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O alambamento: casamento tradicional nalgumas culturas de Angola

O alambamento

Introdução

Pretendemos, com o presente trabalho, falar sobre o alambamento, apresentar a sua etimologia, seu conceito, bem como destacar algumas marcas que o fazem distinguir do casamento “convencional”, aspectos exigidos para que haja um alambamento, comparações entre o alambamento realizado no passado e o que se verifica actualmente.














O alambamento

Etimologia

A esse respeito, parece não haver consenso entre diversos estudiosos quanto à origem do lexema “alambamento”. Vamos, abaixo, apresentar estas controvérsias:
Segundo  Barroso e Cunha (s.d., p. 1), o alambamento tem origem na língua kimbundu e, mais tarde, foi aportuguesado para “alembamento”.
De acordo com Mbambi (2014, p. 2), «o alambamento é um neologismo criado pelos angolanos para preencher a lacuna verificada na língua portuguesa para designar ovilombo (pedido de casamento) em umbundu». Segundo ainda ele, «o termo ovilombo surge do verbo okulombaque que significa pedir em português».
O primeiro, como vimos, diz-nos que o lexema  "alambamento" surgiu na língua kimbundu, mas o segundo sugere que se trata de um lexema novo criado pelos angolanos para colmatar o vazio deixado pela lexicologia portuguesa, pelo simples facto de não possuir um lexema que reflectisse aquela realidade cultural.
As versões sobre o alambamento são várias. Uns, vêem-no como um casamento tradicional; outros, porém, chegam a vê-lo como um pedido para a ligação matrimonial, tal como nos diz Santos (2017, p. 8):

Outra questão a ser evidenciada refere-se à diversidade de versões sobre que consiste associação do termo alambamento. Há indícios que em determinada época o termo alambamento referiu-se à cerimônia de casamento, tendo assim reconhecimento e  legitimidade social. Em outras versões, refere-se apenas ao pedido para o enlace matrimonial, o que não atesta aos nubentes os direitos sociais e legais enquanto esposo e esposa.
A esse respeito, Mbambe conscientiza-nos de que «uma portaria do então Governo-Geral da República de Angola, de 22 de Dezembro de 1948, caracterizou o alambamento como prova do casamento.

Conceitos
Para os primeiros autores referenciados acima, o alambamento «consiste num conjunto de mercadorias e de presentes que o noivo dá por contrato, sendo visto como símbolo de casamento, prêmio aos familiares da nubente como indenização pelos gastos feitos com ela desde o seu nascimento até ao dia do casamento, uma vez que foi essa família que a gestou e criou».
Para o livro didáctico de Língua Portuguesa da 8.ª classe  (2008, p. 54),  o alambamento é o «conjunto de preparativos e entregas que preparam e legitimam o casamento. Uma família junta a qualidade de bens necessários para que um membro seu receba uma mulher de outro grupo, que enriquecerá o grupo com os filhos e o trabalho agrícola; a outra família  condivide os bens necessários».
Santos (2017, p. 11) define o alambamento como sendo «um conjunto de preparativos e entregas que a família do noivo faz  a parentesco […]. Consiste na entrega de quantias em dinheiro, roupas, calçados, bebidas, animais e determinados objetos, que são comumente solicitados pelas tias da noiva».
A nosso ver, o alambamento consiste numa espécie de casamento tradicional,  no qual uma família reúne os bens necessários exigidos por outra (família),  para que, entretanto, possa receber em troca um membro de uma outra família, no caso de uma mulher.
Tal como o ocidente tem o seu casamento, na cultura bantu o alambamento assemelha-se ao casamento convencional, aquele que acontece na igreja e na conservatória, o que o torna mais importante em relação ao casamento formal.
Em muitas etnias bantu, o alambambento ou casamento tradicional é o mais importante, pois concede ao marido a categoria de genro. É com o alambambento que se adquire os poderes de marido sobre uma mulher e de pai sobre os filhos, os quais por sua vez são criados dentro da moral cívica das suas culturas (Santos, 2017, p. 12).

  Há, em relação a isso, alguns aspectos característicos do casamento bantu que, no entanto, o faz distinguir-se do casamento ocidental, como é o caso da «carta de pedido», na qual se faz presente os requisitos indispensáveis a serem dados por uma família, no caso a do homem, para que então a cerimónia  aconteça. Segundo ainda Santos (2017, p. 12), referindo-se ao alambamento na perspectiva bakongo, diz-nos que «um casamento só se realiza com o acordo dos pais, principalmente do chefe do clã ou família materno chamado Nkulubundu e dificilmente se trata com os noivos, mas sim com os mais velhos destes com a presença das testemunhas chamadas Ntetembua,  representados pelos sábios e aciãos da comunidade».
Para Santos (idem), a carta de pedido, muitas vezes elaborada pelos pais ou tios da noiva, consiste em uma lista de pedidos de bebidas e objectos simbólicos para aquele grupo social. O cumprimento e entrega desses elementos representa a firmação desse compromisso perante a sociedade, a qual presencia como forma de testemunho ocular do contrato social.
É nesta perspectiva que Barroso e Cunha (s.d., para. 1) vão dizer que o alambamento «passou a considerar-se como garantia  do contrato de casamento,  ou como caução  impeditiva da sua rescisão. É tido como caução impeditiva porque em caso de divórcio a família da noiva é obrigada a devolver os bens recebidos.
Se olharmos para a componente sociocultural, veremos que há, deveras, razões suficientes para que tenhamos nas nossas sociedades algo do género, pois permite uma ligação, por exemplo, entre grupos étnicos diferentes, aos quais se vão interagindo e, consequentemente, partilhar os hábitos e custumes que se lhes são peculiares, fazendo com que uma família conheça as particularidades culturais da outra, e assim vice-versa, uma vez que, segundo Mbambi, «o alembamento se constitui numa cerimônia muito ritualizada, sendo o primeiro encontro formal da família do noivo e da noiva, onde são entregues os presentes, e apresentados os noivos às duas famílias».
Reforçando o que acima dissemos, Barroso e Cunha (s.d., para 2) asseguram-nos que:

Essa cerimônia é de grande importância cultural em Angola, pela própria manutenção dos hábitos e costumes que identificam determinado povo, bem como pela valorização da mulher e da família que a criou, uma vez que o alembamento se traduz num estímulo às virtudes no seio das famílias angolanas, estando em jogo não apenas a formação de uma nova família, mas acima de tudo o estabelecimento de uma aliança pública entre as duas famílias.

Embora se registe uma «troca» de bens materiais e humano, para os bantu isso não equivale à noção de «compra» e «venda», como muitas vezes se faz perceber.

Este costume aparece tão difundido que se especifica o casamento «negro-africano», tal como «nenhum banto dá a entender que o alambamento seja uma compra mediante pagamento. Se aparece esta cambiante ou se verifica esta triste realidade, é devido a abusos ou à corrupção dos custumes. (Manual de Língua Portuguesa da 8.ª classe, 2008, p. 54)

Em oposição ao que muito se afirma, Angola é, indubitavelmente, um conjunto de muitas nações, e não somente de uma. Não a sendo, cada nação tem os seus custumes e hábitos culturais que se lhes são próprios, dos quais algumas nações se aproximam, e outras, porém, distanciam-se. Com isso, é nossa pretensão  dizer que, tal como é a cultura, os bens que se exigem para que um casamento tradicional ocorra variam de cultura a cultura, relação cultural, aspectos socioeconómicos.
 
Sobre os elementos culturais presentes na cerimônia de casamento ou alambamento, identifica-se uma  variação desses elementos no tempo e no espaço. Todavia, tais variações não modificam sua importância na sociedade uma vez que exercem profundas influências sobre os indivíduos, assim como norteiam não só os modos de união conjugal, mas também os requisitos, as normas e papéis sociais a serem cumpridos de acordo com os saberes, valores, costumes que os identificam. (Santos, 2017, p. 8)

Valoriza-se, no alambamento, a mulher bonita, que sabe fazer em condições os trabalhos domésticos, tais como lavar, passar a ferro, cozinhar e, por último, que tenha um grau de letramento considerável. Para uma mulher que reúne aqueles itens, é possível que os bens exigidos possam ser avultados em relação àquela mulher que não reúne, na totalidade, aquelas condições.
Normalmente, os bens exigidos, isso a depender do grupo etnolinguístico, podem ser constituídos de/por objectos, alimentos, vestuários, álcool, animais, utensílios domésticos ou de agricultura, dinheiro, etc. De acordo com Barroso e Cunha (s.d., para 2),

Nos dias de hoje, os bens ofertados são constituídos  basicamente por: dois panos, um para a mãe da noiva e outro para a tia (trata-se da tia paterna); um terno completo (calça, camisa, colete, gravata, paletó, sapato) para o pai da noiva, alguns engradados de refrigerante e/ou cerveja (que variam de 7 a 14 engradados), dois lenços de cabeça para cada uma das avós, um “petromax” (tipo de lamparina), um sobretudo (chamado “casacão”) para o tio materno, Podem ainda ser ofertados uma garrafa de maruvo (vinho de palma), vinho comum, galinhas, noz cola3, algumas garrafas de whisky e perfume para a mãe da noiva. É entregue ainda uma soma em dinheiro que é definida em função do estatuto social, das famílias dentro da comunidade.  A lista dos bens é entregue aos emissários, que a fazem chegar aos restantes membros da família, sendo esses bens levados na altura da cerimônia, se salientado que o não cumprimento pode acarretar no rompimento do acordo firmado.
Em relação ao que se regista hodiernamente, parece haver, nas sociedades modernas angolanas, um exagero de requisitos em comparação ao que no passado se exigia. Com o passar do tempo, algumas culturas passaram a exigir mais do que nas épocas pretéritas e, com isso, alguns vêem/veem a mulher como uma «mercadoria» que deve ser «comprada». Todavia, segundo o livro didáctico de Língua Portuguesa da 8.ª classe (2008, p. 55),

«O alembamento, segundo o seu significado original, converte-se no mais comum instrumento de aliança e amizade entre os grupos sociais bantos. Torna-os solidários, já que estreita laços físicos e espirituais […]».

No fundo, o que se pretende com o alambamento  é, deveras, o estreitamento dos laços familiares, união familiar, a extensão do grupo, etc.









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Conclusão

Consoante o que foi aqui apresentado, chegámos a concluir que, do ponto de vista etimológico, há uma controvérsia no que diz respeito à origem do lexema alambamento: há evidências de que tal lexema tenha origem em kimbundu e em umbundu, mas há ainda autores que acreditam que «alembamento» em vez de «alambamento» é um caso de aportuguesamento da variante kimbundu «alambamento».

Sobre a sua concepção e utilidade sociocultural, entendemos que se trata de um encontro entre duas famílias, cujo objectivo principal é o de unir e estreitar os laços familiares, bem como juntar dois grupos etnolinguísticos diferentes. Ainda assim, o vimos como sendo uma prática sociocultural angolana em que se regista uma entrega de bens exigidos por parte da família da noiva, a fim de receber, como «troca», um membro de uma outra família. Os bens e os rituais, entretanto, variam de região a região.

Em relação ao tempo, concluimos que nos actos actuais se verificam um certo exagero no que diz respeito aos bens pedidos por parte da família da noiva. Em certas regiões, vê-se o alambamento como sendo um acto simbólico em que quase nada de material se pede. Noutras, ao contrário, sem a reunião necessária dos bens exigidos, o alambamento, uma aliança sociocultural, não ocorre.











Referências bibliográficas

Santos, V. Representação Simbólico da Cerimônia de Casamento Tradicional Angolano, in Revista África e Africanidades – Ano IX n. 23, abr. 2017-10-07.
Barroso, N. P., Cunha, C. F. [s.d] O casamento tradicional em Angola. [s.l]
Manual de Língua Portuguesa da 8.ª classe. (2008) Luanda: Texto Editores.

CaetanoCambambe
Enviado por CaetanoCambambe em 06/12/2017
Código do texto: T6191939
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Sobre o autor
CaetanoCambambe
Luanda - Luanda - Angola, 22 anos
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