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Entre a Poesia e a Consciência, há outra Ciência

Cadê a água que brotava das profundezas desse solo?

Foi aprisionada no encanamento.

Cadê o encanamento?

Foi alimentar as cidades; de lá, desceu ladeira abaixo, indo parar no esgoto.

Cadê o esgoto?

Juntou com a podridão do esgoto velho e seguiram abraçados em direção aos rios.

Cadê os rios?

Debilitados e minguados pela falta de fôlego, abrem-se em meandros e param nos caminhos, sem forças para chegar aos destinos, ou fozes.

Cadê os destinos, ou fozes?

Estão secos pela falta de quem morreu.

Se não ouvi relatos sobre morte, quem morreu?

Morreram as nascentes; as quais, nasciam águas em torrentes.

            Em 1981, Guilherme Arantes, cantor, compositor e músico paulistano, escreveu uma das letras mais emblemáticas sobre o Recurso Água. Indiscultivelmente, não é uma letra de música somente, não é um conjunto de letras formando frases em estrofes quaisquer, mas um poema de rara inspiração. À época e anos depois, a música tornou-se um hino em louvor ao líquido solvente, reconhecido mundialmente pelos órgãos de natureza humana, como um "Bem de uso Comum".
        De quando escrita até o presente momento, o qual dedico os meus parcos e mal fadados conhecimentos de vida que estão se esvaindo à cada segundo em direção ao escancaramento dos portões do cemitério, para escrever este desprezível texto, qual ouvinte apurou os tímpanos para o poema musicado? Quem é o brasileiro sustentável que usa racionalmente o líquido nas mangueiras, torneiras e chuveiros? Contam-se nos dedos da mão esquerda, quem assim faz. E por que não fazem, se é uma necessidade de interesse coletivo?
          o escrever a letra, Guilherme devia estar inebriado com o aprazível enlevo sonoro de uma cachoeira descendo em torvelinhos os veios do despenhadeiro rochoso. Embaixo, um estacionário remanso volumoso de águas límpidas, transparentes e cristalinas; o qual pequenos peixes mordiscavam incessantemente os pés do escritor. Tal qual Narciso, Guilherme contemplava-se e era contemplado pelo espelho d`água que refletia o bailado das sombras das folhagens sopradas pelos ventos e projetadas na superfície pelos vívidos raios de sol.
          Dali, girando livremente em redemoinhos murmurantes, as águas seguem circundando enormes pedras. Deveras, houve um tempo no passado que mirando fixamente o centro de uma mandala entre quatro paredes, a imaginação do poeta trilhava por lugares inóspitos, selvagens e paradisíacos de águas marítimas, ou dulcícolas. E o que fizeram para exterminar com o manancial inspirador de poetas?
   arte da resposta ressalta que a distância entre uma nascente qualquer e a foz, é proporcional ao distanciamento entre o devaneio do poeta e a fonte de inspiração. O restante fica por conta da "mudança dos tempos", como dizem os simplistas de fundamento e pela realidade de uso do líquido, principalmente em áreas urbanas.

Financiamento: maldito, infeliz, sórdido, néscio é o homem que dá crédito ao seu semelhante; afinal, espelho e imagem são miragens que confundem-se na poluição em céu cinzento.

             Não é preciso ser douto no assunto para entender que o ecossistema urbano é alimentado pelo meio rural. Enquanto que nas áreas urbanas o que provém do homem é anel de fogo para os dedos do dono anel queimar, as grotas, os campos, as montanhas, as florestas, os serrados, os mares e demais biomas, abrigam as muitas espécies de seres vivos, bem como as nascentes de água que sobraram do desmatamento deliberado proporcionado pela ação predatória do próprio homem.

Ploft! Importuna a paz.
Ploft; ploft! Não me deixa domir. Ploft!
Ploft! É melhor gotejar, que parar.
Plo... Mas se secar, tan...to faz.

     Uma árvore leva de 80 à 90 anos para chegar ao estágio de amadurecimento pleno; em contrapartida, toda vez que uma impiedosa motoserra acelera os RPM (Revoluções por Minuto) de sua lâmina novinha em folha, em seu tronco, a árvore tomba desfalecida sem a menor chance de reação. No entanto, o desfalque não será sentido somente pelas raízes, troncos, galhos e folhas. Juntamente com esses, morrem o sombreado da copa, os paradeiros (poleiros) para as várias espécies animais, é menos uma dispersora de poluentes, diminui o equilíbrio de umidade local, não menos p sequestro de carbono; e em último caso, pode principiar a falência de nascentes de água.
            Velhos conhecidos de quem desmata sem precedentes, os piores inimigos dos "olhos d`água" são os raios solares. Contrapondo a ideia que a Natureza conspira a favor da vida, o sol pode ser a morte do recurso água; e o primeiro fator é o fenômeno físico da evaporação; pois sob altas temperaturas, os mananciais perdem água naturalmente. Do montante, uma pequena parte consegue ser reposta e voltar para Terra através do ciclo de repositório; e a maior, se perde-se no caminho. Portanto, além do sol não ser bem visto pelas nascentes, a perda de água por evaporação é pequena em relação às outras, mas deve ser considerada na composição do todo.
                Embora tácito e aparentemente irrelevante, nota-se claramente o dualismo acirrado existente no Meio Ambiente, o qual, mais cedo ou mais tarde, refletirá nos hábitos, costumes e modo de vida da população, tanto rural quanto urbana; porém, embora não dê o braço a torcer e resista bravamente os apuros advindos da falta de água de quando em quando, é a população urbana que mais sofre. Diante de tantos pontos negativos causados pela degradração ambiental, a alteração do ciclo hidrológico é outro fator que faz-se presente para a escassez de água em determinada região.

Quem preserva o recurso água, prioriza as múltiplas vidas no Planeta.

    Lembrando o romance da cearense "Rachel de Queiroz e tida como uma das sete maiores metrópoles do Planeta, em 2015, a cidade de São Paulo sofreu as consequências da seca invernal, aliada a severa crise hídrica. Visando mitigar o consumo, o governo paulistano adotou medidas drásticas, desde racionamento e aumento na tarifa, até multa para quem lavasse calçada, carros e animais domésticos. Para uma sociedade de consumo acostumada à abastança ilimitada, como é a brasileira, ter água potável no reservatório doméstico um dia sim, outro não, soou como terror e caos. Foi um verdadeiro "Deus, Pai todo Poderoso, nos acuda"; que por sua vez, deixando de lado as virtudes de onisciente e onipresente, fez-se de surdo, cego e mudo.
               Não obstante, após o fornecimento de água ter sido, supostamente normalizado, o esguicho das mangueiras voltaram a rotina de ser vassoura hidráulica, empurrando o cisco e lixo pesado para os bueiros e bocas de lobo; provando novamente que o brasileiro é como rocha resistente às intempéries e não muda sua linha de pensar e agir, nunca.

O sopro do redemoinho: "Como água é vida, gente não acaba nunca, mas vida, sim!"

     Desde o início do inverno de quase 30 graus C deste ano até a chegada da primavera, a seca se repetiu; e por 4 meses, caíram uns minguados grãos de água na capital paulistana. No entanto, cada um que compõe a população de quase 13 milhões, estava silencioso, quieto, contente e derramando sem reservas o líquido precioso. E se a população não se une para o que deveria ser pensamento coletivo, não será o Poder Público que irá se preocupar com o lema: "Água, um bem comum"; mesmo porque, as obras subterrâneas (hidráulicas) não são vistas e o que não é visto, não é motivo para os governantes mendigarem os votos dos eleitores nas urnas.
    Aliás, para não escancarem os desmandos e a incompetência administrativa em ano eleitoral, os governantes atuais e anteriores estão sossegados novelando os dedos polegares ao balanço do vai e vem das espreguiçadeiras, fazendo coro com a emburrecida sociedade paulistana, torcendo por céu fechado e orando para que o ciclo das chuvas lhes tragam águas em abundância; com isto, ao ver e ouvir os primeiros pingos, chamar a imprensa e meter a boca no microfone: "Amém, resiliente Mãe Natureza. A sua presteza hoje, é a minha assinatura à Presidência em outubro; porém se eu não for contemplado com a faixa presidencial, peço o seu voto antecipadamente para o governo paulista que em breve ocorrerá".
                 E à cada 2 anos, (quando não é para Prefeito é para Governador) a população ouve essa mesma latumia; contudo, sem levar em conta que num sistema chamado democrático pode haver povo sem Poder, mas Poder sem voto, jamais, inacreditavelmente, a massa populacional consegue dormir com esse marulhamento dos ilustres pedintes/candidatos nos ouvidos.

Palavras ao vento, ontem.
Renovação das promessas, hoje.
Tudo de velho.
Nada de novo.

Águas nas torneiras;
O samba batido na mão.
Gingado no pé.

A mentira rodopiando no ar;
Bico de luz aceso no teto;
O guisado fervendo no fogo.

As intermináveis favelas nos morros;
Latrinas emporcalhando os rios nos fundos de vales;
A grossa camada de poluentes tapando os raios de sol;
Montoeiras de lixo sobrepostos nas confluências das ruas.

Vida do povo.
No passado, nada de velho.
No futuro, tudo de novo.

        Através da escrita poética, o poeta idealiza, levita por terras ermas, viaja por onde sua imaginação vagar; todavia, sofrendo as consequências da nua e crua interacão em sociedade, "Entre a Poesia e a Consciência, há outra Ciência". Provavelmente, o humanista Guilherme Arantes nunca soube desta verdade, pois se soubesse, seria cientista na área de exatas e não escreveria a poesia conscientizadora, cujo título é: "Terra, Planeta Água". A poesia e a consciência, juntas sim; mas somadas à engenharia hidráulica, não cabem nos pergaminhos descritivos de uma única ciência.

Que os humanos conscientizem,
E a Ciência tome ciência,
Que a poesia bucólica, a Natureza de modo geral e a consciência,
Estão muitos patamares acima da Ciência.

Assim sendo, se não todos, pelo menos a maioria se beneficiará com as obras dos homens, para os homens. E tudo será válido, exceto as palavras claudicantes escritas e prometidas pelos farsantes.
       
Vida do povo.
Tudo de velho.
Nada de novo.



Prazo de Validade da Praga, já!
No século passado, Dalai Lama disse que até a metade do ciclo, preocupado com o futuro, priorizando às coisas materiais e acumulando dinheiro, o Homem moderno perde a saúde, tanto física quanto emocional; depois dessa etapa, tentando recuperar a saúde, perde os bens adquiridos. Por fim morreu, como morre uma mísera lesma debaixo de sol esturricante.
      E se possuía muito, além de não levar nada, deixou como herança para um nobre vagabundo (atualmente filhos, netos e bisnetos, são os primeiros da lista que ficam ricos sem produzir um grão de arroz, sequer) que nada produziu; e se não possuía nada de valor, necessitará dos amigos e Poder Público para custear as vestes, os calçados, a maleta de madeira, os sete palmos de terra e as flores que cobrirão seus olhos com pétalas murchas. Neste caso, flores de plástico, além de durar mais, o custo é mais baixo.
              Em seu tempo, Kafka disse que "só se vive uma vez; se fizeres o bem, valeu a pena". Talvez tenha dito esta frase como representação de si, pois acometido por várias doenças, deixou a escrita para entrar definitivamente no livro dos mortos, precocemente. Pelo que se sabe, Cristo fazia milagres e de tanto fazer o bem, foi triturado pelos contrários aos 33 anos. Jim Morrison propagava a desordem civil, morreu com os mesmos 33 anos de Cristo. Raul Seixas e outros também foram cedo.
       A massa humana conta com mais de 7 bilhões de famintos (gente para dedéu) que pouco ou nada produz para o todo. Cada um que a compõe, nasce simples, humilde, banguela, ingênuo e defecando no cueiro, para posteriormente, após muitos anos, morrer megalomaníaco, poderoso, falando alto e com duas vistosas dentaduras de porcelana mostradas nas selfies.
Seguindo essa linha de raciocínio, que me perdoe os com mais de 60 anos, mas se estão vivos e usurpando o seu semelhante e a solícita Natureza, é porque em nada contribuíram para a humanidade. Aliás, é bíblico que após comer, dormir, beber, defecar e adquirir bens materiais por mais de 60 anos, o indivíduo decreta de vez seu estado vegetativo/parasitário na Terra.
  É líquido e bem medido que quem pratica o bem, morre cedo. Afinal, quem suporta tantos pedintes, miseráveis, corruptos, saqueadores, ladrões, políticos, meliantes e toda corja de malfeitores no Planeta? Certamente, não é, e não será o Mutagambi.
Dando como certo, que o registro do homem na Terra é somente o descrito acima, por que não estipular um período de validade máxima para esta espécie? Se as necessidades diárias de sobrevivência são as mesmas, qual a diferença entre o homem e o cão, que aos trancos e barrancos, vive aproximadamente 15 anos; ou outro animal qualquer? Quem explica tamanha desigualdade, a começar pela diferença brutal de ciclo de vida entre um e outro?
   Está provado cientificamente que certas espécies animais são mais úteis ao Planeta, que o homem; aliás como traçador de tudo, como devorador de tudo, o "Glutão Insaciável" é o primeiro, ou dependendo do ponto de vista, é o último na cadeia alimentar. Com outra missão na Natureza, a minhoca é o ápice de produtividade para o Meio Ambiente e no entanto, que humano dá à minhoca o seu devido valor, trata-a como deveria ser tratada? À propósito, poucos conhecem o seu papel biológico na Natureza; porém, a maioria ou todos sabem plenamente que é isca para pesca. Novamente, é a nociva espécie humana se prevalecendo sobre todas as coisas.
           Supondo que quem fez o homem, fez todas as espécies de animais e vegetais, o "Senhor dos Poderes" deveria ter sido mais assertivo, menos tendencioso e menos separatista com as espécies. Provavelmente, se assim o fizesse, o Planeta seria uma balança nivelada, mais equilibrada e dificilmente penderia para um dos lados; obviamente, para o lado do bicho- homem.  
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 05/10/2018
Reeditado em 05/10/2018
Código do texto: T6468212
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Mutável Gambiarreiro
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