Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO DO CAMPO DA ESCOLA MUNICIPAL SENADOR FILINTO MÜLLER – DISTRITO DO AREADO- SÃO GABRIEL DO OESTE - MATO GROSSO DO SUL

A EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO DO CAMPO DA ESCOLA MUNICIPAL SENADOR FILINTO MÜLLER – DISTRITO DO AREADO- SÃO GABRIEL DO OESTE - MATO GROSSO DO SUL


DUARTE, Bento José¹


RESUMO: O presente trabalho é resultado de uma pesquisa realizada na escola Municipal Senador Filinto Müller, localizada no distrito do Areado município de São Gabriel do Oeste, no Estado de Mato Grosso do Sul. O artigo busca analisar a implantação da educação do campo em período integral, sendo a primeira experiência desenvolvida no estado e no município. Também busca compreender o envolvimento e a participação dos pais na construção da proposta da educação do campo, e o entendimento dos profissionais da instituição de ensino a respeito do projeto da Educação do Campo e o seu envolvimento na implantação e implementação de uma educação voltada para mulheres e homens do campo.

PALAVRAS-CHAVE: Educação do Campo – desafios - construção.

1. CONTEXTUALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO DO CAMPO
Quando se fala de Educação do Campo, está se falando em algo ligado a Reforma Agrária, pois a Educação do Campo nasceu no seio da reforma agrária; no enfrentamento com o latifúndio é que surge a necessidade de se pensar numa educação diferenciada, que respeitasse a vida daquela gente do campo; sua história, sua luta pelo pedaço de chão. Então é no seio do Movimento Sem Terra (MST) que nasce a idéia de pensar/discutir um novo jeito de pensar a Educação do Campo, que fosse além da educação rural implantada durante muito tempo nas comunidades rurais e nas sedes de fazendas.
Depois de vários enfrentamentos com os governos municipais, estaduais e federais, lutando para apresentar a importância de pensar uma educação para os acampados e assentados, é que o Movimento Sem terra conseguiu atrair aliados que passaram a apoiar sua luta para conseguir uma Educação do Campo com qualidade.
Em julho de 1997, foi realizadodo I Encontro Nacional de Educadores da Reforma Agrária (Enera), promovido pelo MST em Brasília, em parceria com diversas entidades, como a Universidade de Brasília (UnB), o Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF), a Organização das Nações Unidas para a educação, Ciência e cultura (UNESCO) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao final do encontro, o entusiasmo desse primeiro encontro permitiu a representante da UNICEF desafiasse as entidades envolvidas a realizarem uma discussão mais ampla sobre a Educação do Campo.
No mês seguinte, agosto de 1997, os representantes das cinco entidades desafiadas reuniram-se para analisar o desafio. Após as discussões, aceitaram a tarefa, nomearam o projeto de Conferencia por uma Educação Básica do Campo para o projeto. Foi nomeada uma coordenação e elegeram uma secretaria executiva, sediada em Brasília. Após a oficialização do projeto, foi criada uma extensa agenda de atividades para serem desenvolvidas ao longo de 1997/98. E o projeto sempre teve claro que:

Desde o começo, chegou-se ao um consenso sobre o especifico da “educação básica do campo”, ou seja, que leve em conta a cultura, as características, as necessidades e os sonhos dos que vivem no campo do campo. Outro consenso entre os promotores referiu-se à vinculação da educação básica do campo com um projeto popular de Brasil e com um projeto popular de desenvolvimento do campo (p. 15 – Coleção Por uma educação básica do campo-1999 n°1).

Finalmente em julho de 1998 aconteceu a I Conferência Nacional: Por uma Educação Básica do Campo. O evento reuniu 970 participantes; apenas quatro Estados não compareceram. Foi um evento determinante para sensibilizar a sociedade e provocar os governos, estaduais e federais a olharem a Educação do Campo como algo importante, pois a que estava sendo oferecida não atendia as necessidades dos indivíduos que moram no campo.
É evidente que a Educação do Campo não se restringiria aos assentamentos do MST, mas passaria a ser uma História da Educação Popular, onde todas e todos teriam o dever e o direito de reivindicar, pois a Educação do Campo foi uma vitória conseguida, por que os movimentos sociais, populares, ao longo da sua história sempre lutaram, e a Educação do Campo tornou-se uma luta nacional e reconhecida por vários seguimentos da sociedade.
Foi e é através das ocupações de terra e várias lutas que a Educação do campo foi ganhando força. Em agosto de 2004 em Luziânia (GO), foi realizada a II Conferencial Nacional Por uma Educação do Campo, agora não era mais apenas a básica, mas também a superior. Esse evento reuniu 1100 participantes e varias entidades ligadas ao campo. A declaração final aprovou: Por uma política pública de Educação do Campo, a luta já se tornara maior e envolvi vários seguimentos da sociedade, desde acampado, assentados e comunidades rurais tradicionais.
Esses foram os eventos mais importantes e que foram determinantes para alavancar de fato uma política pública de educação do campo. Evidente que foram realizados seminários nacionais, estaduais e municipais. A luta foi nacional, possibilitando a conquista do pouco que se alcançou. Podemos perguntar: por que não permaneceu com a educação rural? Seria uma pergunta pertinente. Então manter a mesma proposta que se tinha para o campo era continuar com uma educação desqualificada, portanto era necessário ter claro qual a educação que estava sendo oferecida para o meio rural e que concepção de educação a sociedade como todo tinha. Portanto a educação do campo precisa:

Ser uma educação especifica e diferenciada, isto é, alternativa. Mas, sobretudo, deve ser educação, no sentido amplo de processo de formação humana, que constrói referências culturais e políticas para a intervenção das pessoas e dos sujeitos sociais na realidade, visando a uma humanidade mais plena e feliz (p.24, coleção Por uma educação básica do campo-1999 n°).

Por isso que não permaneceu com a nomenclatura de educação rural, porque a mesma não atendia a todas as dimensões da formação do ser humano. E Por que do campo?  Pelo simples fato de:

Utilizar-se-á a expressão campo, e não mais usual meio rural, com o objetivo de incluir no processo da conferência uma reflexão sobre o sentido atual do trabalho camponês e das lutas sociais e culturais dos grupos que hoje tentam garantir a sobrevivência desse trabalho. Mas quando se discutir a educação do campo se estará tratando da educação que se volta ao conjunto dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo, sejam camponeses, incluindo os quilombolas, sejam as nações indígenas, sejam os diversos tipos de assalariados vinculados à vida e ao trabalho no meio rural (p.26- Coleção Por uma educação básica do campo-1999 n°1).

A mudança do nome é nada mais nada menos do que uma questão conceitual, a carga histórica que a educação rural carregava e ainda carrega, não supriria a mudança que de fato se pretendia fazer, uma proposta de educação para o campo, para que ela se torne universal. Vejamos:

A educação básica somente se universalizou acompanhando esses avanços dos direitos. A universalização da consciência dos direitos foi sempre o caminho para a universalização da educação básica (Coleção  Por uma educação básica do campo-1999 n°2).

O processo de democratização do ensino básico do campo é fruto de uma longa luta travada entre os movimentos sociais do campo. Por entender que a luta pela terra, pela permanência no campo, passa pela conquista de uma educação de qualidade, que pense e trabalhe a valorização da mulher e do homem do campo.
No ano de 2004 foi realizada a segunda Conferência Nacional por uma Educação do Campo, de onde foram tiradas algumas metas importantes, como: o que defender; o que querer e o que se fará, foram linhas que ainda hoje orienta o debate da educação do campo em todo Brasil.
Vejamos o que é apresentado no documento fruto da II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo:
No primeiro item:

Lutamos por um projeto de sociedade que seja justo, democrático e igualitário; que contemple um projeto de desenvolvimento sustentável do campo, que se contraponha ao latifúndio e ao agronegócio e que garanta: a realização de uma ampla e massiva reforma agrária; a demarcação, homologação e desintrusão das terras indígenas; o fortalecimento e expansão da agricultura familiar/camponesa; as relações/condições de trabalho, que permitem os direitos trabalhistas e previdenciários das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais; o estímulo à construção de novas relações sociais e humanas, e o combate de todas as formas de discriminação e desigualdades fundadas no gênero, raça e etnia; a articulação campo-cidade, o local-global. Lutamos por um projeto de desenvolvimento do campo onde a educação desempenhe um papel estratégico no processo de sua construção e implementação, buscando respeitar a diversidade dos sujeitos, construírem uma educação que supere a oposição entre campo e cidade e a visão predominante de que o moderno e o avançado é sempre o urbano, e que o progresso de um país se mede pela diminuição da sua população rural e a educação do campo vem para romper com essa concepção de sociedade e de desenvolvimento. (II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo)

O segundo item defende a universalização do acesso da população brasileira que trabalha e vive no campo à Educação Básica de qualidade social por meio de política pública permanente que inclua como ações básicas, e tira como linha o fim do fechamento arbitrário de escolas no campo construção de escolas no e do campo, acesso imediato à educação básica (educação infantil, fundamental e médio);

Construção de alternativas pedagógicas que viabilizem com qualidade a existência de escolas de educação fundamental e de ensino médio no próprio campo, políticas curriculares e de escolha e distribuição do material didático-pedagógico que levem em conta a identidade cultural dos povos do campo, condição de acesso às pessoas com necessidades especiais. (II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo)
O segundo item defende a ampliação e garantia de permanência da população do campo à Educação Superior por meio de uma política pública permanente que inclua como ações básicas, “com interiorização das Instituições de Ensino Superior, públicas, gratuitas e de qualidade, cursos e temas específicos para atendimento das demandas de profissionais do campo, inclusão do campo na agenda de pesquisa e de extensão das universidades públicas”.
O terceiro item enfoca a valorização e formação especifica de educadoras e educadores do campo por meio de uma política pública permanente que priorize a formação profissional e política de educadores e educadoras do próprio campo, gratuitamente, formação e o projeto político-pedagogico da Educação do Campo.
O quarto item destaca “a formação de profissionais para o trabalho no campo por meio de uma política pública especifica e permanente de cursos de nível médio e superior que inclua os jovens e adultos trabalhares do campo”.
Quinto e último, busca desenvolver o respeito à especificidade da Educação do Campo e à diversidade de seus sujeitos.
Toda essa proposta construída ao longo da caminhada de luta pela terra e por uma educação do campo que garanta a diversidade dos sujeitos é porque defendemos o campo como um lugar de vida, cultura, produção, moradia, lazer, cuidado com o conjunto da natureza, e novas relações solidárias que respeitem a especificidade social, étnica, cultural e ambiental dos sujeitos. É acreditando nisso que entendemos que:

É preciso pensar também que tratar d direito universal à educação é mais do que tratar da presença de todas as pessoas na escola; é pensar a olhar para o jeito de educar quem é sujeito deste direito, de modo a construir uma qualidade de educação que forme as pessoas como sujeitos de direitos, capazes de fazer a luta permanente pela sua conquista. Neste sentido, a experiência dos movimentos sociais na formação da consciência do direito precisa ser recuperada e valorizada pela Educação do Campo (p.27, Coleção por uma Educação do Campo 2005, n°5).

Quando pensamos em direito universal à educação, não podemos de modo algum, esquecer da qualidade do ensino, não basta apenas ter a escola no campo; ela tem que ser atraente, tem que garantir a permanência desses sujeitos na escola. A educação básica tem mostrado um fraco desempenho escolar, permitindo assim o abandono e a evasão nas salas de aula. Por tanto a garantia de um ensino de qualidade é uma das ações prioritárias no resgate social dessa população rural, claro que não podemos responsabilizar a educação  para resolver todos os problemas do campo e da sociedade, mas precisamos ter claro, que é um dos caminhos no processo de inclusão social dos sujeitos do campo, vejamos uma das reflexões apresentada em uma das coleções por uma educação do campo:

É tarefa especifica da escola ajudar a construir um ideário que orienta a vida das pessoas e inclui também as ferramentas culturais de uma leitura mais  precisa da realidade em que vivem. E construir uma visão de mundo significa em primeiro lugar fazer o inventário das concepções que educandos e educadores carregam em si; significa também enraizar as  pessoas na história, para que se compreendam como parte de um processo histórico[...]. Para que a escola cumpra esta tarefa é necessário que a escolha dos conteúdos de estudo e a seleção de aprendizados a serem trabalhados em cada momento não seja aleatória, mas feita dentro de uma estratégia mais ampla de formação humana [...]. Na educação do campo é preciso refletir sobre como se ajuda a construir desde a infância uma visão de mundo crítica e histórica; como se aprende e como se ensina nas diferentes fases da vida a olhar para a realidade enxergando seu movimento, sua historicidade e as relações que existem entre uma coisa e outra; como se aprende e como se ensina a tomar posição diante das questões do seu tempo (p.41-42, Coleção por uma Educação do Campo 2005, n°5).

