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OLHOS DA ÁFRICA: DOIS POÇOS BEBIDOS PELO SOL

                                                Pof. Me. Arivaldo Leandro da S. Monte
                                                Prof. Dr. Derivaldo dos Santos(UFRN)

O conto “O pescador cego”  traz  a  história  do  pescador  Maneca  Mazembe  que, perdido  em  alto  mar  e  sem  o  que  comer,  arranca  os  próprios  olhos  para  servir  de  isca aos  peixes  e  matar  a  própria  fome.  No  entanto,  contrariamente  ao  que  se  poderia imaginar,  depois  de  cego,  o  pescador  encontra  o  caminho  de  volta  para  casa  mais rapidamente.  “maneira  como  ele  perdeu  as  vistas  é  assunto  de  acreditar”  (p.  93).  Ao regressar,  Mazembe  se  torna  mais  sensitivo  e  perceptivo,  sua  acuidade  sensorial  é redobrada  e  o  mundo  começa  a  ter  um  novo  sentido  em  sua  vida.  A  escuridão  interior transforma  seu  modo  de  pensar.  Dentro  de  sua  casa  sente  o  seu  macho  estatuto ameaçado pela impossibilidade de pescar e de ter que ser alimentado pelas mãos de uma mulher magra e submissa: “Era cego (sic) mas não perdera seu macho estatuto” (p.96). Assim,  ainda  não  há  uma  mudança  significativa  em  seu  comportamento,  e  somente  ao final  do  conto  vamos  observar  uma  transformação  mais  profunda  na  essência  do homem, quando então reconhece em Salima (sua esposa) “a esperteza das mulheres para amansar  os  homens,  converter-lhes  em  crianças,  almas  de  insuficiente  confiança” (p.100) e permite que sua mulher entre em alto mar como pescadora.
Ao  transformar  as  coisas  da  vida  real  em  uma  realidade  outra,  o  da  ficção literária,  não  estaria  o  autor  nos  fazendo  ver  o  invisível?  Antonio  Candido  em A personagem  de  ficção (2009)  vai  chamar  nossa  atenção  para  a  formação  paradoxal  do personagem: “De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No  entanto,  a  criação  literária  repousa  sobre  este paradoxo,”  (p.55).  E  essa  criação literária  não  só  pode  existir,  mas  também  exprimir uma  realidade  social  carregada  de sentimento.  Pode  ainda, muitas  vezes,  ser  mais  humanamente  expressiva  que  a  própria realidade.  Para  Sócrates  nós  “só  vemos  aquilo  que  cremos”  e  no  mito  da  caverna  de Platão  o  que  se  vê  são  sombras  deformadas.  Certo  mesmo  é  que,  de  uma  forma  ou  de outra, estamos sempre vendo o que não existe ou o que é somente visível aos horizontes da primeira vista.
Falo das coisas invisíveis porque no conto “O pescador cego”, Mia Couto usa os componentes  da  realidade  histórica  e  social  africana  como  elemento  de  equivalência simbólica,  particularmente  da  cultura  oral  e  da  história.  Depois  Transforma  esses componentes  em  estética  de  ficção  e,  por  fim,  lhes acrescenta  aspectos  de  denúncia  e crítica social. Dessa forma a memória é apreendida no presente e repensada no futuro e a  oralidade  é  exercida  pela  força  da  narrativa,  conservando  a  história  e  a  oralidade cultural da tradição africana.
Neste  ponto  não  há  uma  intenção  do  autor  em  transformar  a  memória  e  suas tradições  em  “história  objetiva”,  mas  de  preservar a  cultura  identitária  de  seu  povo, seguramente  a  oralidade,  através  da  “história  ideológica”.  É  Le  Goff  (2003)  quem  nos revela a importância desta distinção entre história objetiva e história ideológica:

“Nadel distingue, a propósito dos nupes da Nigéria, dois tipos de história: por um lado,  a  história  a  que  chama  “objetiva”,  que  é  “a  série  dos  fatos  que  nós, investigadores,  descrevemos  e  estabelecemos  com  base  em  certos  critérios  ̳objetivos‘ universais no que diz respeito à suas relações e sucessão” (1924, ed. 1969, p.72), e, por outro lado, a história a que chama “ideologia”, “que descreve e ordena esses fatos de acordo com certas tradições estabelecidas” (ibidem). Esta segunda história é a memória coletiva, que tende a confundir a história e o mito. E  esta  “história  ideológica”  volta-se  de  preferência  para  “os  primórdios  do reino”, para “a personagem de Tsoede ou Edegi, herói cultural e mítico fundador do  reino  Nupe”  (ibidem).  A  história  dos  inícios  torna-se,  assim,  para  retomar uma expressão de Malinowski, um “cantar mítico” da tradição.” (p. 424)

O conto “O pescador cego” é um “cantar mítico‘ da tradição”, na medida em que instiga  a  preservação  da  cultura  oral  moçambicana, preservação  feita  também  de dinamicidade  e  transformação.  Reconstituição  do  tempo  de  outrora  e  sua  consequente atualização no presente, eis o que nos instiga a memória.
Segundo  a  sistematização  teórica  de  Le  Goff  (2003),  a  memória  é  capaz  de apreender  informações  do  passado  no  presente  e  depois  atualizá-las,  uma  vez  que  o homem, assumindo funções psíquicas, pode não apenas registrar as suas impressões do tempo, mas colocá-las sob permanente atualização.

“A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete- nos em primeiro  lugar  a  um  conjunto  de  funções  psíquicas, graças  às  quais  o  homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas.” (LE GOFF, 2003, p. 419)

Assim as informações do passado nos possibilitam uma melhor compreensão do presente.  De  uma  maneira  ou  de  outra,  estamos  sempre  lidando  com  dimensões invisíveis  do  tempo  que  quase  sempre  não  estão  expressas  no  texto.  Desse  modo,  na literatura  de  ficção,  devemos  estar  também  preocupados  com  aquilo  que  não  foi  dito, com  aquilo  que  ficou  subjacente,  com  as  relações  sociais  entre  passado,  presente  e futuro. Porquanto, nada disso podemos “ver com os olhos”.
Postas as considerações iniciaremos nossa análise.

O  personagem  do  pescador  Maneca  Mazembe,  provavelmente,  nunca  tenha  de fato existido, no entanto, produz sentimento de vida capaz de traduzir grande realidade. A  solidão  provocada  pelo  isolamento  no  mar  e  por  sua  cegueira,  que  o  faz  ver  o  que (Édipo,  o  principal  personagem  na  peça  de  Sófocles  "Édipo  Rei",  não  pôde  ver  a  verdade,  mas  um homem  cego,  Tirésias,  a  "viu"  claramente.  Essa  nota  discute  como  Sófocles  usa  a  cegueira  como  um motivo  para  brincar:  como  Édipo,  conhecedor  de  sua inteligência,  está  ignorante  e  consequentemente cego para com a verdade sobre si mesmo e seu passado. Também mostra quando Tirésias expõe a verdade) antes não via, é motivo que se identifica com o espírito humano, isso porque a solidão é um  sentimento  universal  e,  pescar,  em  muitos  momentos  é  um  ato  solitário,  pode  ser mesmo  um  instante  de  reflexão.  Na história  esse  momento  é  também  usado  para  criar imagens estéticas da oralidade africana no jeito do falar: “Não existe melhor aconchego que o corpo, pensava ele. Ou será os bebés (sic), dentro da grávida, sofrem de frio?”; “- já eu nem me apareço”. No jeito de pensar a natureza das coisas e da mulher: “O mar é generoso,  mais  do  que  a  terra.”,  “Salima,  que  sabia  ela?  Magrita,  sua  delicadeza  era  a dos caniços, submissos, mesmo à suave brisa.” Estas palavras perpassam como flash os pensamentos  do  pescador,  indo  de  um  extremo  ao  outro  num  observar  constante  do próprio interior.
No  conto  “O  pescador  cego”  a  força  da  oralidade  não  reside  somente  na  forma estética   do   linguajar   ou   da   sintaxe,   embora   reconheçamos   alguns   marcadores importantes  para  esse  teor.  Mas  sobre  tudo  nas  coisas  fantásticas  e  inesperadas,  no homem que arranca os próprios olhos e se mantém vivo em alto mar, cego ele consegue sair  do  mar  e  voltar  para  casa.  Depois  uma  chuva  de  gelo  nunca  antes  acontecida  cai sobre a praia, e em seguida um cego que, sozinho, constrói um barco, não que isso não seja  inteiramente  possível,  mas  não  deixa  de  ser  algo  difícil  de  realizar  e  não  muito comum.  A  oralidade  africana  exerce  nesse  texto  a  faculdade  de  expressar  aquilo  que talvez  mais  pese  na  tradição  da  oralidade  africana –  o  ato  de  simplesmente  contar, inventar,  “magicar”,  “intercambiar  experiências”.  Porém,  essa  mesma  oralidade  não  se faz  desatenta  às  experiência  de  uma  transmissão,  de  uma  comunicação  de  saberes  ou mesmo de uma forma de contestação:

“Os mitos, contos, adivinhações, provérbios e enigmas, etc., ainda mal estudados e  mal  conhecidos,  nem  sempre  constituem  simples  expressões  de  valores folclóricos. Eles representam muitas vezes técnicas de memorização e de difusão de um saber ou de uma mensagem.” (SECCO, 2008, p.27).

Através  dessa  ótica  a  magia  africana  nos  apresenta uma  nova  África.  A  África que conta histórias para dizer algo que ainda não compreendemos, ou seja, para falar da sua  memória,  não  meramente  recordando  o  passado,  mas  também  como  possibilidade reescrever o vivido.
Para  o  pescador  Mazembe  a  experiência  da  cegueira, que  faz  mergulhar  no interior  humano,  tem  a  simplicidade  das  coisas  e  a complexidade  dos  homens,  porém, para entender essa simplicidade e essa  complexidade é necessário condensá-las em um único universo, o universo humano que se esconde na incompletude do interior de cada homem.  É  dessa  forma  que  se  relacionam  simplicidade  e  complexidade,  dois  aspectos de  uma  mesma  natureza,  que  remontam  a  finitude  do  homem  em  um  cosmo  infinito  e universal. Estes são dados de uma dimensão comum encontrados na realidade humana e que,  aqui,  se  organizam  na  ficção  a  partir  da  configuração  do  personagem  Maneco Mazembe. Este é um exemplo de um dos momentos que nos fala Antonio Candido em seu processo da “redução estrutural”: o pescador, que é personagem de ficção, absorve a realidade  da  vida  moçambicana,  da  sua  cultura  e  da sua  história,  da  complexidade humana, dando vida e sentimento à história de ficção e, ao final, “A personagem vive o enredo e as idéias, e os torna vivos.” (CANDIDO, 2007, p.54)
Mesmo Mazembe não sendo conhecedor de tal consciência, digo, da sua inteira complexidade  humana  –  porque  somente  uma  profunda  reflexão  sobre  o  interior humano  poderá  levar  o  homem,  com  sua  expressão  subjetiva  e  individual,  de  volta  à unidade  com  a  natureza,  lugar-comum,  simples  e  espontâneo  que  seria  a  sedimentação do individual com o social – ele, o pescador, é uma equivalência simbólica da realidade  africana.

“O pescador, silencioso, percorria os atalhos da alma.” (p.98), procurando na sua simplicidade uma saída que fosse, para a complexidade do espírito do homem, mas “O pescador ficou só, parecia o real ficara ainda mais imenso.” (p.98). Ao procurar sair do isolamento e da solidão Maneca Mazembe encontra-se em um espaço vazio, não há um encontro  com  o  “eu”,  o  que  seria  uma  prova  viva  de sua  identidade.  Agora  limitado também  pelo  desconhecido  e  pelo  medo  que  o  levam  a um  profundo  sentimento  de angústia quando, de repente, uma grossa chuva de gelo cai do céu:

“A  terra  subiu  para  o  céu,  pensou.  Virando  do  avesso,  o  mundo  deixava  tombar seus  materiais.  Em  angústia  de  órfão  o  pescador  caiu  sobre  os  joelhos,  braços enrolados sobre a cabeça. Ele nem a si se ouvia, senão se notava chamando por Salima, entre soluços seus e gemidos da terra.” (p.99)

 Através  da  solidão  do  pescador  cada  vez  que  olhamos  para  dentro  de  nós mesmos  e,  refletimos  sobre  o  nosso  interior,  podemos  encontrar  uma  tempestade  de pensamentos  conflituosos,  na  verdade,  estamos  perscrutando  um  pedaço  do  cosmo ainda  completamente  inexplorado,  como  pensava  Mazembe:  “Virando  do  avesso,  o mundo deixava tombar seus materiais”. Assim é ‘o universal humano”, aquilo que tem de  mais  comum  entre  todos  os  homens,  a  sua  subjetividade  que,  ao  mergulhar  no espírito  humano,  compromete-se  com  o  social,  mesmo sem  uma  real  e  total  intenção. Dessa   maneira   a   cosmogonia   da   subjetividade   se   faz entender,   paradoxalmente, individual e universal, dentro de um só homem, um uno entranhado de matéria múltipla.
Essas  observações  sobre  o  “universal  humano”  são  de  relevante  importância para  a  literatura  de  ficção,  pois  parte  da  compreensão  de  que  tudo  depende  do  nosso olhar,  da  maneira  como  vemos  as  coisas  a  nossa  volta,  do  conhecimento  prévio  e  do conhecimento contextual que compõe a história, e também de tudo aquilo que compõe o nosso  interior:  “O  olhar ensina  um  pensar  generoso que,  entrando  em  si, sai  de  si  pelo pensamento de outrem que o apanha e prossegue. O olhar, identidade de sair e do entrar em si, é a definição mesma do espírito.” (CHAUI, p.61).
É  assim  que  encontramos  a  relação  da  atitude  drástica  do  pescador  Maneca Mazembe, tentando reencontrar sua identidade e (re)definir seu espírito junto aos mitos africanos. Ingenuamente poderíamos perguntar por que o pescador arrancou os próprios olhos,  e  não  outra  parte  qualquer  do  corpo,  as  orelhas,  por  exemplo.  Ora,  se  assim  o fizéssemos estaríamos, aqui, destituindo o personagem de seu mito e tentando transpô- lo  para  a  vida  real,  quando  na  verdade  o  que  interessa  mesmo  é  a  compreensão  do universo humano, algo que não está escrito, mas que podemos ver através da solidão de Mazembe  ao  perder  os  olhos:  “Assim,  em  passos  líquidos,  ele  aparentava  buscar  seu completo  rosto,  gerações  e  gerações  de  ondas.”  “passos  líquidos”  são  pegadas  que desaparecem  para  sempre,  uma  identidade  que  jamais será  encontrada.  Um  povo  que não domina e perde a memória não tem perspectivas de construção de um futuro melhor é o que nos adverte Le Goff (2003):

“Tornar-se   senhores   da   memória   e   do   esquecimento   é   uma   das   grandes preocupações   das   classes,   dos   grupos,   dos   indivíduos   que   dominaram   e dominam  as  sociedades  históricas.  Os  esquecimentos e  os  silêncios  da  história são   reveladores   desses   mecanismos   de   manipulação   da   memória   coletiva.” (p.422)

Sob  esse  prisma,  a  ideia  central  que  permeia  a  narrativa  reside  em  preservar  as verdades da oralidade da África, suas crenças e seus costumes, histórias e fantasias, tal qual  elas  se  apresentam  no  ato  de  contar  na  cultura  africana  a  fim  de  garantir  a manutenção de sua memória. Ao mesmo tempo em que a trama da narrativa aponta para os aspectos gerais da  realidade social africana, parece conjugar esses mesmos aspectos em componentes internos, como se os instituísse como “princípio de generalização”.
No   conto,   “O   pescador   cego”,   a   perda   dos   olhos   do   pescador   nos   leva gradativamente  a  aspectos  cada  vez  mais  profundos  da  cegueira,  pois  sem  os  olhos aprendemos a “ver” e não mais a “olhar” no sentido lato da palavra, como nos esclarece Marilena  Chaui5.  Já  esta  observação  nos  levaria  à  alma  humana,  ao conhecimento interior. Observe que no início do conto o narrador nos chama a atenção para a seguinte reflexão: “Porque (sic) nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta  as  coisas,  costura  os  fios  do  disperso.”  (p.93)  e  é  dessa  forma  que  Mazembe  vai tentar se encontrar, “costurando os fios do disperso”.
O  escritor  age  como  se  quisesse  (re)  inteirar  a  imanência  da  simples  arte  do contar, e nada mais. Como em um passe de mágica em que surge a África contadora de estórias,  da  infinita  oralidade,  do  inexplicável,  “maneira  como  ele  perdeu  as  vistas  é assunto de acreditar” (p. 93), e pronto, tudo  acontece. E  é assim mesmo como observa Secco (2008):

“O magnetismo exercido pelas literaturas de Angola e Moçambique, das quais ora nos ocupamos, advém, pois, de várias formas de magia. Uma dessas resulta, em parte,  da  presença  da  oralidade  reatualizada,  de  forma  inventiva,  por  escrituras que se querem, simultaneamente, som,corpo e letra.” (p.26).

A  oralidade  da  África  é,  pois,  mágica  e  inventiva, requer  reflexão  e,  sobretudo, imaginação  e  fantasia,  coisas  que  fazem  parte  do  cotidiano  do  povo  africano,  como contar  a  história  de  um  pescador  cego.  Esso  está  relecionado  com  o  ato  de  ver  e conhecer  o  interior, enxergar  com  profundidade  de  espírito,  ver  o  que  está  além  das palavras, o conto todo é uma metáfora. Acrescente-se aí a leitura de denúncia social que sempre se configura na ficção de Mia couto – como veremos mais adiante.
Maneca  Mazembe  encontrou  o  caminho  de  volta  para  casa  apenas  usando  o esforço  físico  dos  braços,  tudo  isso  depois  de  perder  os  olhos  e  ficar  completamente cego. Uma volta do sujeito fragmentado: “Sua chegada espalhava  alegrias, seu aspecto semeava  horrores.”  (p.95),  o  antagonismo  descritivo  da  sentença  já  revela  a  perda  da identidade.  No  personagem  a  memória  e  o  esquecimento  são  duas  faces  da  mesma moeda. Mazembe chega, mas não é mais o mesmo. Através do mar o colonizador levou embora muito da memória africana e deixou para trás grande rastro de horror.
A metáfora do pescador cego tem ainda uma forte ligação com uma célebre frase de  Leonardo  da  Vinci  “os  olhos  são  a  janela  da  alma  e  o  espelho  do  mundo”.  Sem  os olhos  a  alma  ficará  encarcerada  no  corpo  até  a  morte  e  a  partir  daí,  quais  seriam  as referências do mundo exterior e interior? É assim que Mazembe nos é apresentado pelo narrador ao regressar de sua jornada: “Mazembe regressa despido daquilo que mais nos constitui: os olhos, janelas onde nossa alma se acende.” (p. 95). A alma aqui é metáfora do  humano  no  homem,  onde  se  revela  os  recônditos  mais  profundos  do  ser.  Nesse sentido,  arrancar  os  próprios  olhos  simboliza  não  apenas  uma  saída  possível  para  o pescador, considerando as suas circunstâncias adversas, mas também nos remete para a compreensão de um sujeito fraturado, fragmentado, pois a extração dos olhos parece ser a supressão da alma. Ao perder os olhos, o pescador tem a alma aprisionada, solitária e angustiada, ainda que seja também sinal de sua salvação.
Portanto,  ver  exige  maior  profundidade  de  conhecimento  e  reflexão.  Olhar  é perceber  a  superfície,  é  ter  contato  com  a  aparência  do  corpo,  e  a  experiência  desse contato  muitas  vezes  se resume  apenas  em  matéria  e forma  externa.  Mas,  ao  perder  os olhos, voltamo-nos para nosso interior: “Só ao término da visão – de minha ausência de mim  mesma  –  fecho-me  sobre  mim.”  (CHAUI,  1988,  p.  60).  Dessa  maneira  a personagem  Maneca  Mazembe  nos  quer  falar  do  espírito  humano,  do  metafísico,  da alma e da essência do homem, que são coisas que transcendem a matéria, a aparência, e estão  além  do  olhar  humano.  Com  isso,  aprendemos  mais  com  a  cegueira  de  Maneca Mazembe,  observando   a  sua  solidão,  do  que  o  próprio  personagem  com   a  sua desenvoltura limitada dentro da narrativa. No início do conto Mia Couto já leva o leitor a essa direção do interior humano:

“ Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque (sic) nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura  os  fios  do  disperso.  No  aconchego  da  noite,  o  impossível  ganha  a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas.” (p.93)

Com a leitura metafórica do olhar o conto pode estar chamando nossa a atenção para alguns pontos cruciais de reflexão: à medida que Mazembe ficava cego, sua fome ia sendo saciada, e  a cegueira total o salvou da morte, o que implica dizer que a perda dos  olhos  não  nos  impede  de  pensar,  refletir,  encontrar  soluções  para  a  vida.  Com  a perda  de  um  dos  olhos  “Maneca  amoleceu  até  sonecar.”  (p.95),  mas  com  a  perda  dos dois olhos “seus braços reganharam competência. Sua alma regressara do mar.” (p.95). Estamos  habituados  a  medir  nossa  força  física  pelo que  vemos,  e  nos  desestimulamos com as adversidades que visivelmente são superiores a nós, mas quando cego Mazembe desconheceu essas  adversidades e começou  a remar sem medo do mar,  ou da distância que  o  separava  do  continente,  e  isso  o  salvou,  antes,  porém,  Mazembe  “fazia  fé  na espera”, “Mazembe queria remar, desconseguia” (p.95), completamente sem esperança:

“A  tempestade  assustara  o  pequeno  concho  e  o  pescador  se  findou,  invindável. Passaram as horas, chamadas pelo tempo. Sem rede nem reserva, Mazembe fez fé na  espera. Mas  a fome começou a fazer ninho em sua barriga. Decidiu lança linha, já sem esperança.” (p. 93).

Quando “O escuro encerrou o pescador.” foi justamente o momento em que ele pegou  o  maior  peixe  de  sua  vida  e  que  conseguiu  encontrar  o  caminho  de  volta  para casa. Esta metáfora, que mais parece um ponto final na vida de Mazembe, para que ele possa inaugurar nova vida, leva o leitor a pensar que o pescador sofria de uma cegueira ainda  maior  quando  tinha  os  olhos  que  o  impedia  de prosseguir,  tentando  encontrar saídas.
Ao  retornar  desfigurado,  Mazembe  foi  recebido  com  alegria  pelo  povo.  E  foi assim  que  “Todos  lhe  queriam  ver,  ninguém  lhe  queria  olhar.”  (p.  95).  Estas  questões, que na verdade são evidências para uma leitura do interior humano, nos fazem crer que os  olhos  são,  na  verdade,  meios  canalizadores  que  nos  conduzem  para  a  alma  do homem. Em que situação nós temos que perder os olhos para sobreviver? dipo furou os olhos para ver a verdade. Pois tudo Mazembe consegue depois de ficar completamente cego: pesca, se alimenta, rema, e volta para casa. Ao perder o primeiro olho, o pescador tinha a seguinte visão sobre sua esposa: “Salima, que sabia ela? Magrita, sua delicadeza era a dos caniços, submissos, mesmo à suave brisa. Nem se entendia que força ela tirava de  si  mesma  quando  erguia  bem  alto  o  pau  do  pilão. E  no  embalo  de  Salima,  Maneca amoleceu  até  sonecar.”  (p.  94).  Portanto,  fraca  e  sem  conhecimento  das  coisas  do mundo, Salima nada podia oferecer à vida. E em várias passagens o pescador não aceita que Salima assuma o remo do barco em uma pescaria em alto mar, com medo que isso afete o seu macho estatuto dentro de casa. Dizia ele: “– Nem que seja eu te amarrar no meu  pé,  Salima:  tu  não  vais  no  mar.”  (p.  97).  Ao  final  do  conto,  Mazembe  muda  seu modo  de  pensar  sobre  Salima  e  aceita  que  ela  vá  pescar:  “Leva  esses  remos.  Lá,  na praia,  está  um  barco  que  eu  fiz  para  você  sair  na  pesca.  E  prosseguiu:  ela  que  saísse, baixasse seus mandos naquele barco. Nem se preocupasse consigo. Ele ficaria na beira- água,  dedicado  aos  despojos  do  mar.”  (p.  100).  A  mudança  de  atitude  em  relação  à Salima talvez seja a maior prova de aprendizado espiritual que de maneira real atuou na formação do pescador, pois a mudança de comportamento implica, nesse  contexto, um melhoramento  do  espírito  humano.  Mazembe  tornou-se humanamente  mais  flexível  e mais sensível para a vida.
A  memória  do  povo  africano  está  ligada  estreitamente  ao  mar,  ao  regresso,  ao silêncio, a escuridão, a solidão, a cegueira, que são marcadores articulados ao processo de  roedura  do  continente  africano.  Particularmente,  o  mar  do  leste  do  continente,  pois Moçambique  foi  considerado  território  estratégico  na  rota  das  Índias.  Por  ali,  milhares de negros foram traficados. O mar foi palco dos horrores da escravidão durante séculos. Pelo  mar  seu  povo  via  seus  entes  sumirem  para  nunca  mais  voltar.  E  aqueles  que ficaram em terra firme foram da mesma forma vítimas da opressão. Ficaram cegos pela aculturação  que  lhes  fora  imposta,  uma  cegueira  provocada  pelo  longo  processo  de exploração  e  colonização.  Este  é  o  momento  em  que  a  memória  pretende  apreender  o passado  para  modificar  o  futuro  e  não  deixar  que  este  episódio  da  história  volte  a acontecer:  “A  memória  é  um  glorioso  e  admirável  dom  da  natureza,  através  do  qual reevocamos  as  coisas  passadas,  abraçamos  as  presentes  e  contemplamos  as  futuras, graças à sua semelhança com as passadas” (LE GOFF, 2003, p.447).
Também  os  países  colonizadores  fecharam  os  olhos  durante  décadas  aos  países da  África.  Depois  disso  o  continente  africano  ficou  isolado  do  mundo,  continuando  a sofrer  dos  efeitos  do  preconceito,  do  sectarismo  étnico  e  religioso.  Uma  solidão  que mais tarde o transformaria no continente mais pobre do mundo.
A  África  foi  silenciada  de  várias  formas,  mas  principalmente  pela  falta  de liberdade  e  pelo  preconceito.  Não  me  admira  que  Maneca  Mazembe  não  quisesse  que Salima  entrasse  no  mar  para  pescar  “A  identidade  daquela  mulher,  no  silêncio,  se haveria  de  perder.”  (p.  100),  ou  que  ele  tenha  perdido  os  olhos  em  alto  mar  e regressado cego, deixando lá um pouco da sua identidade: “- Faz conta ando a procurar esses meus olhos que perdi.” Pois quem atravessasse o mar, poucas ou nenhuma chance  teria de regressar. Maneca Mazembe é mais que um pescador, ele simboliza uma nação inteira, com todas as suas marcas e equivalências históricas e sociais, ele é parte de um  processo de  reconstrução da própria identidade e  voltou para virar a estória do  avesso: “Virado do avesso, o mundo deixava tombar seus materiais.”
Maneca  Mazembe  está  dotado  de  uma  carga  simbólica  individual  e  universal, posto que o seu estado de solidão e angústia pode ser algo inerente à humana condição, como também observamos a forte carga de oralidade na arte do contar, privilegiando os elementos  fantásticos.  No  que  se  refere  à  memória, podemos  dizer  que  ela  reúne elementos  do  passado  através  do  simbolismo  da  cegueira  do  personagem,  e  denuncia  certo  sentimento  opressor  no  presente,  provocado  pelos  longos anos de exploração colonial, o que afetou profundamente as relações culturais africanas, fazendo-nos refletir e desejar algo diferente no futuro.
Os  dois  aspectos  encontrados  em  um  só  personagem  é o  resultado  de  uma análise baseada na redução estrutural de Antonio Candido, onde os elementos culturais da  oralidade  se  organizam  de  tal  maneira  que  a  realidade  e  a  ficção  possam  garantir  a existência de algo que não existe. É dessa forma que Mia Couto dá a ver esse processo de formação e transformação cultural dentro do conto “O pescador cego”. Mergulhando entre  o  mítico,  o  mágico  e  a  realidade  social,  valendo-se  da  força  do  personagem  das lendas  moçambicanas,  acrescentando-lhe  valores  culturais  que  invocam  a  realidade social e a memória coletiva – somam-se aí, as múltiplas identidades culturais, resquícios de  memórias,  de  ritos,  lendas,  festas,  danças,  causos,  imagens,  símbolos,  mitos,  todos ligados  a  uma  tradição  num  esforço  para  preservar  a  memória  coletiva  africana  nas narrativas de ficção.

REFERÊNCIAS
CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades / Ouro Azul. 2004.
 ____. [et al.] A Personagem de ficção. 11 ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
____.  Textos  de  intervenção.  In: A  literatura  e  a  formação  do  homem.  São  Paulo: Editora 34 ltda. 2002.
CHAUI,  Marilena.  Janela  da  alma,  espelho  do  mundo. In.:  O  olhar.  São  Paulo: Companhia das letras, 1988, p. 31-61.
COUTO, Antonio Emilio L. O embondeiro que  sonhava  pássaros.  In: Cada  homem  é uma raça. 9 ed. Lisboa: Caminho SA, 2005, p. 69-87.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. S. Paulo: Selo Negro, 2005. p. 11-44 e 520-612.
HOLANDA, Lourival. Sob o signo do silêncio. Vidas Secas e o Estrangeiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
LE GOFF, Jacques. Memória. In História e memória; trad. Bernardo Leitão [et al] 5 ed. Campinas, São Paulo: UNICAMP, 2003
LÖWY,  Michael.  Ideologia.  In: Ideologias  e  Ciências  Sociais.  Elementos  para  uma análise marxista. São Paulo: Cortrez, 2006.
SCHWARZ, Roberto. Pressupostos, salvo engano, de Dialética da malandragem.  In.:  . Que horas são?: Ensaios. São Paulo: Companhia das letras, 1987. p. 127-155.
SECCO,  Carmem  Lúcia  Tindó.  A arte de magicar. In.: A  magia  das  letras  africanas: ensaios  sobre  as  literaturas  de  Angola  e  Moçambique  e  outros  diálogos.  2  ed.  Rio  de Janeiro: Quartete, 2008.
http://pt.shvoong.com/humanities/cegueira-em-edipo-rei

Leandro Dumont e Derivaldo dos Santos
Enviado por Leandro Dumont em 08/04/2021
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