HAITI: ELES NÃO MERECEM ISSO.

Destruir vidas num golpe certeiro e maestral não é novidade para quem quer que seja. Somos hábeis em matança de semelhantes, conhecemos cada detalhe de quanto o outro aguenta num campo de concentração, num pau-de-arara, numa vala comum fétida e escura ou numa vida sem dignidade ou respeito.

É notória a nossa aspiração pelo poder com todas suas falsetas, faisões e porretes. É gritante o quanto crescemos ao incorporarmos uma farda, um carrão ou mesmo a faixa presidencial. É enebriante o quanto agigantamos quando somos chamados de "doutor" pelo flanelinha quando paramos no sinal vermelho.

No caso do Haiti, um povo miserável, amante de práticas de magia negra, que vive a milhões de distância abaixo da linha da pobreza, isso toca mais, caramba: por que justo com o Haiti?

Tinha que ser naquela ilha amaldiçoada, naqueles probres diabos que nunca souberam se passariam dos 5 meses de idade, naquele povo que tem no seu sangue o DNA do descaso, do desnudo, do mal parido e mal querido. Triste sina, válida bem antes da sua fecundação.

Dessa forma a natureza resolveu fazer um pente-fino naquele fim-de-mundo, limpando com o o mesmo ímpeto, planejamento e comprometimento com que passamos um pano úmido para tirar as migalhas de pão que sobraram após o café.

Talvez tivesse esgotado o seu menu de opções e, por exclusão, acabou-se escolhendo o Haiti para a "farra do boi"do dia, mirando naquele povo a sua espingardinha de rolha, ou seja lá o que for.

Esse visão maquiavélica da natureza tem muito a ver com a nossa rotina. Não temos o menor pudor em esmagar uma formiga que resolva passar perto do nosso bolo. Comemos um filé com fritas babando de prazer e nem de longe lembramos daquela doce vaquinha comendo grama e sendo brutalmente assassinada só para encher o nosso prato com mais esse quitude. Matamos a nós mesmos todos os dias com as palavras duras, com as intenções mal tramadas e desparafusadas de qualquer réstia de bondade ou compaixão.

O que está soterrado naquela ilha não é somente o que a raça humana produziu de mais torto, bizarro ou desprezível, como muita gente julga e que, mesmo com toda compaixão emergindo pela midia, não sentirá muita falta daqueles milhares de almas putrefando pelo chão batido de Porto Príncipe.

O que está escancarado para sempre naquela pocilga a céu aberto é a nossa falta de capacidade de irmanarmos quaisquer sopros de solidariedade enquanto não emerge uma catástrofe com tanta pompa, séquito e rojões ecoando por tudo que é lado.

Deveríamos ter gasto meio segundo das nossas vidas para dar um gole de água para aquelas crianças haitianas sem passado nem futuro.

Deveríamos ter deixado de tomar um café ao longo de todos os nossos anos e usado essa "verba" para ajudar aquela mãe negra, pobre e analfabeta a fazer seus tantos flhos pararem de chorar por causa do estômago doendo.

Mas isso é um cenário fora da medida do nosso palco. Somos por demais arianos e inacessíveis para lembrarmos desses pobres diabos.

Afinal, nos achamos melhores que eles, temos mais o que pensar. Deixa pra lá, aquele pessoal só pensa em vodu, não merece o cuspe da nossa compaixão. O nosso desprezo para eles é muito pouco.

Suponho que, sem querer, a natureza "copiou e colou" da nossa cabeça algo nesse sentido e não teve a menor dúvida, ou culpa, em fazer esse notável estrago nas plagas haitianas.

É realmente triste o que fizemos com o povo do Haiti.