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A arte da lembrança em Brumadinho (MG)

Lúcio Alves de Barros*
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O latrocínio ocorrido em Brumadinho, no dia 25 de janeiro, do corrente ano, não deve jamais ser esquecido. Em um país sem memória onde a história é a dos vencedores, é bom lembrar que no dia já citado, uma grande barragem da Vale, na Mina Córrego do Feijão, se rompeu. Ela matou centenas de pessoas e muitos até hoje estão desaparecidos. Como se não bastasse, dias depois, ficamos sabendo que a sirenes não tocaram, que engenheiros sabiam dos problemas da barragem, que muitas imagens a Vale escondeu por dias e que a lama, tóxica, mataria o Rio Paraopeba. Uma vergonha para o mundo. Uma vergonha no Brasil onde autoridades não tem o mínimo de vergonha na cara, dado que sabemos que a mineradora anda pagando doações e jogando na mídia notícias e alarmes de terror em cidades onde tem mineração. Em Brumadinho, ela segue negociando até com os moradores. Para isso, organizou um cronograma de pagamento das indenizações para as vítimas e ofereceu o “pagamento de 1 salário mínimo mensal para cada adulto, 1/2 (meio) salário mínimo mensal para cada adolescente e 1/4 (um quarto) de salário mínimo para cada criança pelo prazo de um ano”. Para muitos, o dinheiro diminuiu a tristeza e reanimou a economia da cidade. Os moradores mais desconfiados, seguem enlutados e, certamente, o sofrimento impede ações racionais. O que causa desconfiança e mal estar é saber que “o que poderia não ter acontecido... aconteceu” e o esquecimento parece ser o óleo da grande máquina de marketing da Vale que atua fornecendo “assistência”, negociando com o Estado, e fazendo pouco caso de muitas vidas. Nesse sentido, devido às poucas linhas disponíveis, aponto para três fatos:
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O primeiro fato diz respeito a importância da lembrança. Ao não visitar a mídia cotidiana, tudo conspira para a fraca memória do povo. O terror vivido com a lama sequer acabou e algumas pessoas já utilizam do passado recente para conseguir alguma coisa agora. Apesar da morte de centenas, do bom montante ainda desaparecido, existem pessoas capazes de apostar na “vida que segue”. Sim, ela pode seguir, mas com acompanhamento afetuoso da lembrança. Refazer a vida depois de tanta brutalidade é muito difícil, senão impossível. Lembrar da voz, da roupa deixada no varal, do intenso barulho de máquinas, da criança brincando, da criação com saúde, da linda pousada, da horta do vizinho, da ponte e de tudo aquilo que a lama foi capaz de carregar sem medo e dor, é necessário e bom para a cura da alma. O tempo pode ser o melhor amigo e inimigo da gente. O começo e o fim de “tudo aquilo que não era para ter acontecido” produziu medo, raiva, indignação e depois tristeza, luto e aceitação. Também forjou corpos, destruiu casamentos, órfãos e moradores sem casa e trabalhadores (as) sem trabalho. A violência de como tudo foi retirado entorta a vara da vida da necessidade do esquecimento (terreno fértil para os culpados e dos que não suportam a dor). Mas a coragem na luta, a reivindicação do direito a ser garantido e a lembrança da pessoa que merece justiça empurra a vara para outro lado. Em luta de contrários, a síntese recai sobre a responsabilidade de cada um. Dividir pessoas, naturalizar o crime e pagar pela morte do outro é jogar mais barro na memória, matando significados, símbolos, relações de amizade e afeto.

O segundo fato repousa na certeza de que a Vale está fazendo de tudo para limpar o seu quintal e, para isso, não nega esforços para lavar sua roupa, tirar vestígios de tudo, não lembrar, deixar de falar, reverter narrativas, apagar lembranças e polir indignações e resistências. A empresa opera no sigilo, aposta no silêncio de muitos e testa a paciência para que a memória comece a se enganar e falhar. Para isso, ela impõe terror nas cidades que vivem da mineração, não deixando de lado o enredo das sirenes do medo, e do ato de entulhar as pessoas em escolas, hotéis e ginásios. Mais que isso, trabalha em equilíbrio forçado, “tudo conforme o combinado” e empurra para frente o resto do que a lama tem feito após o crime. Apesar da existência de relatórios e relatos de que a barragem estava para se romper naquele lugar, apesar de toda documentação existente estar contra a empresa, apesar da demissão do Diretor e prisão de funcionários, a empresa ainda paga de boa moça ao mostrar em rede nacional que está negociando e atendendo a comunidade atingida. Não se enganem, todo trabalho, todo dinheiro pago, toda grana que entra opera para dar visibilidade à empresa tanto em âmbito nacional e internacional, ao mesmo tempo em que promove no chão da cidade o esquecimento coletivo e individual. Os sepultamentos foram invisibilizados e o jogo do eterno recomeço apela para a diminuição da dor, inviabilizando ruídos, mobilizações, insatisfações e reinvindicações. O jogo é sério e vence quem tem os melhores e mais descansados jogadores.
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O terceiro e último fato aponta para a necessidade da construção de um memorial - um museu que seja -  para as vítimas do crime. Alguns falam que não é a hora. Outros afirmam que o governo federal vai liberar “um dinheiro”... Mas qual é a hora exata? Um memorial tem por função o aquecimento das lembranças dos acontecimentos e das ações individuais e coletivas das pessoas que se foram. Além de não poder esperar, é necessário dizer que ele ajuda na manutenção da memória coletiva, resignifica sentimentos, diminui a “culpa” e aponta para ressentimentos a tratar. A lembrança tem muita força; não é à toa que guardarmos fotos, roupas, coisas, presentes e tudo aquilo que possa trazer o que foi tirado sem nenhum direito ou permissão. É urgente construção do memorial. E que ele seja vigoroso, iluminado, repleto de imagens, utensílios e muitas fotos. É preciso que ele seja uma instituição de todos, cuja entrada seja franca e que faça frente ao desmando da mineradora que ainda vai operar no local. A cidade não deve esperar mais. A memória é fraca, muitas pessoas, por certo, acham que a perda merece ser representada, anunciada, amada e reconhecida. É claro que muitos vão discordar. Mas que tentem, não é obrigatória a participação. A ideia é a de unir dores, conscientizar sobre direitos, não deixar cair no esquecimento o que aconteceu naquele dia, naquele mês e naquele ano. Todos perdemos amigos e amigas. Muitos perderam tudo. A tristeza, o ressentimento e a revolta podem ajudar a apontar os culpados, mas também configuram relações de amizade, coragem, igualdade no cotidiano de luta contra a grande multinacional que ainda aterroriza muita gente.

Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 17/05/2019
Reeditado em 22/09/2019
Código do texto: T6649430
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros