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OURO DE TOLO: A ESCRITA COMO MARKETING E NETWORK
 
O Brasil ainda é um país feudal, terra dos monopólios, da concentração de renda, do pistolão, do network, esquemas que se refletem em tudo. Nem a cultura nem a informação escapam. Um garoto dos confins da selva, que sonha em se tornar escritor conhecido, pode ter a mesma chance de um boy de Copacabana que escreve num gabinete de lambri com ar-condicionado, desde que seja capaz de criar conexões importantes, que se sensibilizem com a sua demanda ou, quem sabe, garimpar uma boa assessoria de imprensa. Dessa forma, ele sai no Caderno de Cultura do Estadão, ganha coluna em O Globo, na Folha de SP, é convidado para ocupar mesa na Flip, etc. E nem é preciso talento, pode até se dar ao luxo de ser um pândego superficial, mas se tiver dinheiro para gastar em marketing ou for esperto o suficiente para alcançar as pessoas certas, isso basta para maquiar um sucesso que não nasce, necessariamente, do conteúdo. Grana, cara de pau e senso de oportunismo, um kit que vale mais do que dois Machados de Assis.

Agora, se você não possui nada disso, é avesso à bajulação, mas tem talento, o que sobra é criar um blog, escrever no Facebook ou investir suas economias para publicar um livro que, talvez, ninguém compre. Sim, meu querido gafanhoto, ao talento, muitas vezes, restam os espaços medíocres.
 
Não digo que isso aconteça em todas as artes, mas em literatura, no próprio jornalismo, é algo escandaloso. Lembro que enviei um texto para o falecido Prosa e Verso, de O Globo, que sequer foi lido. Mesmo cobrando, enviando e-mails, a única resposta que recebi foi uma embromada básica, faltou a mísera dignidade para dizer se o que eu havia escrito era bom ou indigno de publicação. Por sinal, enviar qualquer texto para jornal é um passatempo inútil para quem não possui um nome que o endosse. Por esses dias, tentei publicar um artigo sobre um assunto que domino e que possuía até uma pitada de interesse público, perdi meu tempo. Enviei para alguns colegas jornalistas, pedi ajuda e apenas dois tiveram a gentileza de me responder. Tudo o que diz respeito a escrita, se não vier com forte recomendação, encontra uma parede de egoísmo e desprezo pela frente. Portanto, jovem autor com fé, prepare-se para um universo ingrato.
 
Caso você esteja a rascunhar o primeiro parágrafo, já sonhando com olhos atentos percorrendo suas frases e belas construções sintáticas, mas sabe que não possui nenhum trampolim que o auxilie no salto, tenha em mente os versos de Cartola: Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho / Vai reduzir as ilusões a pó...
 
Não, não diga que eu sou um pessimista. Pessimismo é doença que envolve o indivíduo em nuvens opacas que turvam a visão. O meu problema é outro, é enxergar demais.

 
 
 
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 21/03/2017
Reeditado em 21/03/2017
Código do texto: T5947332
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Alexandre Coslei
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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