (…) A imaginação não se reproduz em cativeiro”.

A imaginação – eu acrescentaria – não se reproduz em gaiolas de ouro (Flips, Itaús etc.) e tampouco em cooperativas de periferia. Daí que é fundamental ler e reler Orwell: apontando o dedo para a omissão dos intelectuais de sua época em face do massacre que a extinta URSS promovia contra jornalistas e escritores, ele conseguiu se projetar no tempo e vislumbrou as torres do edifício Abril, os saraus esotéricos da nossa querida e fofa Vila Madalena e os puxadinhos do Capão Pecado, incluindo todos no mesmo balaio/cativeiro. Orwell ontem, hoje e sempre!

Lourenço Mutarelli, escritor

Deus foi almoçar, de Ferréz, foi um grande presente para mim. Sentia falta de ler esse amigo que é tão importante para meu trabalho e para a minha vida.

Aurora Bernardini, professora

Um romance que me agradou particularmente e que li recentemente é Minha querida Sputnik. Apesar do título estridente (sputnik é um termo russo e significa “companheiro de viagem”), o livro me impressionou pela sensibilidade insólita e pelas imagens visuais que suscita, particularmente as da costa grega. Mas o grande achado é a concepção de “duplo” da qual ele se vale, que, embora sendo fantástica, convence plenamente o leitor de sua existência real. Do mesmo autor, li uma coletânea de contos e o volumoso 19Q4, mas Minha querida Sputnik supera todos.

Eliane Robert Moraes, professora e escritora

Uma das mais gratas surpresas da literatura brasileira nos últimos tempos foi o lançamento de O sonâmbulo amador, assinado pelo pernambucano José Luiz Passos. O romance coloca em cena um personagem em crise, que tenta se explicar ao leitor em quatro diapasões distintos, cada qual configurando uma forma narrativa. Como se fossem flagrantes de um mesmo caleidoscópio, esses quatro cadernos nos colocam em contato com a consciência fraturada de um sujeito comum – o prosaico Jurandir, funcionário de uma tecelagem no interior de Pernambuco – que vasculha as bordas de sua humana condição. Intérprete de Machado de Assis, a quem dedicou um vigoroso ensaio, Passos se revela herdeiro de seu mestre ao criar um narrador de particular agudeza cujo tom oscila entre o humor, a ironia e o ceticismo. A forte aposta no elemento onírico, porém, confere singularidade à sua voz, confirmando-o como um dos mais talentosos escritores de sua geração.

Luiz Ruffato, escritor

Páginas sem glória mostra Sergio Sant’Anna em sua melhor forma. São raros os escritores que mantêm uma qualidade ao longo da carreira. Um dos melhores livros dele.

Otto, músico

O livro que estou sempre lendo é O Castelo, de Kafka. Ele é sempre atual no mundo. Revela as coisas que amedrontam a humanidade. A desinformação. O muro que desequilibra o ser. A crua ignorância. O Brasil cabe direitinho no enredo. O caos das almas.

Alcino Leite, jornalista e editor da Publifolha

Filólogos e estudiosos da literatura medieval, os irmãos Grimm reuniram, no início do século 19, uma coleção de contos populares alemães que se tornaria parte essencial do imaginário do Ocidente. Basta citar alguns deles: “A bela adormecida”, “Branca de Neve”, “O pequeno polegar”, “Rapunzel” etc. A maioria de nós conheceu essas histórias em adaptações que deturpam bastante a escrita original dos autores, que defendiam uma linguagem simples, concisa e sem ornamentos, capaz de expressar a força do mito na imaginação popular. A vigorosa tradução de Christine Röhrig para a Cosac Naify foi feita diretamente dos livros publicados em 1812 e 1822 e recupera, para a língua portuguesa, sem meias palavras nem correções políticas, todo o impacto das narrativas fabulosas dos irmãos Grimm.

Heitor Dhalia, cineasta

Recentemente, reli O herói de mil faces, de Joseph Campbell. Um livro definitivo sobre a dramaturgia e a jornada do herói que tem um lado místico muito impressionante.

Alexandre Barbosa de Souza, poeta e editor

Dos livros que eu li em 2013, O livro das mil e uma noites foram quatro dos melhores. Em busca do tempo perdido sem dúvida foram sete dos melhores que li em 2013. Os primeiros dez volumes d’A comédia humana também estão entre os melhores dezessete. Tratado da elegância, tratado dos excitantes modernos. Foi um ano muito fins de 1970, uma espécie de abertura e educação política; outros dois muito esclarecedores foram Amor e capital, aquela biografia familiar de Marx, e Rituais de sofrimento, da Silvia Viana. Dos vivos, Banville, os poemas da Herta Müller e As leis da fronteira, do Javier Cercas, sobre quinquis, foram as três melhores surpresas de 2013 para mim. Dos brasileiros, gostei muito de ter conhecido a poesia e o poeta Paulo Cesar Nunes, que deve sair ano que vem. Mas se tiver que destacar alguns, acho que foram Ilusões perdidas, duas vezes, e os Esplendores e misérias das cortesãs, ambos de Balzac.