E a educação do campo nasce com esse propósito: ter a tarefa de responder aos anseios dos sujeitos que fazem parte do processo de construção da educação do campo. Quando a “sociedade” propõe-se a pensar uma nova forma de ver a educação é necessário construir condições objetivas para concretizá-las, e compreende que a educação pode ser mais do que educação, e que a escola pode ser mais do que escola, quando passamos a compreender que são instrumentos que formam a sociedade.  Que a educação formal não responde a realidade dos indivíduos/sujeitos, é necessário pensar numa nova educação, não aquela que forma apenas para o “mercado de trabalho”, mas que eduque para a vida, vejamos o que Mèszáros nos apresenta:

A questão crucial para qualquer sociedade estabelecida é a reprodução bem-sucedida de [...] indivíduos cujos ‘fins próprios’ não negam as potencialidades do sistema de produção dominante. Essa é a verdadeira dimensão do problema educacional: a ‘educação formal’ não é mais do que um pequeno segmento dele. [...] Assim, além da reprodução, numa escala ampliada, das múltiplas habilidades sem as quais a atividade produtiva não poderia ser levada a cabo, o complexo sistema educacional da sociedade é também responsável pela produção e reprodução da estrutura de valores no interior da qual os indivíduos definem seus próprios objetivos e fins específicos. As relações sociais de produção reificadas sob o capitalismo não se perpetuam automaticamente. Elas só o fazem porque os indivíduos particulares interiorizam as pressões externas: eles adotam as perspectivas gerais da sociedade de mercadorias como os limites inquestionáveis de suas próprias aspirações. É com isso que os indivíduos ‘contribuem para manter uma concepção do mundo’ e para a manutenção de uma forma especifica de intercambio social, que corresponde àquela concepção de mundo.

Portanto a proposta, o conceito de Educação do campo, não vem apenas combater a chamada educação formal estabelecida na sociedade burguesa, mas vem principalmente rediscutir um novo modelo de sociedade no qual a educação não pode ficar de fora. Vem discutir novos valores, vem discutir uma educação que não esteja descolada da realidade dos indivíduos envolvidos.
É pensar também numa escola de direitos, onde não cabe mais a concepção de favor do Estado para com as pessoas envolvidas. É sonhar com uma escola na qual os indivíduos lutem para tê-la com qualidade. Passando assim do campo dos favores para o campo dos direitos. Segundo ARROYO (p. 23-24, 1999) diz que:

Quando situamos a escola no horizonte dos direitos, temos que lembrar que os direitos representam sujeitos. Sujeitos de direitos, não direitos abstratos. Que a escola, a educação básica tem de se propor tratar o homem, a mulher, a criança, o jovem do campo como sujeitos de direitos. Como sujeitos de história, de lutas, como sujeitos de intervenção, como alguém que constrói que está participando de um projeto social, por isso que a escola tem que levar em conta a história de cada educando e das lutas do campo.

As forças que contribuíram para consolidação do debate da educação do campo em nível nacional permitiu que se expandisse para os municípios ligados ou não ao movimento social. Algumas secretarias mais abertas permitiram a implementação dessa proposta nas escolas do campo.

2. HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO BÁSICA DO CAMPO SÃO GABRIEL DO  OESTE
Em São Gabriel do Oeste as discussões da proposta da Educação Básica do Campo e também os primeiros debates para a elaboração do projeto, foram iniciadas no mês de maio de 2001. O primeiro encontro reuniu alguns diretores, coordenadores pedagógicos, professores e educandos (as), das Escolas: Agropecuária Roberto Emiliani; Municipal Senador Filinto Muller, e outras entidades educacionais. Estiveram presentes no local representantes da coordenadoria de Educação Básica no Campo e da Secretaria Estadual de Educação, nas pessoas dos professores Gilson e Edson.
Em Agosto de 2001 aprofundaram-se o estudo das políticas da Educação Básica do Campo e da pedagogia da alternância, e como os educadores sentiram a necessidade de maiores debates com educandos oriundos da zona rural, foi marcado o 1º Fórum da Educação Básica do Campo para os dias 31 de Outubro e 1º de Novembro de 2001.
Neste Fórum foram proferidas palestras, debates, trocas de experiência com o município de Rochedo e após a formação de um grupo de trabalho para discutir os seguintes encaminhamentos: Que escola queremos? Como buscar financiamento e parcerias? Como seria o curriculo escolar? Entre outras questões. Os grupos reunidos apresentaram as seguintes propostas:

Uma Escola com o envolvimento da comunidade; que andem unidas para conseguir os objetivos propostos; com conteúdos voltados a realidade vivida pelo aluno, que atenda aos anseios do homem do campo; educadores com um perfil: conhecimento dos conteúdos voltados à comunidade; profissionais engajados e preparados para um tipo de educação diferente, desafiadora, que acredite na mudança da sociedade; tenha compromisso e responsabilidade; seja dinâmico e aplicado; consciente com o trabalho que vai desempenhar. Que haja formação continuada, voltada para o campo aos professores e administrativos e uma conscientização dos pais e comunidade através de palestras frequentes (PPP, p.10, revisado 2009).

No dia 13/11/2001, realizou-se o 1º Encontro da Comissão do Fórum com a SEMEC para leitura e análise do TE (Tempo Escola) e TC (Tempo Comunidade) conforme caderno da Escola Guaicuru.
No dia 05/12/2001, houve o 2º encontro dessa comissão na SEMEC (Secretaria Municipal de Educação e Cultura), onde se discutiu a proposta e elaboração desse projeto de Educação Básica do Campo, e de como apresentar o projeto para a Comunidade do Areado e definição do TE/TC para calendário de 2002.
No dia 15/02/2002, foi realizado o 1º estudo com os professores da Escola Senador Filinto Muller, SEMEC e a Profª Elba Valença (Coordenadora de projetos de assentamentos e acampamentos) do Estado do Mato Grosso do Sul.
Após vários questionamentos, houve o momento para os professores colocarem as suas preocupações em conhecer e conseguirem o embasamento teórico fundamental para poderem desenvolver o projeto. O próprio receio do desconhecido, de encará-lo, e as expectativas para a aplicação deste novo trabalho, os deixava ansiosos.
No decorrer desse encontro, decidiu-se fazer uma pesquisa “in loco” para conhecer a realidade dos educandos, pois isso subsidiaria o trabalho posterior.
No dia 20/03/2002, no distrito do Areado realizou-se uma assembléia geral para discutir e aprovar a política da Educação Básica do Campo com a participação de: alunos, pais, direção, coordenação pedagógica, professores e Claudete Inês Daltoé (Coordenadora Geral do Projeto da Educação Básica do Campo – SEMEC).
Essa nova proposta teve a aprovação da maioria da Assembléia.
E a partir desse processo iniciou-se mais uma experiência da Educação do Campo nas duas escolas rurais existente no município, sendo que uma delas é estadual.
Na Escola Municipal Senador Filinto Muller, foi objeto da pesquisa, geradora de todo o processo de discussão, que levou a implantação de Educação Básica do Campo e que nos últimos dois anos (desde 2007) passou a trabalhar em período integral, por entender que a proposta da educação do campo não se viabiliza apenas em um período.

3. HISTÓRICO E IDENTIFICAÇÃO DA INSTITUIÇÃO DE ENSINO
A Escola Municipal Senador Filinto Muller foi criada por decreto em 1978, na administração do prefeito municipal de Camapuã, Joaquim Faustino Rosa; nessa época o distrito pertencia ao município de Camapuã, permaneceu até 1981, quando passou para o municìpio de São Gabriel do Oeste.
As instalações foram construidas pelo Estado de Mato Grosso do Sul, mas repassada para a prefeitura de Camapuã, a quem pertencia o distrito.
Em 1986 já administração do prefeito municipal de São Gabriel do Oeste, Roberto Emiliani, passou a oferecer também o ensino de 5ª à 8ª séries.
Possui Atos de Reconhecimento de 1ª a 4ª e 5ª a 8ª séries separados:
Criação: Decreto n° 481/78 de 22/09/1978
Autorização: 1ª a 4ª - Deliberação 915 de 21/12/1984
5ª a 8ª - Deliberação 1774 de 18/12/1976
Criação: 1ª a 4ª - Deliberação 915 de 21/12/1984
5ª a 8ª - Deliberação 2229 de 07/07/1989
Está localizada no distrito do Areado a 47 Km da sede do município, a Rua Henriqueta de Jesus s/n.
Foram diretores:
 Até 1981 – Edson Miranda
 Em 1982 – Leoneti Ropelatto Migliavacca
 De 1983 a 1984 – Claudete Inês Daltoé
 De 1985 a 1989 – Estela Esteves Barbosa
 De 1989 a 1991 – Roselida Siliprandi Padilha
 Em 1992 – Idione Maria Perin
 Em 1993 – Roselida Siliprandi Padilha
 Em 1994 – Alaíde Riboli Aschi
 De 1995 a 1996 – Luiz Cezar Nunes
 De 1997 a 1999-Osvaldo da Silva
 De 1999 a 2003 – Luiz Cezar Nunes
 De 2003 a 2005 – Sérgio R. V. Ferreira
 De 2005 a 2007– Elenita Kreibich de Ávila
 De 2007 a 2009- Elenita kreisbich de Ávila
A escola atende a Educação Básica na modalidade do Ensino Fundamental do1º ao 9º ano, com 148 alunos matriculados, 18 educadores, uma coordenadora pedagógica, uma diretora e 08 funcionários administrativos.
Em 2002, a escola implantou o projeto de Educação Básica do Campo, e no ano de 2007 a escola passou a funcionar em tempo integral cujo objetivo principal é que o aluno valorize a terra, o trabalho do campo, oportunizando assim a ele, uma melhor qualidade de vida.

4. TEMAS GERADORES DESENVOLVIDOS NESTA UNIDADE ESCOLAR
A opção de trabalhar com os temas geradores por compreender a necessidade de dialogar com as educandas, educandos e seus familiares a importancia de se discutir questões relacionadas ao cotidiano dos educandos. Acreditando na importância de inserir alguns debates na família, que devido ao dificil acesso à informação acaba deixando algumas questões que são importantes no processo de aprendizagem dos estudantes em segundo plano. E por compreender que a boa educação também passa pelo acesso à cultura, à saúde, à auto-estima, etc, por isso que a escola tem como meta desenvolver os seguintes temas:

2003 - 1° BIMESTRE – Higiene e Saúde
2° BIMESTRE – Alimentação
3° e 4° BIMESTRES – Auto-estima

2004 - 1° BIMESTRE – Resgate da cultura local
2° BIMESTRE – Economia de subsistência
3° e 4° BIMESTRES – Meio ambiente

2005 - 1° e 2° BIMESTRES – Saúde , alimentação e sexualidade
3° e 4° BIMESTRES – Administração Rural.

2006 - 1º SEMESTRE – Recursos Hídricos, Horta Escolar e I.M.C, Contadores de historia e roda de leitura e poesia, ervas medicinais, catira, grandes civilizações, rios do Brasil e região, importância destes para a economia bem como suas nascentes, copa do mundo, frutas regionais, alimentação e higiene, atividades com folhas, sementes e tintas naturais.

2º SEMESTRE – Meio ambiente rios da região, receitas de doces, frutas, alimentação, pesquisa sobre a situação da saúde no distrito, ervas medicinais na escola, multimistura e fortificante, projeto vê, contadores de historia, materiais alternativos para praticas esportivas e alguns brinquedos em madeira, eleições 2006, resgate dos rios da região, higiene, pequenas quadrilhas, musicas infantis com traduções em inglês, histórico do Areado, a leitura e o mundo imaginário na compreensão de textos.

2007 - 1º SEMESTRE – Foram desenvolvidos atividades do núcleo comum e projetos como: Jogos pedagógicos, músicas infantis, meio ambiente, recreação e jogos, receitas regionais, culinária, resgate à cultura, oficina de texto, agricultura, desenvolvimento local / agro negócios, turismo e meio ambiente, zootecnia, xadrez e recuperação paralela.

