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O Que É Um Blog?

O que é um blog, afinal? Mero diário de adolescentes exibidos, como quer o Milton Hatoum? Ou coisa para macho, no bom sentido, de corajoso e forte?

Por isso absorvo o blo-gue, com duas sílabas bem definidas a nos permitir brincar com a semântica e a fonética. Assim posso blogar, posso dizer que bloguei, cantar toda a conjugação.

Blogo porque quero, porque sinto uma angústia que me chama para a tela e para o texto – que explode no céu da boca como uva ou caviar. E chamo de blogar o que faço porque já transcende o que se chamava originalmente de escrever: está mais para uma espécie de passeio curioso entre as flores e os jardins, os meus e os dos outros, onde tomo a liberdade de cavar aqui e ali, deixando flagrante o desempenho dos meus passos.

Não me escondo na web – o que é bem diferente de “me exibir”. Aliás, nem sou bem lido: tenho quando muito um punhado de amigos que varia com o tempo, nunca “seguidores fiéis”, penas amigos, eventualmente interessados em meus fiapos de pensamento.

Veja bem: blogo porque quero, porque a cada nova forma que acho de partilhar descobertas, mais me entrego e me dou a conhecer. Vide youtube, twitter & second brain, que descortinam novas janelas na comunicação.

Blogo para alguém, afinal. Pois é disso que se trata. Na longa jornada solitária que é escrever um livro - eu sei - quantas vezes foge o foco e escrevo para nada, pra ninguém. Um ninguém contemporâneo, com sorte, ou do amanhã - bom dia! - a voz petrificada a lhe dizer o que um dia pensei, para sempre igualmente inpenetrável. Já na rede não, sempre podemos retomar o papo de bom grado, basta voltar lá. “Blogo para ti”, diria se fosse gaúcho, blogo pra ti.

Enquanto isso, aprendo a escrever. Sim, pois muito mais que exposição, um blog é aprendizado. Ou será que uma geração inteira que tem nas mãos, pela primeira vez na História, uma ferramenta gratuita, disponível em qualquer parte ou lugar, para expor suas opiniões não deveria fazê-lo. Então cada vez escrevo mais, e se não melhor, com mais facilidade, tão somente porque blogo. Porque me acostumei a sentar-me com o computador e escrever sobre o livro, o filme, o artigo ou a notícia. Ou sobre nada, admirador de Jerry Seinfeld que sou.

Porque um blog é isto, também, uma ferramenta inútil, um salto para o nada, o texto perdido e nunca lido, ou aquele no qual nem você botava fé e um dia está lá, na prima página do Google.

E olha que hoje em dia quase já nem blogo mais: caminho a passos largos para o avatar, (j)unção de minhas inúmeras personalidades na internet, nova manifestação do homem. Um dia a web caberá em minha própria mente, e leremos tudo por telepatia, e daremos acesso a conhecidos, amigos e amores de maneira não muito diferente do que fazemos online.

Um dia o detetive do futuro, travestido de mim mesmo, procura meus passos e os encontra - com a mesma facilidade com que os cuidadores do espólio bíblico de Mário de Andrade ora caçam bichinhos entre os livros que se desfazem na solidão de um prédio em São Paulo - e tromba com eles aos borbotões, assustando-se e surpreendendo-se emocionado ao som das notas que plantei, aqui e ali, de par em bar, até não sobrar nada para esconder e todos saibam, de uma vez, daquilo que eu li e separei e dei importância nas longas noites viajantes, frente à própria ignorância. Mais não vi que vi, e mais não sei que sei, mas ainda blogo para alguém.

Ou então, parafraseando Pessoa, um dia este texto desaparecerá, engolido pelas entranhas negras de servidores extintos e urls desaparecidas. Um dia desaparecerá a língua na qual meus posts foram escritos, coisas como computadores e abstrações como a internet. Mas haverá sempre, enquanto houver coisas como gente, a possibilidade de explorar novas interações, que a gente chama como quiser.

O que eu chamo de blog, afinal, reflete não só meu endereço virtual, mas cada maravilhoso diálogo que "aquele" texto um dia rendeu - tanto faz se na minha página ou na do vizinho - e que unirá aos olhos do diligente pesquisador do futuro, o meu nome ao do Alexis e da Juliana, por exemplo, que eu sei - vagueiam juntos por aí. É só procurar.

Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 17/02/2009
Código do texto: T1443850

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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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Renato van Wilpe Bach