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A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira

A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira
Prof. Dr. Jayro Luna (Jairo Nogueira Luna) – UPE/Garanhuns

1. Introdução: O Rei e seu Castelo
O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889), antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815), acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822), terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole, uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras alianças familiares com as famílias da Áustria, da França, da Espanha e da Inglaterra inclusive. No Brasil o Cond’Eu  e a imperatriz Teresa Cristina  eram, entre outras pessoas, a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa.
Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português, temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se devem exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil, temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. No imaginário cristão, Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos, no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal, mas sim o reino de Cristo. A propósito de Dom Sebastião, a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino, de origem portuguesa, encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. No Maranhão, em Goiás, em Minas Gerais, em Pernambuco entre outros estados, ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo.
De fato, uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro, em que já se pese mais de um século de período republicano, que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais, políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico.  Pelé é o rei do futebol, Roberto Carlos, foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude”  e hoje, já um pouco passado na idade e no estilo musical, ainda apresentado simplesmente como “o Rei”, Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”,  Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva, o “Rei do Samba de breque”. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. Basta alguém se destacar numa arte, ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. O carnaval, uma das principais manifestações populares do Brasil, se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei, o Rei Momo. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. Tendo como marca a basófia, a pilhéria, a crítica sarcaz e a alegria desmesurada.
Para fins comparativos, basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade, também, dominada pelo imaginário cristão, tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. Na cultura norte-americana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão, arte ou função parece não ser a mais usual. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”, “the magic”, “the big”, “the star”. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. A palavra “king” como adjetivo, vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo, ameaça e que se caracterize como algo do exterior; assim é caso do King Kong. The King of Crime (1914), de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus, mas tão somente um estado de exílio. Por outro lado, Jesus Christ é o “King of the Kings”, o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White, Anglo-Saxonic and Protestant).
A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norte-americano. No caso do Brasil, sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. Havendo uma continuidade entre o governo de D.João VI e o reinado de D.Pedro I, ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano, substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento francófono, da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães.
No Brasil, tanto no âmbito culto e erudito, quanto no popular e folclórico, a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985), de Fábio Barreto, com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier, que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção.  Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho, Romário e Túlio).  Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo, tanto podendo ter um sentido pejorativo, quanto positivo, dependendo de seu contexto.
Por sua vez, o Castelo é o lugar do rei, seu âmbito natural. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico, uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval, ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante.
O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca, de um alto dignitário do poder eclesiástico, de um chefe de estado etc.”. O Dicionário tem o signficado primeiro semelhante ao Houaiss, acrescido de que o castelo é “Praça forte, com muralhas, fosso, barbacã, etc.; fortaleza.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca, de um alto dignitário eclesiástico, de um chefe de governo”, sem portanto, destacar a suntuosidade, como faz Houaiss, embora isso fiquei implícito pela designição de “residência de um monarca”. A enciclopédia on line Wikipédia, define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada, com funções defensiva e residencial, típica da Idade Média. Fortificação de tipo permanente, era geralmente erguido em posição dominante no terreno, próximo a vias de comunicação, o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias.” Sobrer sua origem, de “castellum” (latim), se referia a uma torre de vigilância, cercada por torre e um fosso. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres, inclusive reis, como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques, além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha.
Por sua vez, o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo, uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio, no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. Uma torre, por exemplo, no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação, para realmente ser admirada e vista de longa distância, ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente, em primeiro lugar, permitir aos acastelados olhar à longa distância. O aspecto defensivo do palácio é diminuído, substituindo-se, por exemplo, a necessidade do fosso e das muralhas, por amplos jardins, fontes e espelhos d’água. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média, ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas, confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano, ou quando não, que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina, isolando-se assim do contexto urbano ao redor. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano, em geral, não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa, mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade.
No caso do Brasil, a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. Cidades como Petrópolis, Teresópolis, além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios.
No entanto, eventualmente, podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas, no mais das vezes, nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur, de Carlos Magno, de Dom Dinis e de Dom Sebastião, entre  outras, além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia), bem como das figuras de Drácula, de Frankenstein, entre outras personagens similares, criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. Na pintura romântica brasileira, podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor, conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira, se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu.
Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio.
O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil, ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem, se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido, porém, de fato, não pertencendo a qualquer momento real desse passado, estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento.

2. Os Castelos do Brasil

Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras, o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”, tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil, tanto pela família real, quanto pela nobreza de barões, condes, viscondes e duques. Ainda se acresce a eles, os palácios e palacetes da aristocracia do café, da cana-de-açúcar, do tabaco, do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. Porém, o título está correto, de fato, escrevemos apenas sobre os castelos, seguindo a definição que propomos na introdução desse texto, com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. Ou seja, embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval, alguns construídos com material (pedras, madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade, como se fosse possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. Não comentaremos de todos os castelos, mas nos prenderemos a quatro castelos em especial, tendo em vista, que para nosso propósito, eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão, são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ), Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS), Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE).

