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Nós não amamos Brigitte Bradot

Cresci ouvindo falar daquela mulher lindíssima, louríssima, talentosíssima, tão famosa quanto os Beatles ou Marilyn Monroe, que encantara o mundo por mais que uma geração e se retirara no auge, tornando-se uma reclusa esquisitona que propaga(va) aos quatro ventos preferir os animais aos seres humanos.

"Como é que pode, largar tudo para viver uma vida assim, quase monástica, entregando-se a uma loucura dessas, gatinhos e cãezinhos, cavalos e bebês-foca... Muito louca, isso sim...", diziam meus pais e todos aqueles que antes a veneravam.

Depois conheci Búzios, no estado do Rio, e toda a mitologia reunida ao redor e sobre sua visita inesquecível ao Brasil em 1965, da Rua das Pedras às praias (não mais, há tempos) quase virgens.

Mas foi só bem mais tarde, nas madrugadas do extinto Telecine Classic, que pude apreciar mais a fundo sua beleza loura, sua intensidade e seu talento. Nem parecia que ela permanecia viva, enclausurada na velha casa que escondeu e escancarou a um só tempo, ao mundo e a quem interessasse, sua lenta degeneração em decrepitude. (Re) Descobri BB viva, ao assistir um punhado de filmes e descobrir que sentia por ela o mesmo tesão de fã que me une indelevelmente a umas poucas outras estrelas como Liz Taylor e Audrey Hepburn - que envelheceram de forma tão dessemelhante.

No que chovo no molhado, uma vez mais: estrelas não morrem, ainda que tentem fazê-lo em vida, com suas opiniões estridentes e idiossincrasias pouco compreendidas, e assim renascem a cada gesto, os de estreia tanto quanto os longos feneceres, como se suas luzes astrais teimassem em brilhar vindas lá de cima, para descer lenta e calmamente à Terra ao longo dos séculos.

Por isso reencontrá-la agora, meio de surpresa, através do documentário de Benjamin Roussel "Brigitte criou Bardot", de 2007, foi tão impactante. Vê-la defender seus pontos de vista com clareza, inteligência e verve, vestida do corpo sovado pela velhice que quase a torna mais uma vez bonita, em seu (já não tão) novo papel de anciã, chega a comover. Sua luta a colocou à frente de seu tempo, antecipando tendências da moda como o abandono (parcial) do uso de peles naturais pelos avatares da moda, pressagiando temas marcantes do fimde século como o ambientalismo, instigando desde há quase quarenta anos a discussão tão moderna a respeito da crueldade de abatedouros e que tais.

"O ser humano é um horror, o que nós fazemos..."; "sinto-me mais à vontade entre os animais que entre os seres humanos"; "fiz o que fiz para tentar sobreviver em um mundo que me é hostil" são algumas das frases (feitas) pela atriz ao longo de uma hora de entrevistas e memorabilia, pela primeira vez -pelo menos para mim - colocadas em perspectiva,dentro de um contexto que se aproxima do que podemos imaginar seja a visão dela, com respeito e sem blá-blá-blá.

La Bardot vive, aninhada no desejo - e mais uma vez digo "quase"  - inconfessável que sua imagem adolescente provoca em nós nos velhos filmes de sua época, e - repito, pelo menos para mim - na compreensão recentíssima da importância de sua trajetória.

O mundo não a merece, e na cabeça ecoa Gaisbourg, com a versão (original) que contrapõe tão apropriadamente ao "Je t'aime" (te amo), o "moi non plus" (nem eu).
Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 20/03/2010
Código do texto: T2148349

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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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