TAXI AO PREÇO DE ÔNIBUS

Desde a implantação do Plano Real, no Brasil – se lá vão 15 anos – os serviços de um modo geral aumentaram. Quem pensa que isso é apenas conseqüência do aumento do salário mínimo, está muito enganado. Os consumidores estão cada vez mais exigentes. Exigência costuma envolver custos. Poucas pessoas se lembram da inflação galopante que escondia falhas administrativas, aumentos reais de preços e gerava uma sensação de se ter auferido lucro, quando na verdade apenas se recebia mais dinheiro desvalorizado.

Com a moeda estabilizada é mais fácil fazer contas e difícil esconder falhas. Assim, a transparência é quase automática. Assim, conferir custos ficou muito mais fácil. Também é fácil, dentro de uma empresa, descobrir o sangradouro e estancá-lo, se for o caso. Dependendo da sofisticação do serviço, o remédio é repassar o custo aos preços e sangrar o consumidor.

No Brasil temos o péssimo hábito de não valorizar os serviços. Talvez porque muitos deles ainda são de péssima qualidade. É muito fácil aprovar um projeto de construção de uma escola, por exemplo, sem que tenha sido previsto o custo de funcionamento e manutenção. Não raras vezes o poder público destina verbas para construção e compra de equipamentos e se esquece do pessoal que deverá tocar o projeto em frente. Isso é muito comum em convênios.

O custo das refeições prontas, em Manaus, há muito deixaram de encabeçar a lista das mais caras do Brasil. A profissionalização do setor envida esforços para reduzir custos e repassar essa redução ao consumidor. Por outro lado, a sofisticação, cada vez maior dos restaurantes empurra os preços para cima. Há muitos custos que nada tem a ver com a comida ou a bebida servida. Porém é delas que é tirado o dinheiro para pagamentos destes custos adicionais.

Os restaurantes devem ser localizados onde haja acesso e espaço para estacionamento. O local não deve ser apertado demais para que caibam muitos clientes e possa oferecer comodidade aos freqüentadores. O ambiente deve ser impecavelmente limpo e as refeições saborosas, apresentáveis e seguras. Considerando-se que quase todos os produtos usados são perecíveis, o item “segurança alimentar” exige equipamentos e pessoas treinadas. São apenas algumas ilustrações dos custos adicionais.

Há consumidores que ainda pensam que podem chegar a um restaurante e beber uma coca-cola ao preço do mercadinho. Infelizmente, há alguns proprietários de restaurantes que, para agradar aos clientes mantém preços muito abaixo dos que seriam necessários. Ou então, servem em suas casas refrigerantes do tipo Pet de dois litros em volume para atender famílias ou grupos. É uma ilusão que tende a se acabar para que a casa não sucumba sem descobrir o porquê.

Nos restaurantes, dependendo do seu grau de sofisticação e serviços paralelos que ofereça, o custo dos ingredientes varia entre 10 a 40% do preço de venda. Assim, o valor agregado entre a compra e venda situa-se entre 150 a 900%. A margem de um mercadinho fica em torno de 40%. Nem pode ser de outro modo, pois são situações totalmente diferentes.

Não considerar os custos indiretos é o mesmo que querer oferecer o serviço de táxi ao preço da gasolina, com uma margem de 40% sobre o valor dela. Quem anda de taxi tem um motorista exclusivo, horário e itinerário também exclusivos. O preço não pode ser igual a de um ônibus cuja empresa determina estas coisas além de paradas em pontos próprios para reduzir custos.

Quem prepara a comida em casa pode fugir a estes custos. Porém, pode estar pagando um preço muito alto nas poucas horas de convívio com a família.

Luiz Lauschner – Escritor e empresário

www.luizlauschner.prosaeverso.net

Luiz Lauschner
Enviado por Luiz Lauschner em 15/11/2009
Reeditado em 16/11/2009
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