(Pseudo?) DOS RIVAIS OU O ATLETA CONTRA O INTELECTUAL

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.

(*) “Os rivais ou erastai do título fazem referência a dois jovens que, neste diálogo, são, respectivamente, um devoto da luta livre grega (ou ginástica, como traduziríamos hoje) que despreza a filosofia por considerá-la algo embaraçoso e sem propósito, e um aprendiz de mousiké (na Atenas do período, o termo reunia estudos que hoje separaríamos em três: música, poesia e filosofia). No princípio da narração, ambos discutem, diante do amante de cada qual e duma platéia de outros freqüentadores do ginásio ou academia (termos basicamente indistintos à época: onde todos os da mesma idade se reuniam para banquetear e conversar). A questão principal do debate é se a filosofia é ou não arte nobre e admirável, que valha a pena cultivar. Sócrates intervém; quando questiona a pretensão do jovem <músico> ou <humanista>, que afirma conhecer com certeza absoluta o significado da palavra filosofia, obtém a seguinte resposta: A filosofia é uma polimatia.”

“- Em verdade, Sócrates, não ficarás muito satisfeito caso perguntes a este jovem o que queres perguntar, pois ele vê com desdém o estudo da filosofia. Por acaso ignoras que sua vida inteira se resume em três palavras: exercitar-se, comer, dormir? Que outra resposta poderias esperar dele, senão que filosofar é ridículo?”

“- Minha pergunta se dirigia a ambos, mas se tu crês que só tu me podes satisfazer, me dirijo então a ti somente. Crês que seja coisa boa filosofar?

Os outros jovens, logo que nos ouviram, calaram, cessaram suas próprias disputas e se aconchegaram, para nos ouvir a contento. O que os dois contendores experimentaram quando todos os olhos e ouvidos dos demais jovens se voltaram para eles, confesso ignorar; mas quanto a mim, posso dizer que estremeci, porque a juventude e a beleza sempre me causam grande impressão.”

“- Sócrates, se crera eu que fosse ridículo o filosofar, não me creria mais homem, e não encontro quem, da mesma conformação mental que eu, pense diferente.

(...)

- Pois bem, sabes tu, meu jovem, que é a filosofia?

- Sem dúvida sei-o.

- Que seria, então?

- Nada senão aquilo que Sólon disse em certa passagem: <Eu envelheço aprendendo todos os dias>. Me parece que aquele que deseja ser filósofo deve aprender todos os dias alguma coisa, seja na juventude, seja na velhice, a fim de saber nesta vida o maior número de coisas o possível.

Na hora esta resposta me pareceu satisfatória. Porém, depois de haver refletido um pouco, perguntei-lhe se a filosofia consistia nisso: ser um grande saber.

- Ora, sem dúvida.

- Mas julgas então que a filosofia é não só boa como útil?

- É tão útil quanto é boa.”

“- Mas crês tu que o gosto pela ginástica consiste em fazer o maior número de exercícios possível?

- Sem dúvida; e como o amor à sabedoria, a filosofia consiste em querer conhecer o maior número de coisas possível.”

“- Por que guardas silêncio, meu querido, quando atacam tua arte desta maneira? Crês tu que os exercícios numerosos tornam saudável, ou que tornam-no os exercícios moderados?

- De minha parte, Sócrates, creio que são os exercícios moderados que tornam saudável, segundo aprendemos do professor de ginástica. Queres a prova? Tens aí este homem, que em sua enorme aplicação aos estudos nem mesmo dorme, nem come; vê que corpo fraco e débil tem!

Diante destas palavras, dois dos jovens começaram a gargalhar, sendo que o <filósofo> ruborizou. Eu lhe disse então:

- Reconheces, agora, pois, que não são os muitos ou poucos exercícios, mas os exercícios em moderação, que colaboram para a saúde? Ou ainda tentarás combater uma opinião sustentada por dois ao mesmo tempo?”

“- Quanto à alimentação, não é uma quantidade moderada e não uma grande quantidade, a mais saudável? (...) E quanto à alma, que será que convém-lhe melhor – uma grande quantidade de alimento ou uma quantidade moderada?

- Moderada.

- As ciências não entram no número dos alimentos da alma?

O jovem assentiu.”

“Que ciências, segundo opinaremos, deve obrigatoriamente aprender um filósofo?”

Tais aspas talvez sejam as mais recorrentes da obra platônica.

“- Crês que deve ser nas outras disciplinas como na arquitetura? Por exemplo: terás a tua disposição um mestre-de-obras perito por 5 ou 6 minas, não mais; mas um arquiteto, que lhe é superior em conhecimento, custar-te-á mais de 10 mil dracmas, porque são pouquíssimos os arquitetos em Atenas, afinal.

- Sim.

- Então diz-me: não seria impossível a um homem só dominar duas artes? E o que diremos então de diversas artes?

- Não figures, Sócrates, que eu queira dizer que um filósofo deva saber todas as artes tão perfeitamente quanto aqueles que as exercem. Basta que as saiba como convém a um cidadão bem-educado, a fim de compreender melhor que o leigo aquilo que dizem os mestres especialistas.”

“- Queres que o filósofo seja, diante dos artistas, o que é um pentatlo¹ diante de um corredor ou lutador? Vencido pelos atletas profissionais em cada exercício isoladamente, afinal ele não se especializa soberanamente em nenhum, o pentatlo é um atleta de segunda categoria, mas ao mesmo tempo, na disputa do pentatlo, é o melhor. Talvez seja exatamente isto que esperas da carreira filosófica: em cada arte serás mestre de segunda categoria, mas, no somatório de todas as artes, serás o mais sábio. De sorte que o filósofo é, na essência, um especialista de segunda categoria. Explica-te se eu estiver enganado.”

¹ Pentatlo é a palavra que designa ao mesmo tempo a modalidade atlética em que se mesclam 5 exercícios e aquele que a pratica. São os 5 esportes ou exercícios do pentatlo antigo: arco-e-flecha, corrida, salto, arremesso de disco e luta.

“- Se os mais hábeis são úteis, os inábeis são inúteis.

- De acordo.

- Mas os filósofos são úteis ou inúteis?

- Não só são úteis como são os mais úteis de todos os homens.”

“- Dirias tu que conhecer e melhorar o homem merece o nome de arte? E, existindo esta arte, a arte de aperfeiçoar o gênero humano seria equivalente a saber discernir os bons e os maus?”

“- Como denominas a ciência que corrige os que vivem em licenciosidade e violam as leis? Não seria a ciência do direito?

- Decerto.

- E esta ciência, não é o mesmo que a justiça?

- Ambas são uma e a mesma coisa.

- Deste modo, segundo teu parecer, a arte de corrigir os maus serve também para separá-los dos bons?

- Com toda a certeza, Sócrates.”

“- Sendo assim, um homem que não distinguisse os bons dos maus ignoraria se ele mesmo é bom ou mau, já que também é homem.

- Correto.

- Não conhecer-se a si mesmo é ser sábio ou mentecapto?

- É ser mentecapto.

- Por conseguinte, conhecer-se a si mesmo é ser sábio.

- É como penso.

- Destarte, a inscrição de Delfos nos exorta a praticar a sabedoria e a justiça.

- Sim.”

“- A justiça e a sabedoria são uma e a mesma coisa.

- Ao que parece, sim.

- E os Estados estão bem-regidos quando os maus são castigados.

- É a verdade.

- É isto que se chama política?

- Sim, de acordo.

- Quando um homem governa bem um Estado, não é chamado de rei?

- Sem sombra de dúvida.

- Governa, dessa forma, com uso da arte real?

- É evidente!

- Mas tudo isso não é o mesmo do que acabamos de falar?

- Parece que sim.

- Quando um particular governa bem a sua casa, que nome se lhe dá? Não se o chama bom administrador e bom amo?

- Sim.”

“- Parece-me, então, que rei, político, administrador e senhor justos e sábios são, resumindo, uma e a mesma coisa; e que o reinado, ou a política, a economia, a sabedoria e a justiça são na verdade uma e a mesma arte.

- Concordo.”

“Ao ouvir estas palavras, o sábio, confundido pelo que havia dito, não soube o que responder, e o ignorante – o atleta – me assegurou que tinha eu razão.”

JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA

Muito simples, estilística e retoricamente, comparada ao cânone, se bem que não incorre em erros. O filósofo é a síntese da educação da alma e do corpo, e deve sempre buscar o próprio aperfeiçoamento. O filósofo existe para governar com justiça, porque é o único capaz de fazê-lo. A classificação da obra como de Platão ou de Pseudo-Platão é controversa.

BÔNUS: Acerca d’O Axíaco

(*) “Axíaco é um diálogo socrático atribuído tradicionalmente a Platão, mas que hoje (séc. XIX) se considera apócrifo. A obra deve datar da era helenística, aproximadamente século primeiro antes de Cristo, redigida com bastante probabilidade ou por um platônico ou por um neo-pitagórico. Faz parte do gênero romano da Literatura consoladora, muito popular então. É algo inusual vê-la dirigida a um moribundo (Sócrates conversa com alguém que dentro em pouco morrerá), pois o mais comum era que se dedicasse a algum parente de um personagem recém-falecido.”