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COMISSÃO DA VERDADE?


Até o mais bronco dos pais de famílias sabe que, se quiser saber a verdade até sobre briguinhas de seus filhos deve ser imparcial e ouvir os dois lados. A chamada Comissão Nacional da Verdade tem sete membros, possivelmente todos ilibados e capacitados, porém, por terem sido escolhidos pelo mesmo dedo, já estão desclassificados para a função.
Nos acontecimentos posteriores a 1964 parte-se do princípio que os militares, por terem assumido o poder por imposição das armas e não do voto, estão todos errados e quem combatia o regime era correto. Este simplismo nos levará a cometer injustiças e teremos mil anos de “embargos infringentes” pela frente sem nunca chegarmos à verdade alguma. O golpe militar aconteceu por um clamor popular contra a bagunça generalizada que havia no Brasil da época. Pessoas importantíssimas apoiaram a intervenção num primeiro momento e depois se posicionaram contra quando viram que ela pretendia se eternizar. Entre estes, o mais conhecido é Paulo Brossard.
Também eu sofri com o cerceamento da liberdade porque minha adolescência e juventude foram todas cercadas de “isso é proibido, aquilo não é”. Os jovens de hoje nem imaginam o que seja estar num banco escolar e temer que o colega do lado seja um espião do SNI pronto a dedurá-lo e fazer desaparecer como tantos outros cujos nomes eram apenas murmurados entre pessoas amigas. A abrangência do governo sobre a fiscalização ideológica era capilarizada ao extremo e eu cresci temendo militares e polícia militar por extensão. Aos dezessete anos, depois de uma discussão sobre história no segundo grau, senti-me vigiado por várias semanas por homens num mesmo Aero Willys preto em diversos pontos da periferia de Porto Alegre.
Jamais poderei ser a favor de um governo não democrático. Até por isso mesmo não posso ser a favor dos que protestavam contra o regime com armas, quer fossem de fogo, quer fossem bombas. Estes não queriam a democracia e sim uma ditadura de esquerda, como em todos os países comunistas onde a alternância no poder só acontece pelo definhamento físico de seu detentor.
O retorno à democracia não aconteceu por causa desses guerrilheiros que nunca quiseram construir uma democracia, mas por conta dos políticos e da Igreja Católica que mantinha a sociedade relativamente organizada quando toda organização era proibida. Para a Igreja, de formação teocrática, pouco importa a forma de governo contanto que respeite à pessoa, coisa que o regime militar não fazia. Quando o governo transformou Frei Beto - que era apenas um jovem contestador - em inimigo, não calculou o alcance do poder da Igreja quando provocada.
Assim, a Igreja que condenava a violência praticada pelos dois lados, foi uma protagonista muito mais ativa que os que jogavam bombinhas atingindo inocentes como muitos que hoje estão no poder.  Estranhamente nenhum membro ligado a ela faz parte da comissão, embora não se consiga conceber a luta pela democracia ignorando o que fez o Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, para citar apenas o clérigo que mais se expôs.
Os membros da Comissão Nacional da Verdade têm mais um ano para concluírem seus relatórios. Não me admiraria se o resultado fosse uma apologia à resistência ao regime militar. A Presidente da República não tem a isenção de nomear esta comissão, uma vez que ela própria é parte interessada. O que acontecerá se o relatório não lhe for favorável? Haverá censura?



Luiz Lauschner
Enviado por Luiz Lauschner em 05/11/2013
Código do texto: T4557421
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Luiz Lauschner
Manaus - Amazonas - Brasil, 68 anos
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Luiz Lauschner