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O LADO PERIGOSO DA RELIGIÃO. POR QUE HÁ PESSOAS QUE CAUSAM MAL ÀS OUTRAS EM NOME DA FÉ?

Pela fé, religiosos construíram hospitais, tiraram doentes e pobres das ruas, deram-lhes comida e agasalho. Pela mesma fé, milhões de pessoas foram assassinadas durante as Cruzadas, as Guerras Santas e a Santa Inquisição. Em regiões do planeta onde a lei religiosa é mais presente, pais mutilam órgãos genitais de meninas para que elas não sintam prazer e não se tornem prostitutas, como são chamadas as mulheres que fazem sexo antes de casar; mulheres são obrigadas a andar cobertas da cabeça aos pés, mesmo sob sol de 40º; as acusadas de adultério são mortas a pedradas; casais de namorados que fazem sexo antes de casar recebem chicotadas em público. Tudo em nome de Deus. Ou aquilo que se imagina ser Deus.

Existem autores que, baseados em todos os problemas que a religião traz desejam que ela seja extinta. Dizem que um mundo sem Deus e religião seria mais justo e melhor. Dão exemplos de países europeus, que em todas as pesquisas aparecem na lista dos países mais felizes do mundo. E as causas dessa felicidade segundo eles são: menor influência da religião na vida das pessoas e governos comprometidos com ideias seculares e humanistas, que privilegiam a ciência e uso da razão, por isso nesses países há maior respeito aos direitos humanos, à liberdade de pensamento, coisas que em países muito religiosos não costuma ter.

Eu não concordo totalmente com esses autores. Eles estão olhando apenas o lado negativo da religião. Estou convicto que ela tem um papel importante na contribuição por um mundo melhor. Quando ela se atém a assuntos espirituais, ela é quase imbatível. A fé religiosa tem poder de consolar um pai que perdeu um filho, de dar esperança por dias melhores, de transformar um homem rude num pai e marido melhor e mais afetuoso, de tirar jovens viciados das ruas, de congregar pessoas em trabalhos sociais, etc. Alguém pode objetar dizendo que tudo isso a Ciência e um governo eficiente também conseguem fazer. Concordo, mas convenhamos, os psicoterapeutas ainda são caros para a maioria da população, e o governo tem deixado a desejar no trabalho de combate às drogas e à pobreza.

Devo dizer já de início, que não pretendo discutir a existência de Deus. Deixo essa questão para os teólogos, cientistas e você leitor. O que quero discutir e entender é porque algumas pessoas causaram e ainda causam mal às outras em nome da crença. Deus não é bom e misericordioso, não é assim que imaginamos Deus? Então, como é possível que alguém faça maldades em nome dele?

A resposta está em livros chamados sagrados. Isto é, livros que segundo a crença, revelam o que Deus quer da humanidade. Existem vários livros importantes considerados sagrados: a Tanac dos judeus, a Bíblia dos cristãos, o código de Manu e os Vedas dos hindus, e o Corão dos muçulmanos.

 Nesse artigo vou me ater à Bíblia cristã por três razões: é o livro da maior religião em número de adeptos no mundo, estamos no lado ocidental, dominado pela cristandade, e por ser a religião que mais influencia nosso modo de pensar e de viver.


Por que escrevi esse artigo?

Dois motivos:

Um. Trazer um conhecimento que não chega a maioria das pessoas, porque não é ensinado em casa, na escola, e muito menos na igreja.

Segundo motivo. Mostrar às pessoas que a Bíblia é um livro humano, sem inspiração de Deus. Isso, os acadêmicos que estudam religião, os cientistas, os filósofos já sabem, mas o grande público ainda vê a Bíblia como um livro ordenado por Deus. Somente se a maioria entender que a Bíblia é um livro humano, criado de acordo com o conhecimento disponível na época, onde ainda não se discutia direitos humanos, liberdade de expressão, poderemos eliminar o sofrimento causado a milhões de pessoas inocentes por causa da fé religiosa.

E quem são essas pessoas? As principais vítimas da religião são as crianças, as mulheres, os homossexuais, os ateus, agnósticos e livre-pensadores. Vou fazer um breve resumo do que o ensinamento cristão tem trazido a essas pessoas:

Crianças. As catequeses e aulas dominicais ensinam nossas crianças a não questionar. Isso a meu ver é um grande erro. As crianças aprendem a acreditar em mitos (Adão e Eva, pecado original, dilúvio universal, mar sendo aberto ao meio, sol parando no meio do céu por algumas horas, etc.) como se fossem fatos históricos. A moral sexual cristã tem, segundo os especialistas, trazido sérios danos ao psiquismo das crianças, que se tornarão adultos cheios de problemas de relacionamentos. As maiores causas de problemas sexuais no casamento são devido às regras morais da igreja.

Nathaniel Branden, Ph.D. sabia disso quando disse: "Qualquer um que se engaja na prática de psicoterapia se confronta todo dia com a devastação forjada pelos ensinamentos da religião."

Mulheres. Em muitos lugares, a Igreja ainda tem poder de desencorajar a mulher em fazer uso de métodos contraceptivos. Como muitos homens não gostam de usar preservativos que o governo distribui, elas acabam fazendo filhos em série, contra sua vontade. A mulher ainda sofre preconceitos em sua vida sexual. Homem com várias conquistas amorosas é admirado, mulher é chamada com nomes pejorativos. Embora a lei permita o aborto em três casos: risco de vida para a mãe, estupro, e bebês anencéfalos, a igreja instrui as fiéis a não fazer aborto de forma nenhuma. E ameaça quem o fizer com o castigo no inferno. Será que os padres pensam no sofrimento psíquico dela para o resto da vida em ter que trazer à luz uma criança fruto de estupro? E seria imoral impedir o nascimento de um feto cujo cérebro ainda não está formado e não sente dor nem emoções? Seria o feto (expectativa de vida) que não tem consciência de si, mais importante do que a vida plena (da mulher)? Dizem que se os homens engravidassem, a lei a favor do aborto seria aprovada rapidamente.

Homossexuais. A maioria leva uma vida infeliz, reprimindo seus desejos, e escondendo sua orientação sexual. A culpa está em Levítico 20,13: Javé manda matar homossexuais. De acordo com especialistas, sempre que os sacerdotes hebreus queriam impedir um comportamento indesejado, diziam que a lei era de Deus. O real motivo era que a nação israelita precisava crescer, e relações homossexuais, óbvio, não geram descendentes.  Menos gente, menos braços para trabalhar e soldados para a guerra.

Ateus, agnósticos e livre-pensadores escondem sua descrença, dúvidas e opiniões com medo das retaliações dos religiosos. Por exemplo, um comerciante que declara ser ateu perderia grande parte da clientela, o artista venderia menos discos, o político não se elegeria. É que a religião incutiu na mente das pessoas que só pode ser bom quem crer. Errado. Bondade e honestidade não têm nada a ver com crer ou não crer em Deus, e sim com caráter.

Agora que vimos resumidamente como o ensinamento da igreja, quando se afasta dos ensinamentos espirituais, pode ser prejudicial ao ser humano, vamos à segunda parte:

Tentar provar que a Bíblia não é a palavra de Deus (isto é, Deus não inspirou os redatores da Bíblia dizendo o que deveriam escrever).

E é possível provar que ela não foi inspirada?

Sim. Através principalmente das pesquisas históricas, da arqueologia e da crítica textual, um campo de saber recente, criado em meados do século dezoito, quando filósofos, cientistas e livre-pensadores começaram a investigar as Escrituras. Eles descobriram que a narrativa de que Deus fala com alguns homens na terra para transmitir seu desejo não é original na Bíblia.

Em 2050 na cidade estado de Ur, na antiga Suméria, já havia um rei chamado Ur-Engur, para muitos historiadores, autor do Pai dos Códigos. Mas esse rei divulgou para o povo que o autor do código era Shamash, um deus importante naquelas terras.

Conteúdo do código: leis morais, civis, matrimoniais, políticas, etc.

No século 17 AC o rei Hamurabi, na antiga Babilônia, cria outro código, e mais uma vez afirma que o autor é um deus: o mesmo Shamash que já havia entre os sumérios. Como dizem os historiadores, a cultura nova sempre se apodera dos deuses e crenças da cultura antiga, modificando alguns detalhes.

Ano mil AC: o código de Manu foi criado para regular a vida dos hindus. E segundo dizem, o autor foi inspirado pelo deus hindu, Brama.

Você sabe por que esses reis legisladores sempre diziam que o código era assinado por um deus? Porque dava mais credibilidade. Claro que eles e seus assessores sabiam que era uma mentira, mas o povo sempre foi muito fácil de ser enganado.

Antes de virem com essa ideia de um deus orientar as leis, a ordem era mantida à força das armas, mas não dava muito certo. Aí começaram a divulgar leis, autorizadas por um deus.  Todos os códigos mostram os prêmios para quem seguir a lei e os castigos a quem desobedecer. Por exemplo, veja o que diz o Código de Hamurabi sobre o rei de país vizinho que não seguir a lei:

“Se este governante não tiver alta conta minhas palavras... que o grande Deus Anu, o pai dos deuses, quebre o cetro deste rei, e amaldiçoe seu destino.”...“Que Bel, o deus que fixou o destino...ordene uma rebelião que a mão deste monarca não possa controlar, que o vento derrube sua habitação, que ele passe anos no poder em lamentações, anos de escassez, anos de fome, escuridão sem luz, morte de olhos que tudo vêem venham ao encontro deste homem...”

