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A certeza: “uma chance em infindáveis milhões de possibilidades” não é regra em Brumadinho (MG)

No dia 25 de janeiro, de 2019, a Vale - a segunda maior mineradora do mundo - matou três centenas de pessoas após o rompimento da barragem no Córrego do Feijão em Brumadinho. De lá para cá, tudo é luta, tristeza, discórdia, confusão e bate-boca na cidade. Passados cinco meses, o luto continua, o dinheiro correu solto e as autoridades entopem as pessoas de informações desencontradas. Nas brumas da manhã, onde tudo anda meio embaçado a despeito do nascer do sol, três certezas apontam os raios que teimam em aparecer depois das 12 horas.

Em primeiro lugar, temos a certeza de que a empresa mineradora, multinacional e empanturrada de dinheiro, tinha a completa ciência da possibilidade do rompimento da praga da barragem. A turma lá de cima não pensaria de outra forma, senão o de precificar o valor das vidas humanas. Aos poucos, vamos sabendo que engenheiros, geólogos, diretores, técnicos, “colaboradores operacionais” e alguns trabalhadores mais atentos, também sabiam que o rompimento era questão de tempo, má sorte ou de fé. Como a prevenção não faz parte do capital explorador, lá se foram um monte de gente em meio ao monte de lama. Tudo como não havia imaginado os de baixo, mas certamente como havia pensado os de cima. Talvez, a aposta era que o número de mortes fosse menor. O grande capital não respeita vidas. Mesmo assim, altos escalões da empresa rolaram os dados de valores e mediram por cabeça quanto valeria cada vida humana. É assim que funciona o capital privado de grande magnitude: (1) vale o risco do “empreendedor”, (2) não importa as consequências, desde que não atinja o patrão, (3) e cumpre buscar o lucro, mesmo contra a vida humana, desde que a água continue, mesmo poluída, seguindo para o mar.

Em segundo lugar, já passou da hora da população atingida ter a certeza de que a Vale escondeu, ainda esconde e vai continuar escondendo muitos fatos que envolvem o rompimento da barragem. Essa ação é típica de grandes capitais que estão se lixando para a justiça, autoridades políticas, polícia e órgãos de controle. Para se ter uma ideia, a Vale guardou por um tempo as imagens do montante de lama que passou e ultrapassou as cabeças dos mineradores e mineradoras que estavam por lá. Depois escondeu laudos e mais laudos que provavam a possibilidade e o gasto logístico, caso a barragem de rompesse. Mais tarde, escondeu o valor do terreno no qual a lama passou sem deixar um pinto de galinha sequer. No local está uma jazida com 430 mil toneladas de minério. Escondeu ainda sua tática de corte de gastos e diminuição de pessoal, dado que a empresa nem retirou a administração e o refeitório abaixo da barragem. Com maestria, escondeu o problema com os radares que mediam a movimentação (15 mil m²) em barragem dias antes do rompimento em Brumadinho. Além disso, se esforça para esconder se houve explosões por perto ou antes da barragem se romper. A “Vale esconde tudo” revela práticas que não levam a sério a condição humana. Acredita que o dinheiro compra tudo e, como mecanismos de compensação, segue com a política de acordos e distribuição de dinheiro - provavelmente já reservado para tal fim - para pagar indenizações e doações ao povo carente de informações e incapaz de ações prospectivas.

Finalmente, vale afirmar a certeza de que o denominado “pós-crise” não passa de vento em terra sem árvore. Foi só esperar a lama secar para que as autoridades locais tomassem a cena. É obrigatória a mudança, pois não existe outra maneira de ação que não seja a Política. É fato que, tanto a Câmara Municipal como a Assembleia Legislativa não param de organizar audiências para discutir o fato. Mas sem o povo tudo fica difícil, posto que atores políticos não se importam com o ponto de vista que, por natureza, é diferente de onde a pessoa observa. Por isso é preciso ter a certeza da ação política como prática junto ao Legislativo e Executivo. É mais do que necessário tomar as ruas, parar a cidade, definir metas, exigir providências. Isso é política, é colocar o dedo na ferida, ver as contas, avaliar possibilidades e decidir quando for preciso. Políticos falam muito, não gostam de contraditórios e só agem com o grito desesperado do povo. A ação cansa, mas é hora de tirar o sossego do vereador, do prefeito e do deputado, todos servidores públicos. Afinal, o capital da empresa é onipotente e a cidade, como o Estado, são reféns dele. O Ministério Público tenta levar a efeito acordos coletivos, mas a “conversinha” opera em favor da empresa, inclusive em nível estatal, visando negociar indenizações e empurrar as famílias para acordos individuais, mais baratos e rápidos (“Eles sabiam do risco e deram preço para as mortes”. conf. Brasil de Fato. www.brasildefato.com.br). Todo esse debate se dá sobre o sofrimento da maioria das pessoas e, junta-se a ele, a certeza do ganho em “Capital Valeriano”. A matemática é simples: a empresa matou muitas vidas, comprou outras vidas e lucrou no lugar onde não existe mais vida. Na bolsa também anda lucrando, em outras cidades segue aterrorizando na certeza de que, tal como antes, as coisas vão continuando...

Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 09/07/2019
Reeditado em 22/09/2019
Código do texto: T6692218
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros