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POESIA DO APLAUSO


A máxima "escrever é 90% transpiração e 10% inspiração" pode soar meio batida dado tamanha necessidade de reutiliza-la. A perigosa aproximação entre o ofício e a auto-ajuda, porém, torna-a imprescindível. Principalmente no campo da linguagem poética, onde vivemos um boom de melações, como houvesse a obrigatoriedade do poeta em portar boas novas.

Compor poesias com o mínimo de qualidade requer reflexão, estudo, aprimoramento pessoal, entre outros fatores na contra mão dessa urgência dos tempos atuais.

"A poesia eletrônica perde tempo falando das mesmas dores sem provocar no leitor outra coisa senão devoção. É a poesia do aplauso."
                               (Trecho do texto 'Então você escreve poesias?
                               Foda-se, você não é especial' - Valter Nascimento)

A constante insatisfação com minha própria produção, levou-me a investigação de novas compreensões sobre o exercício poético. Bem diferente de quando, dez anos atrás, dei os primeiros passos na área cego pela visão romantizada. Da petulância adolescente de ler algumas rimas e pensar "Também posso fazer isso." surgiram as primeiras tentativas calcadas no equívoco, a crença de existir uma áurea divina sobre escritores, por consequência, também, em mim.

Um exemplo, esboço de 16 de Setembro de 2008:

"ÉPOCA ERRADA"

Acho que nasci na época errada
aqui ninguém mais admira poesia
ela foi se perdendo no dia-dia
com o tempo foi enterrada

Cheguei no apogeu da dor
cheguei atrasado a vida
aqui ninguém mais liga
para a poesia feita com amor

Acho que estou no tempo errado
não vejo mais pureza no coração
Vejo só um mundo de solidão
Sem ninguém ser apaixonado

Não se tem sinceridade
Só se tem mentiras e traição
Seguindo para o caminho da ilusão
vivendo de maldade

Busco ainda como um bobo
achar um amor sincero
que me dê tudo que eu quero
E me encontre nesse tempo de novo

Além da gritante falta de vocabulário, o absurdo sentimento de mártir; a crença de haver alguma dívida do universo para comigo. Novamente, o estado de achar-se extraordinário, único em meio aos mortais, tão recorrente em inúmeros aspirantes a escritor. Desapegar-se dessa ilusão é o primeiro passo para a construção de uma literatura verdadeiramente séria.

O processo de desintoxicação da ideia de primazia celestial tende a ser doloroso. Trata-se de despencar com a cara na lama para reconhecer defeitos, limites, e assim explorar de maneira consciente o potencial literário.

A falta de profundidade na produção, na maioria dos casos, corresponde com a imaturidade na vida, como visto nas linhas acima.

Uma segunda versão do esboço:

"TRANSEUNTE DE ÉPOCAS"

Drummond, meu caro Drummond,
como queria ser teu contemporâneo
Dizer algum mágico som,
ir transeunte pelo tempo, instantâneo.

Nasci à época errada, vê só!
Drummond, aí do céu, observe o riso
do anjo torto que me deu o nó
Largou-me nesse emaranhado guizo

e a cada choro meu contenta-se
mais e mais. Anjo sarcástico
brinca de tirar-me a paz, esse
louco alado sádico fantástico

Jogou-me a uma era de desapegos,
ninguém mais enxerga a beleza da poesia
Arrastando-se em seus dias trôpegos,
Recrudescendo-se míseras agonias

Carlinho, poesia não tem mais espaço
vai enxuta, abarrotada à rede social
Vou sozinho fazendo alguns traços
para sentir-me menos mal...

A construção desta versão nasce após adquirida certa experiência empírica através da leitura e atividade contínua de escrita. Apesar do distanciamento, a falta de qualidade estética permanece evidente.

Uma terceira versão, a mais recente, então foi produzida:

"CAUSA E EFEITO"

Drummond, dileto Drummond,
quisera eu ser teu nobre
contemporâneo, e ouvir o som,
os versos qu'alma encobre

direto de vossos lábios.
Observe aí do céu o riso
do arcanjo bancando sábio
disparando-me teu guizo.

Astucioso, em cada choro,
risonho arcanjo mordaz,
repete por desaforo:
Nunquinha será capaz,

poeta de merda, desista!
– Nutra-me, mestre Drummond,
com versos, malabarista,
motor de todo frisson.

Esta última vem da ininterrupta inquietação, sensação de faltar algo. Viver insatisfeito, buscando novos caminhos, novos processos. Do estudo diário. A famigerada, nem sempre assimilada, transpiração. Ainda longe de ser definitiva.

"Ser poeta é uma responsabilidade comparada à medicina, o poeta remexe no centro de emoções fortes, corta com precisão a carne mais dura. Não dá pra acordar e ser poeta, é preciso alento, compreensão, leitura. Muita leitura. Leitura grande e pesada, de Homero a Rilke, de Gregório de Matos a Hilda Hilst. Poesia não tem moral, não tem desfecho, nem mensagem precisa ter. Precisa ser."
                             (Trecho do texto 'Então você escreve poesias?
                             Foda-se, você não é especial' - Valter Nascimento)

Ou seja, nada divino. Distante dos holofotes e aplausos. Poeta mora na sarjeta.
Lusca Luiz
Enviado por Lusca Luiz em 11/07/2018
Reeditado em 11/07/2018
Código do texto: T6387605
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lusca Luiz
Guararema - São Paulo - Brasil, 27 anos
91 textos (1500 leituras)
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Lusca Luiz