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Você se sente um zero à esquerda?

"Parente é serpente"

Provérbio antigo

Quantos jovens ou crianças já não tiveram a impressão de que os outros membros de suas famílias não os consideram um problema? Infelizmente, isto é bastante comum em muitos ambientes familiares. Não são poucos os casos de pessoas que sentem que não são apreciados pelos pais, irmãos ou demais parentes, sentindo-se mal principalmente quando os ouvem falando deles, fazendo comentários maldosos e cruéis nos quais falam de seus erros, defeitos ou até de características pessoais suas, que podem ser manias, gostos ou aspectos da sua personalidade. A pessoa se sente um ser inadequado e chega inclusive a se perguntar o que fez de errado para que a vejam como um poço de defeitos, um ser errado, torto e deslocado que aparentemente não serve para viver. Falam como se ela fosse toda errada e não merecesse estar entre eles, seres tão perfeitos, não é?
Uma pessoa conhecida confessou várias vezes que não raro escutava seus pais e irmã a falar dela, dizendo que ela não fazia nada direito, não sabia se comportar, precisava de ajuda até para abotoar as blusas, pois nada entendia. O pai inclusive implicava com ela em coisas que eram simplesmente idiotas. Não podia vê-la assistindo a Chaves ou Chapolin que começava a dizer que ela era “retardada” por assistir a tais programas, se a mãe perguntava se ela tinha visto alguma coisa o pai já dizia: “Ela não sabe nada, não sabe que ela só vê desenho animado?” E ela também comentou em algumas queixas que descobriu que os irmãos trocavam mensagens de whatssapp falando sobre ela, dizendo que ela era doida, vivia no mundo da carochinha e o irmão inclusive a chamava por um apelido que ela detestava ao se referir a ela. E isso depois dela tê-lo ajudado com dinheiro a comprar coisas que ele precisava.
É triste quando alguém se sente como um pária na própria família. Primeiro, a gente não pede para ter os defeitos e qualidades que possui. E muitos são os pais que se frustram com os filhos porque gostariam que eles fossem de uma maneira e os filhos não o são. Então, é como se os filhos houvessem falhado para com eles por não ter correspondido ao ideal que eles haviam projetado. Acontece que ninguém é tímido ou desajeitado porque quer. E aliás, se alguém é sem traquejo, isso pode se dever ao fato de ter ouvido por um bom tempo as pessoas de sua família se queixarem que “não acerta uma”; “não sabe fazer nada” e “é um desastre, uma lástima, não sabe colocar uma água no copo”.
Que fazer? Amor e respeito são sentimentos que não podemos mendigar. E, para piorar, parece que quanto mais tentamos mostrar que somos bons o suficiente para que as pessoas da nossa família vejam que não somos tão desastrados, incompetentes e burros quanto eles vivem nos fazendo entender, mais eles nos desprezam, aproveitando-se de nós para depois zombar de nós pelas costas. Todo o bem que lhes fizermos nunca será o bastante. A gente precisa aprender é a se libertar deles – é verdade que falar é fácil – porque eles nunca irão nos amar. Talvez só nos deem valor e tratem bem quando nos afastamos deles. Mas aí não é das nossas pessoas que sentirão falta. Eles sentirão falta do que fazíamos por eles. Por esse motivo é que dá para desconfiar quando vemos gente se descabelando de chorar nos enterros. Muitas pessoas que desabam em lágrimas nos velórios e enterros dos parentes nunca os trataram bem quando eram vivos. Existe um velho ditado que afirma que você só passa a prestar quando se muda ou morre. E esta parece ser uma triste verdade. Do que adianta comprarem flores caríssimas para nossos túmulos se em vida nunca nos deram nem mesmo uma palavra de carinho e só davam a entender que éramos um peso, um estorvo?
Chega a ser ridículo ver tamanha hipocrisia. Só que a vida é assim: regida pela hipocrisia. Somos obrigados a dar bom dia a uma pessoa que detestamos, precisamos aguentar um trabalho que odiamos porque ou ficamos com ele ou voltamos a engrossar a lista dos desempregados e vemos parentes que na nossa frente são amáveis e sorridentes e por nossas costas falam de nós, talvez nos imitando e ridicularizando, falando de nossos defeitos ou reclamando de coisas muito nossas que não lhes dizem respeito, como se nossas vidas não fossem nossas, mas assunto de interesse público.
Que podemos fazer? Caso nossos parentes reclamem entre eles da maneira como nos vestimos, músicas que ouvimos ou critiquem alguns filmes a que gostamos de assistir, dizendo coisas do tipo: “ela adora ver besteira”, devemos lembrar que o gosto é nosso, não estamos prejudicando ninguém. Nas nossas horas livres, a gente vê o que quer. Quanta gente que posa de santinha não adora ver pornografia na Internet? O problema é das pessoas, que não entendem que isso não é assunto delas. Com certeza, se pessoas na sua família acham você errado ou errada, há outras pessoas que não irão olhar para detalhes tão insignificantes e gostarão de você do jeito que você é.
É verdade que esperamos que as pessoas da nossa família nos amem, aceitem e respeitem,  entretanto, nem sempre o fato de pessoas serem do mesmo sangue e viverem sob o mesmo teto quer dizer que o amor é o sentimento dominante. Em muitas famílias, o ambiente é tóxico, carregado de sentimentos negativos e mesquinhos como inveja, despeito, desprezo e até ódio. E não dá para mudarmos os sentimentos das pessoas. Não podemos fazer ninguém nos amar. Também não é saudável tentar mudar para que passem a gostar de nós. Só podemos ser como somos e, se quisermos mudar, tem que ser para nossa própria felicidade, não para tentar nos adequar a pessoas que nunca estiveram na nossa pele e com certeza jamais tentaram compreender nossos sentimentos ou se deram ao trabalho de nos ver além da superfície, concentrando-se apenas nos nossos aspectos que, por algum motivo que não entendemos, elas consideram incômodo.
Óbvio que falar é sempre muito mais fácil que agir, mas precisamos nos libertar dessas pessoas e da ideia de que precisamos de seu amor e aprovação.
Maria Cândida Vieira
Enviado por Maria Cândida Vieira em 24/06/2020
Código do texto: T6986319
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Maria Cândida Vieira
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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8 e-livros (351 leituras)
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Maria Cândida Vieira