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A importância do Passado em Brumadinho (MG)

É lamentável, mas necessário, voltar ao acontecimento ocorrido no Córrego do Feijão, em Brumadinho, no dia 25 de janeiro. Naquele dia, a Vale deixou um rastro de destruição, um saldo de mais de duas centenas de pessoas mortas e dezenas de desaparecidas. Assassinou um rio e acabou com a solidariedade que unia a cidade. A tragédia não sai de minha memória e, por certo ainda não deixa a vítima de fato dormir sossegada. No meio da lama, perdi amigos e ex-alunos; não raro, eles me tomam a memória como se vivos ainda estivessem. Imaginem um pai, uma mãe ou filhos. Se sinto uma espécie de dor na alma, não desejaria para o meu pior inimigo o que deve sentir a vítima indefesa frente ao capital nu e cru. E não é que ao invés de compaixão a pior descrição do sentimento acerca do crime de latrocínio veio do próprio Governador? Ele afirmou categoricamente que as mortes de homens, mulheres e crianças é coisa do passado e que o futuro deve ser observado:
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“Nós queremos que essa tragédia venha a agregar no futuro para o estado. Temos que lamentar as vítimas? Lógico. Mas, não podemos conviver com o passado, temos de estarmos olhando para o futuro. Queremos com isso que a economia de Minas venha se diversificar mais, a mineração sempre foi, continuará importante, mas outras atividades precisam surgir e dinamizar nossa economia” (Jornal Hora do Povo).
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Pelo amor de Deus! A narrativa só poderia vir de um arauto do setor privado que opera em favor do capital em detrimento dos “colaboradores” que vestiam a camisa da empresa. Trágico como o crime foi sua constatação como autoridade, posto que os bombeiros ainda não encontraram dezenas de corpos. Se existe a materialidade do crime, como dizer que o acontecimento faz parte do passado? A narrativa é inacreditável. Contudo, o governador não é o único em levar o acontecimento como acidente de “percurso institucional”. Ao longo da temporalidade (e não do tempo), nem as mobilizações das pessoas e das autoridades parecem ser as mesmas. A grande mídia já se esqueceu do crime e dos desaparecidos e, para piorar, a onda de compras de subjetividades anda à solta na cidade. Muitos já fizeram acordos, outros desejam é o salário mínimo oferecido pela mineradora e, apesar de alguns atos pequenos elogiando os bombeiros e lembrando dos desaparecidos, tudo leva a crer que a Vale conseguiu, inclusive com ajuda do Estado, sossegar os ânimos daqueles que perderam pessoas queridas.
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Provavelmente, se estivesse nas condições de muitas famílias atingidas, aceitaria na hora "o pagamento emergencial". No entanto, é inegável que o efeito em favor da mineradora foi imediato, silenciando vítimas e algozes. E tudo me parece óbvio: o pagamento de um ou 1/2 salário é “ganha pão”, um “suporte para aquecer a economia” da cidade, é um “ganhar tempo”. Assim, defensores da mineradora ganham espaço para negociar indenizações. O curioso é que basta morar em Brumadinho para a pessoa ter “o direito” de receber o salário.
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Os fatos lembram Milton Friedman (1912-2006), um economista “liberal conservador”, que dizia "não existe almoço de graça". Como a cidade deve ter uns 50 mil habitantes a matemática é simples. O valor pago aos munícipes deve voltar aos credores da mineradora em menos de uma semana de extração do pó. Creio que a vida é mais valorosa, mas enquanto isso, as pessoas, longe do Córrego do Feijão, recebem, fazem manipulação consciente, entram na alienação da grana, evitam falar do latrocínio, desaparecem das manifestações, observam a vida na cidade ficar mais cara e enchem a poupança. Outros debatem a tragédia, fazem fóruns, seminários, procuram ONGs, universidades, autoridades políticas, elaboram cursos e ganham com a desgraça alheia. O desrespeito ao luto é geral e o valor da vida é banalizado. Acho tudo isso muito grotesco. Não existe a temporalidade da saudade, da lembrança humana, do afeto coletivo e do luto.
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No artigo em apreço, nas poucas linhas que tenho, aponto ainda para alguns fatos: (1) ainda existem dezenas de pessoas que não foram encontradas, (2) a quantidade de órfãos produzidos é preocupante, (3) comunidades inteiras, como a dos indígenas, merecem maior atenção, (4) pouco se fala do Rio Paraopeba, tanto de sua morte como de sua possível ressurreição, e (5) a punição à Vale são provenientes de multas e poucos sabem se foram devidamente pagas, e, por último, (6) a polícia ainda não responsabilizou ninguém pelo episódio.
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Penso que a condição humana deve assustar até o pessimista filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860): se tudo tem o seu preço, imagina as pessoas que nem conhecem e nem foram ao Córrego do Feijão recebendo o dinheiro "doado"? De duas uma: (1) ou a Vale tenta ressarcir a cidade de alguma maneira (o marketing auxilia no aumento das Bolsas) limpando a lama e o nome no intuito de voltar à ativa, ou (2) tenta evitar maiores transtornos distribuindo dinheiro até para aqueles que diretamente não foram atingidos.
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Uma última palavra: a ocasião valeria uma pesquisa espetacular com a possibilidade de verificar as relações sociais e questões como a política, a ética, a economia, o poder público e o meio ambiente. Brumadinho - hoje - deveria se tornar um laboratório em céu aberto. Portanto, retomo a necessidade da construção de um museu ou memorial, antes que tudo não passe de um acontecimento “banal” (como quer o governador) e mais um capítulo esquecido na história das minerações e do Brasil.
Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 17/05/2019
Reeditado em 22/09/2019
Código do texto: T6649435
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros