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OS EXEMPLOS AMERICANOS

Impossível não se chocar com a invasão do Congresso americano por fanáticos trumpistas. Poucas vezes viu-se tal concentração de malucos num país desenvolvido, nem tanta incompetência da polícia americana em lidar com a situação. Isso foi certamente um exemplo muito ruim para o mundo, não são admissíveis tantos excessos numa manifestação, isso não é democracia, é um atentado à ordem pública, uma tentativa de golpe. Por um dia, os Estados Unidos pareceram uma república de bananas.

Dito isto, é preciso reconhecer a resiliência das instituições americanas. Todo este barulho adiou apenas por horas a confirmação da eleição. Durante seus quatro anos no poder, Trump tentou de tudo para sobrepor-se às regras e fazer o que bem entendesse. Quis deportar milhões de latinos, construir um muro entre EUA e México, saiu do Acordo de Paris, da OMS, da Parceria do Pacífico, repactuou o NAFTA e abandonou o acordo de desnuclearização do Irã. Mudou a composição da Suprema Corte, teve amplo domínio do Senado e forte apoio popular. Ainda assim, não conseguiu em nada suplantar os limites dos poderes que a constituição americana lhe dava. As instituições foram tensionadas, mas resistiram e o país manteve a normalidade.

Ainda é possível que nos poucos dias que restam de mandato tente dar mais declarações estapafúrdias, e há fanáticos trumpistas e colegas escritores recantistas que acreditam que ele tomará o poder à força antes da posse de Biden. Não creio nisso, o mais provável é que se controle, para poder tentar concorrer a mais um mandato em 2024.

O saldo provável é que em poucos anos, a nova administração consiga reverter muitos dos males causados pelo ex-presidente, retomar ações contra poluição, melhorar o combate à pandemia, investir em saúde para os americanos. Já dizia Gandhi “houve tiranos e assassinos e, por um tempo, pareciam invencíveis, mas, no final, sempre caíram”. As instituições americanas foram muito bons exemplos, Trump não conseguiu ter o que queria nem com milhões de eleitores apoiando-o. Ele tem muito menos poder do que acha ter.

Fica a dúvida se Bolsonaro poderia ter sucesso ao tentar o mesmo aqui. A resposta é que se os militares apoiassem, sim, mais mesmo pela força das armas. Entretanto, se as Forças Armadas quisessem o poder, bastaria obrigar o capitão a renunciar e o general Mourão seria presidente (particularmente, acho o único exemplo de golpe saudável que posso imaginar, muito melhor do que um processo de impeachment).

Acho, porém, que as instituições brasileiras vêm enfrentando razoavelmente bem nosso Trump Tabajara, principalmente o Congresso e o Poder Judiciário. O primeiro deixou de escanteio os projetos de liberação do porte de armas em larga escala e o fim do excludente de ilicitude, amainou o projeto de Reforma da Previdência, impediu a volta da CPMF e o Escola Sem Partido, das poucas propostas de um presidente sem ideia de país. O Poder Judiciário impediu que ele pudesse interferir nas medidas dos estados e municípios contra a pandemia, o confisco de seringas e vacinas de São Paulo e as várias tentativas de bloquear as investigações sobre seus filhos.

Nada garante que nos livraremos de Bolsonaro, ele pode vencer as eleições de 2022, se fizer isso nas regras democráticas, deve ser aceito. Creio, porém, que a exemplo do que ocorreu nos EUA, Bolsonaro não conseguiria dar um golpe, mesmo nossas frágeis instituições conseguiriam contê-lo. Espero sinceramente não ter de ver na prática se estou certo ou errado.
Paulo Gussoni
Enviado por Paulo Gussoni em 09/01/2021
Código do texto: T7155729
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Sobre o autor
Paulo Gussoni
Santana de Parnaíba - São Paulo - Brasil
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