PLÁCIDO DE CASTRO E A CONQUISTA DO ACRE

José Lisboa Mendes Moreira

É inegável o papel das massas como fator da história mas é forçoso reconhecer que com elas interage a ação heróica dos grandes homens. Esta ação não se confunde com um voluntarismo: a atividade econômica motiva e condiciona tanto as massas quanto os heróis,

A conquista do Acre foi obra dos seringueiros que labutavam na produção da borracha extraindo o látex da Hevea brasiliensis, planta nativa da Amazônia.Embora conhecida pelos pré-colombianos, a borracha só alcançou valor econômico no século XIX, principalmente depois da descoberta da vulcanização por Goodyear, nos E.U.A. .( 1840 ) e Hancock, na Inglaterra ( 1842 ).Em 1850, passou a ser empregada para revestir os aros das rodas de veículos. Em 1888, Dunlop introduziu a câmara-de-ar, inventando o pneu, logo aplicado em bicicletas.Em 1895, os irmãos Michelin adaptaram o pneu ao automóvel, veículo patenteado por Daimler, em 1884, e por Benz, em 1885.

Nordestinos que fugiam da seca de 1877 aumentaram consideravelmente o número de seringueiros e ocasionaram sua expansão territorial. Subindo o Purus e o Juruá, foram ocupando, progressivamente, terras que pertenciam à Bolívia. A eles se juntaram gaúchos que tinham sido derrotados na guerra civil de 1893.Durante anos, a Bolívia não se importou com a invasão, mas, em 1899, com o valor crescente da borracha, começou a tomar medidas contra os brasileiros. Estes se revoltaram e sob o comando do espanhol Luís Galvez, proclamaram o Estado Independente do Acre. Durou pouco. Galvez foi deposto pelo governo brasileiro. Os bolivianos derrotaram os seringueiros e decidiram arrendar o Acre a uma empresa norte-americana ( Bolivian Syndicate). Os brasileiros foram proibidos de explorar os seringais:toda a produção do látex ficaria a cargo dos norte-americanos. Nova revolta dos brasileiros. Comandados por Plácido de Castro, um jovem gaúcho de 28 anos, antigo aluno da Escola Militar de Porto Alegre e ex-Major do Exército Federalista, os seringueiros derrotaram os bolivianos e entregaram o Acre, de mão beijada ao Governo Brasileiro.

Pelo Tratado de Petrópolis (1903), o Acre foi incorporado ao Brasil mas, pelo território que recebera de graça, o Governo Brasileiro pagou 110 mil libras ao Bolivian Syndicate, dois milhões de libras à Bolívia e se comprometeu a construir a ferrovia Madeira-Mamoré.

Valente, generoso, justo, sentimental, um herói autêntico, Plácido de Castro, o vitorioso comandante dos seringueiros, morreu aos 35 anos, assassinado por bandidos a soldo de políticos inescrupulosos.

Três instantâneos retratam bem quem foi Plácido de Castro:

- O comandante boliviano, Coronel Rozendo Rojas, derrotado e aprisionado por ele, quis entregar-lhe a espada. Plácido recusou dizendo: “Não, Coronel. Guardai vossa espada, pois sois um bravo!”

- Quando um companheiro cometeu o crime de traição, não hesitou em condená-lo à morte por fuzilamento. Quando o pelotão disparou, manteve-se firme.De seus olhos, porém, as lágrimas rolavam.

- No dia em que foi tocaiado por seus assassinos, ainda conseguiu cavalgar, com o corpo crivado de balas até ao hospital onde faleceu. Lá, dirigindo-se a seu irmão, disse: “Logo que eu morrer, abre o meu peito, tira o meu coração e leva metade para a nossa mãe e a outra metade para minha noiva”.

José Lisboa Mendes Moreira
Enviado por José Lisboa Mendes Moreira em 12/02/2007
Reeditado em 19/05/2007
Código do texto: T378797