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Bastidores da criação da Brasil Foods

No início da manhã da terça-feira 19, na sede da Sadia, na Vila Clementino, em São Paulo, funcionários da área financeira e administrativa da empresa receberam em sua caixa-postal, uma mensagem eletrônica do grupo. Ela informava sobre a criação da maior empresa de alimenntos do País, a Brasil Foods, que havia acabado de se formar numa conturbada fusão com a ex-rival Perdigão, anunciada oficialmente naquele momento.

Cada empregado ainda era chamado a assistir a um vídeo com Luiz Fernando Furlan, o presidente da empresa, que dava boas-vindas aos empregados na nova etapa. Na Perdigão aconteceu exatamente o mesmo. Nildemar Secches, presidente do conselho de administração da companhia, repetia exatamente o mesmo texto aos funcionários em vídeo na intranet da companhia. "Estamos criando um campeão", anunciou Furlan, na apresentação ao mercado da nova gigante de R$ 25 bilhões em vendas e 110 mil empregados.

Foram cinco meses de discussões, que envolveram o BNDES e exigiram muito jogo de cintura. Do lado da Perdigão, que é controlada por fundos de pensão, sentou-se à mesa o megaexecutivo Nildemar Secches, que já foi diretor do banco de desenvolvimento estatal. Pela Sadia, o negociador foi Luiz Fernando Furlan, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que defendeu os interesses das famílias Fontana e Furlan.

O mercado acompanhou atento as idas e vindas, que acabaram pondo sob o mesmo comando marcas consagradas, como as margarinas Qualy e Doriana. A nova gigante surgiu na terça-feira 19 com 42 fábricas, 119 mil funcionários, mais de R$ 10 bilhões em exportações por ano, 42% do que produzem, e faturamento anual líquido de R$ 22 bilhões. Trata-se da segunda maior indústria alimentícia nacional e a terceira maior exportadora brasileira, atrás somente de Vale e Petrobras.

Desemprego
Os únicos que destoavam um pouco desse clima de festão são os funcionários. Já existe até uma bolsa de apostas na sede da Sadia, entre empregados da área da gerência, a respeito do tempo que levará para os cortes começarem. O  medo, por lá, é que se repitam na sede da empresa cenas que têm se tornado frequentes nas dezenas de unidades em todo o País.

No Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentos de Toledo, no Paraná, por exemplo, 40 demitidos pela Sadia foram atendidos naquela terça-feira. Para muitos, é só o início de um processo de união de estruturas muitas vezes sobrepostas e que nem sempre falam a mesma língua.

As diferenças de gestões e estrutura saltam aos olhos. Enquanto a Sadia mantém 23 diretores em cargos estratégicos, a Perdigão tem apenas dez.

Mudanças estão por vir
Para analistas, a tendência é de que a estrutura mais enxuta permaneça, com menos executivos na linha de frente. Na Perdigão, menos empregados fazem mais. O faturamento por funcionário cresceu 30% em 2008 e foi a R$ 194 mil. Na Sadia, o valor não passa de R$ 178 mil, um aumento de magros 6% em 2008, em relação ao ano anterior.

Políticas de bônus, participação nos resultados e até mesmo o formato dos planos de carreira são bem distintos. Enquanto na Sadia os bônus passaram anos proporcionais aos salários, na Perdigão, mais profissionalizada, isso sempre teve a ver com resultados.

Os ganhos de sinergia podem chegar a até R$ 2,2 bilhões pelas contas da corretora Brascan. Boa parte da economia deve vir do encolhimento das despesas operacionais, maiores na Sadia (os gastos lá superam em R$ 400 milhões os da Perdigão).

Há inclusive uma torcida no mercado pela manutenção no comando do corpo diretivo da Perdigão. Se a gestão da Perdigão engolir a da Sadia, o nível de autonomia dos novos executivos na empresa a ser criada tende a crescer.

O que já se sabe é que daqui para a frente, a integração das operações vai tomar a maior parte do tempo das empresas. Nos primeiros meses, ela acontecerá nos departamentos de logística e distribuição, mas as áreas administrativas das companhias devem se manter separadas pelo período de um ano.

O trabalho duro vai acontecer do portão para dentro das unidades. Os 35 centros de distribuição que as duas companhias têm hoje podem passar por uma reorganização das atividades.

Apenas no Rio Grande do Sul, as duas empresas têm 15 centros, quase a metade do total. Em Concórdia (SC) cada uma mantém um mega-abatedouro de aves a uma distância de 60 quilômetros. A Sadia tem unidades industriais no Rio Grande do Sul com ociosidade superior a 30%, informa o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação.

Mas as sobreposições de centros e unidades são mais localizadas no Sudeste e Sul. Por isso, as associações do setor preferem ser cautelosas. “Não haverá muito excedente a ser cortado”, diz o presidente da União Brasileira da Avicultura, Ariel Mendes. Distribuída em diferentes pólos, a Brasil Foods aumentaria a área de atuação da nova empresa, pois a concorrência é pequena entre unidades no Centro-Oeste e Nordeste, por exemplo.

Dedo do governo
Mas para entender o nascimento da Brasil Foods é necessário voltar exatamente uma semana no tempo.

Na tarde da terça-feira 12, o ex-ministro do Desenvolvimento e até então, presidente da Sadia, Luiz Fernando Furlan viajou até Brasília para uma reunião com Lula.

O presidente o recebeu com um abraço fraterno, mostrou-se feliz com o avanço das negociações para unir Sadia e Perdigão e disse que era chegada de hora de desempatar o jogo. “E então, Furlan, quando vamos colocar a bola para dentro do gol?”, indagou o presidente. Naquele instante, estava selado mais um grande negócio que nasce com a marca do governo Lula.

Missão quase impossível
Furlan saiu de lá ciente de que havia cumprido uma missão quase impossível: encontrar uma saída para a empresa fundada pelo seu avô Atílio Fontana há 80 anos e que, depois de prejuízos bilionários com derivativos financeiros, corria o risco de ficar insolvente. O ex-ministro não só realizou um antigo sonho, ao criar um gigante global de alimentos, como fez com o limão uma limonada.

De certo modo, a operação Sadia-Perdigão se assemelha ao que ocorreu no processo Itaú-Unibanco. A Sadia foi “engolida” pela Perdigão, mas o bloco de famílias liderado por Furlan será um dos maiores acionistas individuais da empresa resultante, assim como Pedro Moreira Salles, do Unibanco, conseguiu fazer no acordo com o Itaú.
Embora a Sadia fique com 30% da futura empresa e a Perdigão com 70%, os 57 sócios ligados às famílias Furlan e Fontana terão cerca de 10% da Sadigão, um percentual muito próximo ao do outro principal acionista, que será a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil.

O BNDES, chefiado por Luciano Coutinho, pode entrar na empresa numa etapa posterior, participando de uma emissão de ações de até R$ 4 bilhões. Além disso, o conselho de administração deverá ter dois copresidentes: Nildemar Secches, da Perdigão, e o próprio Furlan.

Na tarde da sexta- feira 15, a operação ainda não havia sido oficializada, mas o anúncio era esperado para qualquer momento – faltava apenas informar a Comissão de Valores Mobiliários.

A construção do negócio
A construção dessa nova empresa, no entanto, teve de superar vários obstáculos.

Concorrentes históricos, Sadia e Perdigão nasceram em Santa Catarina e criaram culturas competitivas e antagônicas. A tal ponto que Furlan, corintiano como Lula, chegou a comparar o negócio a uma improvável união entre Corinthians e Palmeiras.

Em março deste ano, às vésperas do pior balanço da história da Sadia, com prejuízo de mais de R$ 2 bilhões, a fusão parecia caminhar para um naufrágio, com uma guerrilha de informações entre as equipes das duas companhias. Naquele momento, distanciando-se da Perdigão, a Sadia seria presa fácil para empresas internacionais e chegou a ser procurada por Cargill e Nestlé. Foi então, há cerca de 45 dias, que Lula decidiu intervir. Pegou o telefone, ligou para Luciano Coutinho e deu uma orientação clara: a Sadia não poderia cair em mãos estrangeiras.