5. DESAFIOS ENFRENTADOS NA IMPLEMENTAÇÃO DA PROPOSTA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO EM PERÍODO INTEGRAL
A escola Senador Filinto Müller possui nove salas de aula, quadra de esporte, laboratório de informática, biblioteca, salão de recreaçao e refeitorio, etc; conta com um quadro de professores habilitados na área. Apesar da prefeitura municipal de São gabriel do Oeste ser a responsável pelo suprimento da escola, nota-se que há falta de materiais como materias didáticos, principalmente para desenvolver os temas geradores, confirmadas pela direção e coordenação da escola. Segundo a direção e coordenação, ainda existem problemas que precisam ser resolvidos, como a falta de conhecimento real da proposta da Educação do Campo, tanto por parte dos professores que atuam na escola, como da comunidade em geral, principalmente dos pais dos alunos; esses, ainda. Necessitam conhecer a estrutura existente.
Com relação aos professores, de acordo com a pesquisa realizada: três professores estão na escola porque foram lotados, três possui conhecimento da proposta e os demais encaram a proposta como desafio em suas carreiras.
A seguir tem um trecho da entrevista realizada com a diretora da escola, Elenita Kreibich de Ávila:
“Ainda não é a almejada, ou seja, nem todos conseguem (sic) estarem realmente envolvidos com a mesma, eles ainda estão presos à proposta de educação desenvolvida na cidade. Mas a maioria reconhece a existência do campo vê sua realidade provocando diálogos e atitudes para que os sujeitos reflitam sobre a terra, aprendem e deixa-se educar pelos sujeitos e pelo processo de formação.” (Entrevista realizada no dia 20/10/2009).
Uma das hipóteses levantadas era de que os professores não compreendem a proposta da escola e com a fala da diretora isso fica evidente. Mas os professores reclamam da falta de formação na área, especifico da Educação do Campo; apesar de a escola desenvolver semanalmente a formação do campo. De acordo com os professores isso é insuficiente, e em “conversa de corredor” os professores reclamam da falta de troca de experiências com outros professores ou de leituras sobre o assunto.
O que fica nítido é que na escola há um “desejo” da diretora em desenvolver a proposta. Além disso, a prefeitura investe muito para que a proposta dê certo; o município de São Gabriel do Oeste tem se destacado nas avaliações em nível nacional, e, a proposta de implantação da Educação do Campo, é uma proposta pioneira no Estado seria uma certificação de que o município investe em educação e tem bons resultados.
A coordenadora demonstra entusiasmo, mas percebe-se que ela tem alguma dificuldade em envolver todos os profissionais do ensino.
De acordo com pesquisa realizada, muitos pais ainda não acreditam na proposta, pois segundo eles, a escola está retirando deles os filhos que ajudam nas tarefas do campo. No entanto, têm outros pais que acreditam na proposta e que esperam ver o projeto adiante, pois seus filhos melhoraram muito e com isso a escola do campo em período integral é importante para a comunidade.
Diante da pesquisa, percebe que muitos pais não têm claro qual é a proposta da escola e com isso eles não concordam. Porém, a diretora menciona na pesquisa que na escola todas as quartas-feiras têm reuniões com os pais, mas não são muitos pais que participam desses momentos e dessa forma não conseguem compreender o processo.
De acordo com a diretora Elenita Kreibich de Ávila:
“Temos uma participação feminina onde prevalece, ainda que o cuidado dos filhos é legado somente da mulher. As reuniões  nas quartas-férias possibilitou mais a presença dos mesmos na escola, disponibilização do transporte, dentista, médico e formação  de pais. Iniciamos a formação e por alguns fatores o fomento foi pouco”. (Entrevista realizada no dia 20/10/2009).
Como se pode ver em alguns pontos a diretora reclama da falta da participação de muitos pais, mas alguns pontos não ficam claros quais são os entraves que dificultam a participação dos pais.
De acordo com as leituras realizadas para desenvolver esse trabalho, muitos pais não participam da escola porque em alguns momentos os patrões não os liberam, ou ficam longe da escola, as reuniões são feitas em dias impróprios e  muitos pela questão cultural não vêm importância na participação nas reuniões da escola. Como a escola está localizada no distrito, e a maioria das famílias vivem nas fazendas, tornando assim, o deslocamento complicado, pois dependem do transporte escolar ou de carona, diante dessa realidade, muitos preferem não participar.
Considerando todos os entraves apresentados acima, a partir de relatos de educadores, diretora, coordenadora e pais, percebe-se que é um desafio implementar uma educação diferenciada, que responda as necessidades dos sujeitos envolvidos. Por isso é necessário perguntar: as famílias foram realmente envolvidas no processo de construção da proposta da escola? Será que as famílias dos sujeitos envolvidos (educando (as)) sabem de fato a diferença entre a escola urbana e a escola do campo? São indagações pertinentes e que precisam ser feitas. As Senador Filinto Muller precisa de fato dar respostas concretas para as famílias de seus educandos, precisa de fato conhecer suas crenças, sua cultura, sua vida, a escola do campo precisam vincular o seu cotidiano, o currículo nas matrizes culturais do campo, é criar meios dos educandos e educandas, pais, comunidade, entenderem a importância de manter e defender seus valores e lutar contra essa cultura hegemônica, que historicamente marginalizaram os povos do campo. Por tanto a educação do campo tem a tarefa de:

[...]. A perspectiva da Educação do Campo é exatamente de educar as pessoas que trabalham no campo, para que se encontrem, se organizem e assumam a condição de sujeitos da direção de seu destino.