2.1. Castelo Itaipava, o maior castelo medieval do Brasil.

Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense, o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. Smith de Vasconcelos, descendente de família nobre inglesa e portuguesa. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa, telhas de ardósia francesa, ferragens inglesas, vitrais austríacos e pisos de mármore italiano), curiosamente alguns elementos, como determinadas portas, escadas, colunas e forros que foram talhados na Europa, foram feitos em jacarandá, madeira natural do Brasil. Para o transporte do material, o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina, tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo.
Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto, terminado em 1920, a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924, Rio de Janeiro. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos, 7 banheiros, diversos salões, bibliotecas, sala de música, halls, duas torres, terraços, dependências para hóspedes, ala dos serviçais e galerias. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. A beleza de sua estrutura, de seus aposentos e salões, aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta, cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais.
Fruto, talvez, de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889), o barão J. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história, criando um espaço mágico, porém, não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia, com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento, ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal, transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais, mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos, mesmo que montados e/ou anacrônicos, mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação.

2.2. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas

Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904, o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana, lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras.
A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. Chefe da Revolução de 1923, Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado, o qual havia exercido por mais de 30 anos. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz, assinado no próprio castelo.
Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra /  Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra; / O livro que amanha a alma.” Contendo 44 cômodos, com móveis, estilo colonial, importados de Nova York, que acomodaram políticos, revolucionários e intelectuais. Um enorme relógio, que pertenceu a Bento Gonçalves, o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). Cada objeto conta alguma história. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça, argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes"
Este, pois, é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul, bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil.  Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história, nesse sentido, o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca, na janela quebrada, nos corredores, tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval:

“A paz de Pedras Altas, entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses, mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893, que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou, por isso, a preocupação em todo o país.”
(ZAVASCHI, Olyr.  Zero Hora, Porto Alegre, 25-11-2003 página 54.)

Desse modo, o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. Antes, o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. Ao viajante, menos consciente desses aspectos históricos, de imediato, a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo, o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. Porém, ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali.

2.3. Castelo Lacave, o castelo do vinho.

O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. Descendente de uma família nobre espanhola, e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI, resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. Demorou dez anos a construção do castelo, em pedra, segundo o padrão característico da construção de castelos. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos, ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. Terminado em 1968, seria a sede da vinícola Chateau Lacave.
Em 2001 a vinícola mudou de dono, passando à família Basso, e depois de uma reforma e recuperação, foi reaberto à visitação em 2004, tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul.  O visitante lá conhece não apenas o castelo, mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média, como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média.
Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias, móveis, objetos, armaduras e pinturas semelhantes às da época. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira, escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. Para dar o clima de realismo, há até armaduras.
Ao entrar, os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos, com ambientação pré-renascentista, passando para a Sala das Cruzadas, Salão das Bandeiras, Sala dos Barris de Carvalho, as caves de armazenamento de vinhos, o local de recepção de uva, a taberna e varejo. Além da visita histórica, os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar.
Possuindo um restaurante, além da taberna para degustação de vinhos, somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval, o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. Aqui a história é uma representação, um espetáculo que encena a história medieval européia. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição, de história e de mistério antigo, ainda que apenas como espetáculo ou como representação. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho, o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial, quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968, ou seja, não mais que 40 anos. Assim, como empreendimento é um sucesso, o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. É assim, um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil, confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico.

2.4. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE)

O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano, no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. De fato, a suntuosidade não existe nesse castelo. Fruto do sonho de um eletricista, sem posses, que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. Ainda em construção, iniciada há 17 anos, conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local, à beira da Br-423, ou quando do Festival de Inverno da Cidade, a festa mais importante de Garanhuns, em que o local é alugado por modestos 200 reais, para se transformar num restaurante temático. Incluído já no roteiro turístico da cidade, o Castelo de João Capão, se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. O construtor foi apelidado de Capão, porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”, daí o apelido de “capão”.
O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor, desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese, a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América, em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia, em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. Ao assistir as fitas de cinema, João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico.
O castelo, porém, carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos, o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados, é na verdade, em termos estruturais e estéticos, uma caricatura quase kitsch de um castelo. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval, por dentro, esta impressão vai se desfazendo. O banheiro, por exemplo, com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média, ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal, e o acúmulo de símbolos desconexos, como os ramos cruzados à entrada do castelo, além de algumas paredes rebocadas, vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch, assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas, misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. Lembra também, alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão, porém, não o desmistifica, pelo contrário, é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. O conflito entre nossa herança européia, ameríndia e africana, ainda em processo de acomodação.
E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão, construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural, situado no centro da cidade, na Avenida Santo Antônio, tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza, assim como centro político da cidade, localizado na área mais comercial da cidade, entre lojas e bancos, é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental.
Assim, quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão, temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder, mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente, que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural, ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura.
Lembremos, para exemplificar com a literatura, do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura, do caos simbólico entre realidade e sonho, que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOLANDA, Aurélio B. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004.
HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo, Objetiva, 2004.
GODOY, Márcio Honório. Dom Sebastião no Brasil. São Paulo, Perspectiva, col. Khronos, 2006.
JUNG, Carl. G. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. Buenos Aires, Paidos, 1970.
________. Psicologia e Religião. Rio de Janeiro, Vozes, 1978.
SPERBER, Dan. O Simbolismo em Geral. São Paulo, Cultrix, 1978.



Jayro Luna
Enviado por Jayro Luna em 27/09/2007
Reeditado em 27/09/2007
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Jayro Luna
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