E assim prossegue a rogação de pragas. Essa ideia de um deus que premia e castiga será copiada pelos redatores da Bíblia.

Em Deuteronômio 28,1 o narrador diz que Javé(Jeová), o deus bíblico, vai recompensar quem adorá-lo, mas aqueles que não observarem seus mandamentos serão feitos cativos pelos inimigos, sofrerão com úlceras e hemorroidas, perderão todos seus bens, e os maridos serão traídos por suas esposas que dormirão com outros homens. Percebem como a ideia é semelhante a do código de Hamurabi?

No Novo Testamento, o prêmio e o castigo ficam para depois da morte. Por que essa mudança? No AT Deus castigava aqui na terra, no NT, só depois da morte.

É que o AT foi escrito sem que os redatores tivessem influência das religiões gregas e do zoroastrismo, e eles ainda não tinham conceitos como céu e inferno presentes em sua teologia.

No NT, os redatores cristãos já estão familiarizados com essas doutrinas. Os gregos e persas acreditavam que os bons iam para o céu e os maus para o inferno. Os redatores cristãos copiaram a ideia e inventaram o céu e inferno cristão. Se na Grécia os que iam para o inferno eram os que não acreditavam nos deuses gregos, e na Pérsia, os que não acreditavam em Ahuramazda, no cristianismo, são os que não creem no deus cristão (Jesus). Estão percebendo como uma cultura influencia a outra, de onde o cristianismo tirou essa ideia de prêmio e castigo?

Mas talvez alguns ainda acreditem que a Bíblia é a palavra infalível de Deus e que ela é o melhor guia moral já escrito.

Será mesmo?

Segundo os críticos, a Bíblia tem mais ensinamentos nocivos e perigosos do que úteis e bons. E quem já a leu na íntegra, vai concordar com eles.
Os bons: amar o próximo, cuidar das viúvas e órfãos, tratar bem os estrangeiros, não matar, não roubar, não mentir, etc.
Os maus: o deus bíblico autoriza matar filhos rebeldes, mulheres que fazem sexo antes do casamento, homossexuais, espíritas, astrólogos, quem segue outro deus, e tem outra religião, etc.
O deus bíblico autoriza um pai a vender a própria filha como escrava, a bater nos escravos, a surrar os filhos com vara, ensina que a mulher deve ficar calada nas igrejas, não pode ensinar o marido, deve ser obediente ao marido.

Ora, poderia um deus bom e amoroso mandar o pai a matar o próprio filho ou vender a filha como escrava (que seria usada sexualmente pelo comprador)? Poderia um deus sábio e bom mandar matar moças apenas porque tiveram relação antes de casar? Poderia ser bom um deus que mandar matar um pai que acendeu uma fogueira para aquecer a comida para o filho faminto no sábado? (uma lei bíblica mandar matar quem trabalha ou acende fogo no sábado).

Você acreditaria em um deus que promete castigar crianças e grávidas porque o povo deixou de adorá-lo?
“Samaria vai pagar, pois revoltou-se contra o seu Deus: cairão sob a espada, suas crianças serão cortadas em pedaços e suas mulheres grávidas terão seus ventres rasgados.” (Oséias 14,1).
Se você está perplexo, saiba que isso é apenas uma pequena amostra de centenas de ensinamentos e leis que agridem a dignidade humana. Quem quiser comprovar, pode conferir alguns deles em:
Êxodo.
Pena de morte: filhos desobedientes 21,17; feiticeiras 22,18; quem trabalhar no sábado 31,15;
A favor da escravidão: 21,2;
Levítico.
Pena de morte Adúlteros 20,10; homossexuais 20,13.
Deuteronômio.
Pena de morte quem segue outro deus 17,2.
Mulher solteira que faz sexo 22,13. (homens estavam liberados).
Assassinato de homens mulheres e crianças que não seguem Javé 20,16.
Xenofobia: 7,3 o hebreu não podia casar com estrangeiras.

Vamos agora analisar um dogma da igreja que tem sido usado para evitar questionamentos de sua doutrina. O castigo no inferno.