Por isso precisa ser uma educação dos e não para os sujeitos do campo, eles precisam fazer parte do processo de construção para poder entender/compreender sua importância. É necessário que todo corpo docente, pais, comunidade, esteja inserido e disposto a se incorporar a proposta, para isso é necessário de:

Precisamos ainda desdobrar na reflexão do projeto da educação do campo o debate sobre pedagogias e metodologias que trabalhem a capacitação real do povo para esta atuação como sujeito, sujeito a construção de políticas públicas, sujeito da construção de projetos de desenvolvimento, sujeito da sua organização coletiva e de lutas sociais, sujeito da reflexão política, e da reflexão pedagógica sobre seu próprio processo de formação como sujeito ( p.28-29, Coleção Por uma Educação do Campo, 2005, n°05) ...

Sem essa clareza de projeto e da necessidade da inserção a implementação e consolidação do projeto fica cada vez mais difícil e distante. São muitas as dificuldades, mas é possível construir uma educação que de fato responda a realidade daquele sujeitos envolvidos.

CONCLUSÃO
Os desafios são muitos. Desde a inserção e capacitação do corpo docente ao envolvimento das famílias e comunidade. A proposta da Educação do Campo tem apenas 10 anos, é uma criança. O município também tem pouco tempo que está procurando inserir a proposta na escola. Temos muito a aprender e muito a ensinar, o desafio é buscar condições objetivas que envolvam principalmente as famílias dos educandos e educandas, e qualifique de forma coerente os profissionais que atuam na escola. Precisamos perder o medo de achar que a educação do campo foi criada para quem atua no movimento social. É bem verdade que veio do seio do movimento social a partir de uma luta, de compreender a importância de uma educação que valorizasse a sua luta, o seu projeto de sociedade. Mas a educação do campo precisa pensar a educação do conjunto da população do campo, não pode e nem deve ficar restrita aos movimentos sociais, pois estaria favorecendo apenas a uma parte da população camponesa.
Por isso que a iniciativa da Escola Senador Filinto Muller, juntamente com a secretaria de educação é importante e necessária porque pode fazer o diferencial na educação, pode mudar e contribuir diretamente e indiretamente a reconstrução da identidade, dos valores culturais dos sujeitos envolvidos. Por tanto é preciso pensar numa educação do campo que não tenha cercas, que não tenha muros, que torne seus educandos em construtores de um futuro melhor.















REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ARROYO, M. MANÇANO, F. Bernardo. A educação básica e o movimento social do campo. COLEÇÃO POR UMA EDUCAÇÃO BASICA DO CAMPO. Brasília 1999.

CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo 3ª Ed. Expressão Popular, 2004.

CALDART, Roseli. Por uma educação do campo.  Campo-Políticas Publicas – Educação/ Bernardo Mançano Fernandes...[et al.]; organizadora Clarice Aparecida dos Santos. Brasília: Incra; MDA,  2008.  COLEÇÃO POR UMA EDUCAÇÃO DO CAMPO.

DECLARAÇÃO FINAL POR UMA POLITICA PÚBLICA DE EDUCAÇÃO DO CAMPO. II Conferência Nacioonal Por Uma Educação do Campo. Luziania, GO. 02 a 06 de agosto de 2004.

DIRETREIZES OPERACIONAIS PARA A EDUCUCAÇÃO BÁSICA NAS       ESCOLAS DO CAMPO. Brasil: Ministerio da Educação e A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade- Secad, 03 abr. 2002.

ITERRA – INTITUTO TÉCNCO DE CAPACITAÇÃO E PESQUISA DA REFORMA AGRÁRIA. Alternativas de escolarização dos adolescentes nos acampamentos e assentamentos do MST.  nº 8, ano III. Novembro de 2203.

MÉSZÁAROS, Istiván. 1930 – A teoria da alienação em Marx; tradução Isa Tavares. – São Paulo: Boitempo, 2006

KOLLING, Edgar Jorge, Ir. Nery, Molina. Mônica Castagna. Histórico: I Conferencia Nacional: Por uma Educação Básica do Campo. COLEÇÃO POR UMA EDUCAÇÃO BASICA DO CAMPO. Brasília 1999.
BJ Duarte
Enviado por BJ Duarte em 16/08/2014
Código do texto: T4925019
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
BJ Duarte
São Gabriel do Oeste - Mato Grosso do Sul - Brasil, 52 anos
69 textos (110690 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/07/19 23:51)
BJ Duarte