A criação da Brasil Foods encerra uma antiga rixa entre Perdigão e Sadia – a primeira fundada em 1934 e a segunda, em 1944. Elas disputavam o mercado brasileiro palmo a palmo, com vantagem para a Sadia até recentemente. Em 2006, a empresa das famílias Furlan e Fontana fez uma oferta para a aquisição da totalidade das ações da Perdigão, de 3,7 bilhões de reais. No jargão do mercado, foi uma "oferta hostil" – prontamente recusada.
Em outubro do ano passado, contudo, uma verdadeira hecatombe se abateu sobre a Sadia, empresa que nunca havia tido prejuízo. A companhia perdeu 2,6 bilhões de reais com operações no mercado financeiro. Aparentemente sem o conhecimento do conselho, um diretor apostou em papéis voláteis, chamados derivativos cambiais. Com a eclosão da crise financeira mundial, os derivativos viraram pó e a Sadia, tecnicamente, quebrou. Para a Perdigão, foi uma oportunidade de ouro: ela pôde somar ao seu patrimônio marcas valiosas, linhas de produtos com ótima reputação e modernas unidades industriais.

O que diz o varejo
Além dos funcionários, existe um outro grupo que não parece muito feliz com a união de Sadia e Perdigão: o varejo.

 “Ambas apertam de todos os lados e isso só vai piorar. Toda a compra de itens de Natal vai estar agora nas mãos deles. Mandei minha equipe ir atrás de peru de Natal no Canadá e na França”, conta um diretor de perecíveis de uma rede varejista.

O varejo já aguarda um novo planejamento estratégico das marcas. Cada segmento de produto terá uma marca principal a ser trabalhada, acreditam os analistas. “As duas marcas devem conviver de forma paralela no Brasil e lá fora. A mais fraca de cada segmento sumirá e deve ficar a de maior expressão em cada produto”, segundo a consultoria GlobalBrands.

Domínio do mercado
Nessa linha parece inevitável a alteração do cenário da concorrência no País.

Unidas, Perdigão e Sadia dominarão o mercado nacional de carnes congeladas – de cada dez produtos, oito serão da Brasil Foods . No setor de margarinas, a Sadia tem 47,5% do mercado e a Perdigão, 18%. Juntas, elas possuem 53% do setor de carnes refrigeradas, 71,3% de carnes congeladas, 84% do segmento de massas e 64,8% de pizzas prontas. Quase sem concorrentes, teme-se o efeito sobre os preços e a extinção de algumas marcas

A Brasil Foods também preocupa os produtores, que temem perder o poder de barganha. No setor de supermercados a preocupação é a mesma.

Uniões que resultem em concentração superior a 20% precisam passar pela Secretaria de Acompanhamento Econômico e pelo Cade.

A concentração por si só não é um problema.

Diversos outros fatores serão analisados para garantir a livre concorrência, sem prejuízo aos consumidores”, disse o ex-conselheiro do Cade Cleveland Prates. Um desses pontos é a condição das outras empresas que atuam nesses setores. “Mesmo que o Cade aprove a fusão, é possível que seja recomendada, por exemplo, a redução das tarifas de importação ou algo semelhante”.

Apesar dos temores, a fusão tem um grande aliado. Em viagem na comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, fez questão de comemorar: "Vamos ampliar as exportações brasileiras de frango. E não haverá problema com os órgãos de defesa da concorrência."

Pelo jeito as visitas de Luiz Fernando Furlan ao Planalto tendem a se tornar ainda mais comuns, talvez com temas menos amenos do que as vitórias corintianas.

Bibliografia
Revista Isto É Dinheiro, edição 607 de 27 de maio de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 606 de 20 de maio de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 601 de 15 de abril de 2009
Revista Isto É, edição 2.063 de 27 de maio de 2009
Revista Época, edição 575 de 23 de maio de 2009
Revista Veja, edição 2.114 de 27 de maio de 2009
Alexsandro Rebello Bonatto
Enviado por Alexsandro Rebello Bonatto em 28/05/2009
Código do texto: T1618819

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Sobre o autor
Alexsandro Rebello Bonatto
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 44 anos
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Alexsandro Rebello Bonatto