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*Nosso dever ético com a civilização*


“Atiramos o passado ao abismo,
mas não nos inclinamos o suficiente
para ver se ele está bem morto.”
Shakespeare

Nunca na História desse país tivemos um pleito tão polarizado. Se por um lado o brasileiro passou a se interessar mais por política, as discussões ultrapassaram o plano econômico e cultural, passando a enveredar por assuntos dos mais variados, de educação a aborto a respeito as minorias e outros mais. Por analogia quase atingimos os feitos de Ruanda 1994. Amizades e laços familiares foram cortados em detrimento de divergência de opiniões. Que a eleição de Bolsonaro é praticamente certa, não resta dúvida, só o tempo dirá se o povo fez a escolha certa ao escolher o soldadinho.

Uma série de campanhas difamatórias acabou por modificar a opinião pública nacional contra um partido da esquerda liberal e moderada, um partido que, como qualquer outro desde a Nova República fez o jogo do capitalismo. O que aconteceu do momento em que Obama chamou Lula de “O cara!” ao momento de sua prisão política? Uma crise estrutural do capitalismo mundial, que abateu todos os países desenvolvidos, mas que a direita colocou na conta do PT por motivos políticos de dominação e altos ganhos de capital transnacional (aquele que se beneficia das riquezas brasileiras mas não se instala aqui e nem garante um projeto civilizador). O que aconteceu com o único partido desde o fim da ditadura que permitiu autonomia investigativa de corrupção à Polícia Federal? Foi tratado como o partido mais corrupto da história nacional, e ainda que existam casos de corrupção dentro do partido, o ranking dos políticos cassados por corrupção após comprovação e processo tem o PT e suas coligações com 2,4%, enquanto os coligados ao partido de Bolsonaro somam-se 37% (PSL, PP, PRTB e PTC. Pode-se dizer, então, que Bolsonaro, ladrão de bancos, como se vê no dossiê da Revista Veja, é cerca de 15 vezes mais corrupto que todo o PT. Em termos de rombos nas contas públicas, a corrupção que vem desde a ditadura pelo partido Arena e segue via malufismo é de incalculável medida. E sabemos que a direita fora anistiada inúmeras vezes dos processos de corrupção, senão vejamos o colossal desvio do metrô de São Paulo com provas documentadas e confissões de Alston, em torno de um bilhão de reais, engavetado pelo mesmo aparelho jurídico que indiciou, julgou e prendeu com o processo em andamento um ex-presidente por um apartamento no Guarujá sem provas). Se não bastasse isso tudo, Bolsonaro é o nome da mais velha política possível, está há 28 anos como deputado federal no partido do Maluf.

Ora, se Bolsonaro é a consubstanciação da velha política e é comprovadamente mais corrupto que o PT, se o cara casou várias vezes e deve pensão à esposa, por qual motivo o povo brasileiro decidiu votar contra o PT, o tradicional partido popular e acreditar na salvação Bolsonaro? A resposta começa em 2013, com o encampamento das lutas sociais e a desmobilização estudantil da luta pelo Passe Livre, que serviu à direita para articular a derrubada da Dilma três anos depois, num julgamento em que não se analisou o crime de responsabilidade, mas uma posição ideológica – vide que Bolsonaro não votou tecnicamente sobre uma questão jurídica, mas de acordo com sua posição ideológica e em nome do torturador Brilhante Ustra, famoso ocultador de cadáveres. Mas a resposta para este fenômeno mais imediato está noutro ponto: a alta de Bolsonaro coincide perfeitamente com o roubo de dados de Facebook e Google, chamado de método _Cambridge Analytica_ (uma empresa privada de Steve Bannon que influencia eletronicamente e em massa as eleições mundiais, como fora o caso de Trump nos Estados Unidos e o Brexit no Reino Unido). Somando isso com o descrédito da população na via política, o velhíssimo com cara de “novo” pode parecer a solução mágica de ocasião. Fez-se crer numa rede conspiratória, fez-se botar em descrédito os meios de comunicação consagrados e criou-se a alegoria mirabolante que até a Rede Globo é comunista conspiradora, que seus professores de história são doutrinadores, que existe uma ideologia de gênero. Chegou-se ao absurdo de uma apoiadora do Bolsonaro atacar a bandeira do Japão porque era “vermelha, comunista, vão para Cuba!”. E tudo que parecia uma grande piada ganhou uma força de massas e se descontrolou dos próprios magos articuladores. O antigo fomentador do ódio ao popular, o PSDB, se viu destroçado no meio de sua insignificância em dar a base sustentatória à nova e violenta direita. Ou como diria Marx, o feiticeiro fora incapaz de controlar os poderes ocultos que desencadeou com suas fórmulas mágicas.

O Brasil tem e sempre teve uma direita que jamais cumpriu seu papel histórico democrático que cumprira as burguesias europeias no século 19. O resultado disso é que a história do Brasil se consolida por meio de golpes e violência sangrenta numa autocracia bonapartista: do genocídio indígena e usurpação de terras à escravidão de africanos, chegando ao extermínio violento das oposições na ditadura militar e um artificial ódio ao popular. Ódio ao pobre que pode pegar avião. Ódio ao pobre que pode ter metrô no extremo das periferias e pode ocupar o espaço do centro com suas roupas feias e seus modos rudes. Ódio à empregada doméstica que agora pode ter carteira assinada e férias. Ódio ao nordestino, ao corintiano, ao pobre, ao preto. O problema é que esse ódio ao popular agora, devido às campanhas de lavagem cerebral, é popular. Ou seja, o odiado se odeia também, odeia o que ele representa, e não faz nada para quebrar as estruturas da sua miséria, mas faz para aniquilar a si próprio socialmente. E em vez de tal contradição gerar uma revolta, o próprio pobre, a própria empregada doméstica, o desempregado, o morador da favela, a negra do candomblé... todos estes abraçaram os preconceitos vis da burguesia brasileira e vão votar contra si próprios, numa eleição comandada pela mentira das _fake news_, pelo ódio ao projeto civilizador, pelo ódio aos mínimos e dignos direitos humanos. Uma campanha que fala abertamente em expansão do latifúndio nem que para isso execute os índios como animais num abatedouro. Junto aos índios, o fim do projeto de defesa do meio ambiente. Uma campanha que já matou a Marielle e é a mais violenta de todas as eleições até hoje.

Mas o que significa o Projeto Bolsonaro? Significa o avançar do capital transnacional em detrimento do capital nacional. Significa achatar o valor básico da mão-de-obra nacional para que o capital transnacional tenha espaço acumulativo ainda maior neste momento de crise estrutural. E isso impactará diretamente no modo de vida do conjunto do povo brasileiro, além do que afundará o país na crise ainda mais (e o Bolsonaro hoje acaba de dizer que não livrará o Brasil da crise porque o PT afundou o país, e este será o discurso tão manipulador que o povo ainda culpará o PT pela morte do projeto civilizador).

O projeto do Bolsonaro dá aval para milícias cometerem violências, ele incentiva a violência abertamente, disse que vai torturar e executar opositores. Não será uma surpresa se logo no primeiro mês Bolsonaro colocar os professores de história, os políticos opositores e os lutadores da democracia e direitos humanos na mais absurda clandestinidade, com prisões, torturas, mortes, desestruturação de famílias e ocultação de cadáveres. De todo modo, atualmente se vende 6 armas de fogo por hora no Brasil, e as milícias estão autorizadas a cometerem atrocidades e terrorismo pelas ruas. O passeio de domingo na Paulista pode ser de terrorismo e o país pode virar uma Ruanda de 1994. A política de Bolsonaro poderá colocar como inimigo público aquele intelectual que diz o contrário, como o Decreto de 15 de outubro, Decreto 9.527/18, de Temer, já antecipa: autoriza o exército a combater o inimigo interno. Quem é este inimigo interno? A história vem mostrando que os inimigos são os opositores políticos, os defensores da universidade pública e do conhecimento científico livre e universal. A liberdade de opinião agora será crime passível de prisão, segundo tal decreto com o PL5065/16. Fora isso, a própria política teocrática de Bolsonaro poderá levar o homossexual à castração química. A comunidade LGBT será vilipendiada e até assassinada nas ruas. Os negros serão ainda mais massacrados, como se não bastasse todo o massacre cotidiano. As mulheres não terão salários iguais aos dos homens mesmo fazendo as mesmíssimas tarefas, por exemplo, porque o ato lindo de portar no ventre uma vida agora é um castigo digno de punição.

E o cidadão comum, que não faz oposição política? Pois bem, com o impacto econômico do fim do SUS e das privatizações, de não ter mais médicos públicos, piorando a longo prazo na prevenção de doenças, sendo oneroso para a comunidade social como um todo. E os convênios? Com a lei da oferta e da procura, não darão conta do contingente de imediato de pessoas que procurarão, e o filtro será plutocrático, ou seja, aumentará estratosfericamente as mensalidades e quem tem convênio agora não poderá mais ter, exceto se for muito rico, e não contará mais com médicos do SUS. O mesmo processo acontecerá com a escola pública. Sem escola pública, sem universidade pública, a massa trabalhadora não terá acesso à educação, e seu filho da escola particular não terá para onde ir quando aumentar o valor da mensalidade do colégio particular, afinal, seu salário será achatado e a lei da oferta e da procura aumentará o valor da mensalidade. É um governo para bem poucos, não acha? O reflexo disso se sentirá ao longo dos anos com o fim da política de ciência e tecnologia. A nossa pesquisa científica estará prejudicada a tal ponto que será desmantelada em poucos anos.

Será uma catástrofe geral, porque junto à flexibilização das leis trabalhistas e ao achatamento do modo de vida das pessoas como um todo, com diminuição do salário e do trabalho formal, também terá a Reforma da Previdência, que excluirá a aposentadoria de muitos trabalhadores e excluirá a mulher da pensão caso o homem venha a falecer. E o que fazer? Sem aposentadoria e sem SUS na velhice?

Neste domingo, dia 28, temos *o dever ético* de evitar a catástrofe social. Temos um dever ético com o projeto de Haddad, porque isso significa nosso processo civilizatório. Haddad não é comunista, nem mesmo é de esquerda. Mas ele tem um projeto verdadeiro, uma preocupação genuína com o Brasil. Quando você não acerta as contas com a história, a história te cobra no futuro. Bolsonaro simboliza a morte violenta daqueles que amamos. Temos um dever ético com a vida. É isso que nos torna humanistas
nestorfelini
Enviado por nestorfelini em 27/10/2018
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Sobre o autor
nestorfelini
Santo André - São Paulo - Brasil, 69 anos
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