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Nós e As Manifestações no Chile

Torço para estar enganado, o Chile pode ser nós amanhã, pelo lado ruim, da explosão de manifestações destrutivas. Mas, pode nos ensinar muito, quer seja bom ou ruim o desfecho do que ocorre lá. E a melhor maneira de aprender é com os erros dos outros, bem menos doloroso do que com os nossos.

Primeiro, algumas informações sobre o país. A vida dos chilenos é muito melhor do que a da maioria dos brasileiros, mais de 60% da população estão na classe média, tem emprego, onde morar e educação pública. Há pobres, muito menos do que aqui, tal qual miséria e favelas. A desigualdade é menor, o PIB per capita é de país desenvolvido, vem de anos de crescimento da economia. Há alternância democrática e o país teve nos últimos anos 8 de governo da socialista Michele Bachelet e 6 de direita do atual presidente Sebastian Piñera, intercalados, o que significa que não é o esgotamento de um tipo de política.

Por que então as manifestações? A gota que transbordou o barril foram os aumentos do metrô, entretanto, a maioria dos analistas aponta que é o fato de que nos últimos anos o custo de vida subiu mais do que os salários, ou seja, a vida da população está piorando, e as pessoas desejam mudanças, querem se sentir progredindo.

É evidente que a violência das manifestações é um erro. O magnífico metrô de Santiago teve mais de 80 de suas 135 estações depredadas, sendo 20 delas totalmente destruídas. Os três milhões de chilenos que usam o metrô diariamente já estão com sua vida piorada, com dificuldade para se movimentarem e a reconstrução levará meses. Ainda que o governo banque toda a reforma, pois o metrô é estatal, é dinheiro público que poderia ser usado em saúde, educação e segurança que será usado. É fácil destruir obras, em poucas horas trabalhos de mais de 30 anos ruíram. Construir é difícil e custoso e, no final, sempre é a população que paga.

A melhor forma de aprender é ver os erros dos outros. Nossos vizinhos ignoraram ou não souberam resolver os problemas de sua população, estão enfrentando agora as conseqüências. Tudo indica que caminhamos no mesmo rumo, e que as explosões que ocorrem no Chile, no Equador, no Peru e na Argentina podem ser nosso futuro amanhã.

No Brasil, temos uma desigualdade muito maior do que no Chile e nossa população é na maioria pobre, muito longe da classe média. É muito mais difícil resolver os problemas de uma população de mais de 200 milhões do que os de uma de 17 milhões, no entanto, nada mudou em 30 anos em nossa desigualdade, que nos causa muito mais prejuízos.

Já temos uma guerra não declarada que leva mais de 60 mil pessoas por ano a morrerem devido à violência. Pelo lado econômico, há anos crescemos menos do que o mundo e nada indica que sairemos da estagnação. Se não fizermos algo para reduzir desigualdades, continuaremos assim e podemos piorar, pode haver aqui o mesmo tipo de violência social, basta o governo continuar alheio aos problemas da população.

A única forma de reduzir desigualdade é pela Reforma Tributária e pela melhoria do gasto público. Não há como um país ser desenvolvido com 5% da população concentrando 95% da renda. Todavia, as propostas de reforma tributária que estão no Congresso em nada melhorarão os rendimentos dos assalariados, todas elas apenas simplificam o pagamento de tributos pelas empresas, o que é bom, só que não impactam o ganho das pessoas.

É possível mudar a direção e melhorar muito a vida da população. Se quiser saber a respeito, leia minha série de artigos “A REFORMA TRIBUTÁRIA POSSÍVEL E NECESSÁRIA”. O assunto é difícil, porém, vale a pena se informar, é simplesmente a sua vida e de seus filhos que será decidida pela tributação.

Voltando ao assunto do título, é muito importante acompanhar o que acontece no Chile e não acreditar em bobagens. É mentirosa a teoria bolsonarista de que há uma tentativa de revolução comunista no Chile, há dois anos a maioria da população elegeu um governo de direita, o que há é que este governo está ignorando o que o povo pede. Também é falsa a versão da esquerda de que os problemas do Chile decorrem do neoliberalismo. Houve dois governos socialistas no país, 8 dos últimos 14 anos, e não foram capazes de mudar a questão, tanto que não ganharam as últimas eleições. Há culpa de ambos os lados na crise, mais importante do que buscar culpados é encontrar soluções.

Não importa se o governo é de direita ou de esquerda, o desenvolvimento vem se a maioria da população ganha e o país cresce. Se não há crescimento, não há como pagar assistência aos mais pobres, se não há distribuição de renda, não há como as pessoas melhorarem de vida dependendo só do seu esforço.

Eu torço muito para o Chile resolver sua crise e se tornar em pouco tempo o primeiro país desenvolvido da América Latina. A solução para isso está no diálogo e na busca conjunta de soluções. Se for verdadeira a disposição do atual presidente de dialogar com todos partidos e, sobretudo, ouvir e atender as demandas da população, o país poderá sair mais forte desta situação. Se partir para o confronto e começar a matar manifestantes, pode haver uma guerra civil e anos de retrocesso. É mais fácil, efetivo e rápido um governo mudar do que mudar de governante.

Qualquer que seja o desfecho, temos de aprender com esta crise. Aumentar a desigualdade e ignorar as necessidades da população é o caminho certo para o desastre. O desenvolvimento é resultado da maioria do país rumando numa mesma direção, pouco importa se um pouco mais à direita ou à esquerda.

Em época de eleições, até faz sentido defender um lado, com menos de um ano de governo e a três anos do próximo pleito, o mais inteligente é fazer o governo que aí está melhorar. Se quer vencer um adversário, não o odeie, prove que é melhor que ele. Se o governo atual quer se reeleger, melhore a vida da população. Se outro grupo quer chegar ao poder, mostre propostas melhores do que está aí.

Vamos observar muito o que ocorre no Chile. Para bem, ou para mal, pode ocorrer aqui amanhã.
Paulo Gussoni
Enviado por Paulo Gussoni em 22/10/2019
Reeditado em 27/10/2019
Código do texto: T6776469
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Gussoni
Santana de Parnaíba - São Paulo - Brasil
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