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                                 O CRISTO DESILUDIDO


 
 
 
Cordeirinho inocente
Nessa cruz sobre o altar, 
Quem fez de ti o presente
Que é preciso entregar
Á uma divindade incoerente?
Ela nunca ficará saciada
Do teu sangue corrente?
 
Por que Ela terá deixado
Que sua obra se perdesse
Nas mãos de um renegado
Como se poder não tivesse
Para evitar tal resultado?
E depois quis consertar tudo
Fazendo de ti o Sacrificado? 
 
Cordeirinho, não estranhas
Essa filosofia tão grosseira
Que exige tuas banhas
A queimar numa fogueira
Para garantir novo começo?
Quem te disse que eu queria
Ser resgatado a esse preço?
 
Cordeiro do sacrifício
E se não fosse a Divindade
Que te deu esse ofício
De morrer pela humanidade?
Não é Ela a Grande Luz?
Por que havia de querer-te
Pendurado nessa cruz?

Cordeirinho inocente,
Perdoa minha heresia,
Mas desde antigamente
Já não houve quem vendia
Teu sangue nos mercados?
Não é de hoje que tua vida
Vem pagando meus pecados!
 
Cordeirinho inocente
Homem sem mácula e sem vício,
Se eu não fosse tão descrente
Agradeceria teu sacrifício.
Mas quem defende tais postulados
São os mesmos que te vendem
Nas praças dos mercados.
 
Cordeirinho inocente
Ao ver teu corpo exangue
Como crer nessa gente
Que tira lucro do teu sangue?
Eles fizeram de ti mero produto 
Que é vendido a alto preço

E sem pagar nenhum tributo.
 
Cordeirinho inocente
Ao te ver tão mutilado
Penso na dor que ora sentes
Por estares assim sendo usado.
Se falasses, dirias certamente:
− Hei! Vamos acabar com esse babado:
Já cansei de ser a teta dessa gente!

Esse texto me foi inspirado por William Blake, poeta iconoclasta do século XVIII. Lembrei-me dele quado passeava pelas ruas de Itaguai, cidade portuária da orla marítima fluminense, que visitei recentemente. É uma cidade dominada pelo crime organizado, como de resto todo o Rio de Janeiro. Não pude deixar de notar que a única atividade que prospera lá são “templos evangélicos” com estranhas denominações. Logo me veio à mente o episódio do Sérgio Cabral e das regalias que ele tinha na prisão, fornecidas justamente pelos "evangélicos". E depois me lembrei que a maior bancada evangélica do Congresso Nacional vem justamente do Rio do Janeiro. Liguei esse pensamento com outra informação; a de que as melhores “lavanderias” de dinheiro sujo, hoje em dia, são os postos de gasolina, os clubes de futebol, as "bocas" de venda de carros usados e os “templos” evangélicos. Estes últimos, aliás, são as mais eficientes, pois além da forte atração que exercem sobre a população carente e desinformada, são protegidos pela Constituição, que proíbe cobrar tributos dos “templos de qualquer culto”. Com isso tudo não pude deixar de concluir que, se o Rio de Janeiro está do jeito que está, não é por mera coincidência. Tudo se encaixa e se justifica.Também me lembrei de uma frase do papa Bento VI, que cumpriu um breve papado entre 973 e 974: “Nada nos serve melhor que esse mito do Cristo”.
Concluí que se Jesus voltasse hoje e visse o que fizeram da doutrina que ele ensinou, ele mesmo se mataria. Mas desta vez de pura desilusão.
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 18/01/2018
Reeditado em 27/01/2018
Código do texto: T6230020
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
João Anatalino
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