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Os pais não ensinam, o corpo padece.

Os pais não ensinam, o corpo padece.

Dia desses estava no ônibus circular, esses que rasgam bairros da cidade levando-nos de um ponto a outro, bem sentado, aliás, confortavelmente sentado e cansado de tanto andar quando adentrou uma senhora. Todas as cadeiras ocupadas, nenhuma vaga para aqueles “cabelos brancos”, cheios de história pra contar. Olhei para todos os lados da lotação e pensei: Alguém dará o lugar para a senhora sentar. Mas, ninguém se manifestou. Pensei: Xi... sobrou pra mim. Mas, logo veio a tentação, essa “conselheira” a me dizer: Relaxa aí, tem gente mais nova pra levantar e dar lugar pra ela, você está cansado. Porém, no mesmo instante apareceu minha mãe bem no centro da “consciência”, e olha que ela já morreu, mas eu a vi perfeitamente a falar: Levante e dê seu lugar para a senhora sentar. Então, entabulei um diálogo com mamãe: Mas, mãe... estou cansado. Ela devolveu, como sempre: Não quero saber, não discuta comigo e não seja teimoso. Eu não te ensinei a ficar sentando enquanto os mais velhos estão em pé. Levante e dê seu lugar pra ela. Mãe, a senhora já morreu, deixa de me assombrar. Ah, ela ficou aidna mais nervosa, como sempre, mesmo morta a baixinha é danada: Levanta agora!
Não adiantava discutir. Tive que levantar mesmo cansado e dar lugar para a senhora sentar. Minha mãe estava bem empregnada em minha consciência. Entretanto, cheguei em casa cansado e culpando minha mãe por nunca ter me ensinado a ficar sentado enquanto os mais velhos estavam de pé no ônibus. Minha mãe chamava os mais velhos de “história viva”, tinha que ter uma dose a mais de carinho, segundo ela.
E não sei se foi pelao cansaço ou qualquer outra coisa que comecei uma sessão nostalgia sobre as lições de minha mãe. Teve o dia em que minha mãe me fez passar a maior vergonha da minha vida. Claro, eu jamais esqueci este fato e a culpo todos os dias por isso. Eu estava no armazém da dona Elza, lá no bairro da Lapa, em São Paulo, eu devia ter uns 5 anos, pedi um chiclete, o famoso Ploc Gigante, (quem lembra?) minha mãe consentiu. Todavia, ao invés de pegar um Ploc eu peguei dois. Dona Elza não viu, mamãe também não. Ao chegar em casa, eu disse vitorioso: Mãe, peguei um cliclete a mais, ninguém viu, nem a senhora, nem dona Elza. Ela me pegou pelas mãos, voltamos ao armazém de dona Elza, o chiclete foi pago e eu tive de pedir desculpas e prometer que jamais pegaria nada que não fosse meu. Meu pai, quando chegou em casa recebeu a seguinte notícia:
Hoje eu matei um ladrão! Ele quase teve um “treco”. Ela, porém, explicou a ele o que havia feito, “assassinado” com a educação um possível larápio. Ainda disse: o mal se corta pela raiz.
Eu a culpei por isso, por ficar sem brincar de bola e sem comer chocolate para aprender os valores da honestidade.
Como estou culpando-a agora pelos meus pés doendo e por não ter me ensinado a ficar sentado no banco do ônibus enquanto os mais velhos estão de pé.
É como diz o ditado:
Os pais não ensinam, o corpo padece!


Wellington Balbo
Enviado por Wellington Balbo em 15/11/2018
Código do texto: T6503541
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Sobre o autor
Wellington Balbo
Bauru - São Paulo - Brasil, 46 anos
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