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Schopenhauer baiano?

Dia desses sai do trabalho espatifado de tanto cansaço e desanimado por ter de pegar o trânsito de Salvador, onde resido atualmente. Como todas as grandes cidades, Salvador tem um trânsito caótico com o agravante de apenas duas vias para desafogo: ou você vai pela Orla ou pela avenida Paralela. Se ambas estiverem complicadas, esqueça, amigo. Ligue o rádio e curta o som, pois ficará horas parado.

Depois de duas horas na companhia de buzinas e muitos carros, cheguei em casa. Entrei e atirei-me no sofá. Procurei o controle da televisão e comecei a picotar os canais. Não tardou e encontrei uma cena curiosa.

O filósofo Schopenhauer estava lecionando em Salvador, numa universidade federal, e alguns jornalistas faziam uma reportagem sobre ele. Pensei: estou maluco, só pode ser efeito do trânsito, afinal Schopenhauer viveu na Alemanha e no século XIX. Como pode dar aulas em pleno século XXI na Bahia? Seria a globalização? Só pode ser...

E Schopenhauer dirigia-se aos alunos em pleno baianês. Oxi... Vumbora... deixem de comer água e venham estudar. Traduzirei o que disse o filósofo alemão em baianês: Deixem de beber cerveja e vamos produzir.

E a matéria prosseguiu, repórteres a postos a filmar o nobre pensador pessimista. Os alunos entraram em sala de aula e pediram: Prof., qual é a página do livro? Livro? Que livro? Perguntou Schopenhauer. Têm livro não... Simbora aprender a pensar, sermos originais e colocarmos nosso cérebro para funcionar. Livros são bons, mas devemos, também, formular os nossos pensamentos a partir de nossas observações do mundo, da vida e das coisas. Tenho visto por aí muitos eruditos que apenas repetem o que encontram nos livros, mas não pensam, não produzem nada de si. A estes eu chamo de filósofos livreiros, sem originalidade e sempre com ideias de segunda mão. Aluno meu tem de pensar, refletir a vida e não ser alguém que apenas repete o que outros disseram. E digo mais: quando forem escrever o façam de forma simples e objetiva.

O bom comunicador escreve coisas profundas da maneira mais simples possível. Já aqueles que não têm muito a dizer são prolixos e enfeitam as frases com palavras rebuscadas mas que, no fundo, tem significado raso. Meus alunos são diletantes. Os alunos espantaram-se: Oxi, mas o que é isso, fessor?

Diletante, respondeu o filósofo, é aquele que busca a verdade pelo amor ao saber sem segundas intenções ou interesses outros que não a descoberta, o filão de ouro chamado verdade. Quem busca o conhecimento apenas por vantagens monetárias não é um diletante, mas um mero mercador. Lembrem-se disto... Amor ao saber... Amor ao saber... Amor ao saber...

Senti três batidas no meu ombro. Era minha esposa me chamando. Eu havia caído num sono profundo e sonhado... Olhei para o lado e fiquei "filmando" o livro, A arte de escrever, com coletânea de textos do filósofo Arhur Schopenhauer. Minha esposa, então, novamente bateu em meus ombros e chamou: Vumbora comer água... Hoje é sexta-feira...
Wellington Balbo
Enviado por Wellington Balbo em 01/11/2018
Código do texto: T6491587
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Wellington Balbo
Bauru - São Paulo - Brasil, 46 anos
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