O inferno também não é uma ideia original do cristianismo. Os sacerdotes mesopotâmicos já ensinavam que aqueles que não fizessem o que os deuses mandavam, iriam para um local de sofrimento eterno depois da morte. A doutrina do medo era a melhor forma de manter o povo dócil e obediente. É assim que os padres e pastores mantêm o povo obediente até hoje, sem questionar os dogmas religiosos. Além do quê, dava poder à classe sacerdotal, que enriquecia com presentes e tributos da população. Como acontece ainda hoje.

A igreja ensina que Deus enviou seu filho para nos salvar. Quem acreditar em Jesus e em suas palavras vai para o céu, quem não crer, inferno.
De onde o redator cristão tirou a ideia de que Deus envia o filho para nos salvar? Que nasce de uma virgem fecundada por Deus, que faz milagres, ressuscita mortos, ele mesmo ressuscita e sobe aos céus onde vai julgar e separar os bons dos maus? Essas ideias são originais? Não.
Em todas as culturas pré-bíblicas existem semideuses, homens que são frutos do relacionamento de uma divindade com uma mulher mortal. Chamam isso de mitos.

Eles, igual a Jesus, nascem de uma mortal fecundada por um deus: Krishna, Horus, Hercules, Dionísio, Perseu, Zoroastro...
Têm poderes sobrehumanos: Krishna, Baco, Hércules...
Ressuscitam mortos: Asclépio na Grécia...
Morrem e ressuscitam geralmente no terceiro dia: Mitra, Krishna, Osíris, Baco, Tamuz...
Sobem ao céu: Mitra, Osíris, Dionísio...
Vão julgar os bons e os maus: Osíris, Zeus, Ahuramazda...

Portanto, não é verdade que a Bíblia é a palavra de Deus nem que Deus enviou seu filho para nos salvar. Jesus para a maioria dos pesquisadores existiu de fato, mas a biografia dele que o eleva à categoria de um deus ou semideus, foi inventada. Por quê?

Se os primeiros cristãos não divulgassem para as comunidades pagãs que Jesus era filho de um deus, que fazia milagres, que morreu e ressuscitou, teriam poucas chances de convertê-los ao cristianismo. É que os pagãos já tinham muitos deuses entre eles. Os cristãos precisaram criar um deus maior que o deles, senão não teriam êxito em implantar a nova religião.

Talvez você possa se perguntar: se a Bíblia não é a palavra de Deus e se Jesus não é Deus, como vou me orientar daqui para frente, como saber o que é certo? O mundo não vai virar um caos?

O mundo já é um caos. E muito dos problemas no mundo tem como responsável a religião e as ideias advindas da Bíblia. Como já falei, as pesquisas mostram que nos países com menos influência da religião extremista, as pessoas são mais felizes, pois há mais liberdade individual e respeito aos direitos humanos.

Há uma frase interessante:
Steven Wineburg:
“A religião é um insulto à dignidade humana, sem ela, teríamos pessoas boas fazendo coisas boas, e pessoas más fazendo coisas más. Mas, para pessoas boas fazerem coisas más é necessário a religião.”
Eu não concordo inteiramente com ela. Acredito que a religião tem um lado bom como já falei antes e não se pode rejeitar essa verdade.
O problema da religião começa quando ela invade os campos da política e da vida pessoal, aí ela costuma trazer problemas, e até os bons podem cometer injustiças e maldades.

Enfim, se você quer saber o que é certo e errado, consulte sua consciência. Entenda que se passar dos limites, Deus não vai castigá-lo, para tanto, existem as leis escritas por homens sábios que estudaram longos anos em faculdades antes de as estabelecerem, e se você as desobedecer, será devidamente punido, não no além, porque o inferno é uma invenção para controlar e manter a ordem, mas aqui na Terra, em prisões reservadas aos infratores. E mesmo sabendo que elas contenham falhas, são muito melhores que leis machistas e cruéis que pululam as escrituras bíblicas.

O que aconteceria se a maioria das pessoas compreendesse que a Bíblia é uma obra humana, sem auxílio de Deus? Teremos que começar a fazer uso de nossa inteligência para melhoramos o mundo. E quando isso acontece, geralmente os resultados são bons.

A partir desse dia, nenhum religioso poderá mais usar a Bíblia para dizer como devemos viver, como devemos fazer amor, quando e com quem fazer amor. Ninguém mais será julgado pela crença religiosa, pela orientação sexual, por fazer sexo antes de casar, pelo tamanho do cabelo, pelo comprimento da saia, mas pelo caráter, pelas ideias e pelas atitudes.
Fernando Bastos
Enviado por Fernando Bastos em 14/08/2014
Reeditado em 28/08/2014
Código do texto: T4921909
Classificação de conteúdo: seguro


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