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IDEOLOGIA DE GÊNERO


Em linhas gerais, “ideologia do gênero” (IG) seria uma expressão usada para indicar que os gêneros (homem e mulher) são, na verdade, construções sociais, e que não existe apenas os gêneros "masculino" e "feminino", mas um amplo espectro que o indivíduo pode escolher livremente.

Essa ideia bate de frente com os valores mais caros da religião, por isso os grupos religiosos têm a tendência de serem contra ensinar a IG nas escolas e grupos liberais a favor. Os que são contra argumentam que algumas pessoas querem acabar com a crença em Deus, desmoralizar a Igreja, corromper nossas crianças, e torná-las promíscuas, entre outras acusações. Um site católico informa que a IG é um “movimento que pretende desconstruir a família e os vínculos existentes dentro dela.”

Os que são a favor criticam o termo IG, pois leva a sociedade a pensar que estão querendo bagunçar o mundo, que estão incentivando as crianças a fazer sexo desde cedo e que o certo é todo mundo virar gay. E não é isso que eles defendem. O que eles pretendem é promover o respeito às diferenças, ou seja, uma “Educação para a diversidade”.
Quem explica melhor é Viviane Melo de Mendonça, professora do Departamento de Ciências Humanas e Educação da Universidade Federal de São Carlos: “A educação para a diversidade não é uma doutrinação capaz de converter as pessoas à homossexualidade, como se isso fosse possível. O objetivo é criarmos condições dentro das escolas para que professores e alunos possam aprender e ensinar o convívio com as diferenças que naturalmente existem entre todos”. E quais seriam essas diferenças? São muitas: cor de pele, tipo de cabelo, estrutura física, sotaque, nível de inteligência, classe social, crença religiosa, ideologia política, e claro, as diferenças sexuais.

A maioria dos religiosos é contra debater diversidade sexual porque aceita apenas o relacionamento heterossexual, baseados no que aprendem de seus líderes e “livros sagrados”. Cristãos têm como guia moral a Bíblia, um livro que acreditam ter sido revelado por Deus aos homens. Então, ao serem contra o debate, eles estão sendo coerentes com a teologia cristã.

A Bíblia ensina que Deus aprova apenas o relacionamento entre homem e mulher. No livro do Levítico (20,13) Deus manda matar os homossexuais, porque considera a homossexualidade uma abominação. A Bíblia ensina que o homem deve mandar na mulher (Gênesis 3,16; I Coríntios 11,3) e ela deve ser submissa ao marido (Efésios 5,22; Colossenses 3,18; I São Pedro 3,1). A virgindade feminina é tão importante para o Deus da Bíblia, que ele autoriza o noivo matar a noiva se ele descobrir que ela não se guardou virgem para ele (Deuteronômio 22,13). O homem, porém, não era punido se tivesse experiências pré-nupciais, e mesmo depois de casado, podia ter quantas mulheres quisesse (Ver Davi e Salomão). A poligamia feminina era proibida.
Séculos de doutrinação da Igreja criaram valores que a maioria dos cristãos ainda segue nos dias atuais, a saber: que Deus concedeu ao homem mais direitos e liberdade do que à mulher; que a mulher que se veste de maneira sensual ou tem vários parceiros sexuais é vagabunda ou não presta para casar; que a homossexualidade é uma aberração, entre outros preconceitos morais.

Mas, os cristãos estão mesmo seguindo ordens de Deus? Você consegue imaginar um Deus amoroso mandando apedrejar até à morte homossexuais e noivas que não se guardaram virgens para a noite de núpcias? Será que as pessoas que se baseiam na Bíblia e na teologia sexual da Igreja para justificar sua desaprovação ao ensino da IG (melhor dizendo, ao ensino da diversidade sexual) na escola, estão corretas? Se a Bíblia for a palavra de Deus, estão. Mas, e se não for?

 Desde o século XVIII, todos os estudiosos que pesquisaram a Bíblia e a história das religiões sob a ótica científica, histórica, filosófica, psicológica, cultural, etc., rejeitaram a ideia de que a Bíblia seja uma obra revelada por Deus. Muitos deles não negaram a existência de Deus, mas viram que era impossível Ele ter orientado seus escritores. Segundo essas descobertas, os autores bíblicos eram homens comuns, que escreveram a Bíblia segundo a mentalidade e conhecimento que dispunham em sua época, sem nenhum auxílio sobrenatural. A ética sexual da Bíblia juntamente com as leis de Moisés não são um produto revelado dos Céus, mas um código moral inspirado nas diversas leis que existiam naquela época, sobretudo no Código de Hamurábi.

Atribuir a um deus uma legislação, valores morais e regras de comportamento era uma prática comum na Antiguidade, e foi utilizada  por muitos reis, imperadores, legisladores, filósofos e pretensos profetas porque dava mais autoridade e credibilidade às ideias que pretendiam divulgar. Antes da Bíblia, havia diversos textos entre egípcios, babilônicos, gregos, etc., considerados obras “sagradas”, isto é, reveladas por um deus. Como as pessoas daquele tempo eram pouco cultas e facilmente manipuladas, não foi difícil convencê-las de que estavam vivendo sob a jurisdição e princípios morais de um deus.

Como apoio, sugiro a leitura do artigo “Sobre a Bíblia Sagrada” (Robert Ingersoll), disponível na internet, e do livro “A Bíblia não tinha razão”, de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. E todos os livros de Bart Ehrman.
Portanto, as pessoas que são contra discutir nas escolas temas como sexualidade e a diversidade sexual, alegando que eles ferem princípios divinos, me parece que estão equivocadas. Religião é criação dos homens, e seus preceitos morais variam de acordo a época, lugar e o povo que a institui. Por isso é muito perigoso fundamentar a moralidade na religião.
Mas existem pessoas que são contra o debate não por questões religiosas, mas por receio de que tais abordagens possam levar os estudantes a uma vida promíscua, ou se baseiam no argumento de que a prerrogativa de falar sobre sexualidade cabe somente aos pais. Mas, será que todos os pais falam abertamente sobre sexualidade com seus filhos? E os que falam, têm capacidade para orientá-los de maneira correta?

Em minha opinião, pais que amam seus filhos e querem o bem deles, devem sim permitir a conversa franca e sem preconceitos sobre sexualidade nas escolas. E vou explicar por quê. Mas creio que esse debate só deve acontecer se respeitar alguns requisitos:

Os pais devem estar de acordo e conhecer o conteúdo; quem vai falar deve ter formação na área da sexualidade; a criança queira participar do debate (nada deve ser imposto); e já tenha dez anos, porque em geral, é a partir dessa idade que elas começam a falar mais intensamente sobre namoro e temas ligados à sexualidade. Agora, vamos aos motivos de se propor debates sobre sexualidade e diversidades sexuais nas salas de aula:

1. Se os pais e a escola não falarem, nossos filhos vão aprender na rua ou internet, da pior maneira possível;

2. Hoje elas começam no sexo mais cedo, e precisam estar bem informadas para saber dos perigos que ocorrem se elas anteciparem a entrada na vida sexual;

3. Pesquisas mostram que as crianças que não recebem educação sexual têm mais chances de adquirir doenças sexualmente transmissíveis do que aquelas que tiveram informação sobre o assunto, e as meninas que não recebem educação sexual têm mais chances de engravidar do que aquelas que foram informadas sobre sexo. Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Faculdade de Medicina da USP revela que “Quanto mais informada for a criança, melhor ela saberá escolher o momento certo. E, quanto menos informada, mais precoce e aleatória será sua iniciação sexual”. E de acordo com a doutora em psicologia Hebe Signorini Gonçalves (membro do Instituto de Psicologia da UFRJ), quanto mais cedo a criança aprender sobre sua sexualidade, mais capaz será de identificar e se defender de abusos sexuais.

 4. Elas devem entender que existe uma diversidade sexual muito grande. E que a maioria dos gays já nasce gay. Não são gays porque querem. Basta olhar crianças com 5, 6 anos de idade e ver como elas já indicam por quem se interessarão mais tarde. Então, se você crê em Deus, deve admitir que Ele não tem nenhuma objeção a gays e os ama igual aos héteros. Do contrário, não iria criá-los. Estudos científicos revelaram que todo esforço de pais que levaram o filho gay a psicólogos para reverter sua sexualidade, só trouxeram mais sofrimento a eles e ao filho.

5. Só com informação de qualidade elas vão poder compreender a si próprias e a respeitar as diferenças. Há muito bullying contra minorias sexuais, perseguição e assassinatos. Só no Brasil, um homossexual é morto a cada dois dias por razões homofóbicas. Adolescentes homossexuais são propensos a tentar o suicídio duas a três vezes mais do que os héteros, porque não suportam viver em uma sociedade onde a maioria é contra seu modo de ser. Jesus pedia “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, mas parece que muitos não entenderam. O responsável pelo fardo que as minorias sexuais levam durante toda a vida é, sem dúvida, o discurso religioso baseado no código sexual da Bíblia.

6. Meninas e mulheres sofrem assédio moral e estupros, porque muitos meninos aprendem desde cedo pelos próprios pais que eles devem se comportar como garanhões (“mostra o pipi”, “que lindo, meu filho já beijou umas dez meninas na creche”), e que mulher que se veste de maneira sensual está pedindo para ser estuprada. Essa mentalidade deve ser desestimulada a partir do ambiente de casa.

Espero que esse artigo possa conscientizar as pessoas da urgente necessidade de se falar francamente com nossas crianças sobre sexualidade e diversidade sexual. Mas enquanto forem crianças, vamos tratá-las como crianças, sem incentivo a dancinhas eróticas, maquiagens, e roupas sexualizadas.
 
Fernando Bastos
Enviado por Fernando Bastos em 06/12/2017
Código do texto: T6191927
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Sobre o autor
Fernando Bastos
Guaramirim - Santa Catarina - Brasil, 56 anos
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