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MEU BLOG 'SÓ POR HOJE' - "AO COMPLETAR 21, PREPARE-SE!"

Lembro-me de quando tinha meus 18, lá pela década de 30, e dos sonhos em ser uma grande bailarina ou uma professora dedicada aos alunos ou, ainda, ingressar na Marinha Mercante e ganhar rios de dinheiro e, de quebra, conhecer o mundo.


Lembro-me de ter meus sonhos frustrados por diversos motivos e, lembro-me com muita nitidez da figura austera de meu pai a me dirigir indiretas de que eu já não seria uma criança, logo, deveria ajudar nas despesas de casa. Deveria devolver, com trabalho, o que eles investiram em mim. Como se eu não tivesse estudado, durante toda minha vida, em escolas públicas. sempre sozinha, com meu próprio esforço e sem incentivo algum.


Eu era uma menina boba, inexperiente e cheia de sonhos. Uma menina que ainda não havia completado 21 anos. Sentia-me uma intrusa em minha própria casa e não recebia de minha mãe alento algum. "Vagabunda aqui dentro da minha casa não!"


Ah! Não posso mentir porque ela já partiu. Não posso. Fez o que pode, mas...não deu. Ei! O tema aqui não é a minha mãe e seu jeitinho doce em me tratar ou meu pai e aquele jeito tosco que ainda persiste. Não.


Trata-se da cobrança que recai sobre os ombros dos jovens que, aos 21, ainda incipientes e igualmente CHEIOS DE ESPERANÇA são julgados e condenados por uma sociedade cruel que os classifica como VAGABUNDOS caso não estejam bem empregados E cursando uma ÓTIMA faculdade.


Em tempos de transtornos mentais, meu bem, isso é um tiro na cabecinha deles. Siga esses passos, recrimine seus filhos. Grite com eles, chame-os de vagabundos, ponha-os para fora de casa. Humilhem, pisem, destrocem seus corações ainda cheios de esperança e não se atrevam a chorar diante de seus corpos pendurados por cordas nas hastes de ventiladores ou barras de exercícios. NÃO SE ATREVAM, SEUS PORCOS! Não se atrevam...


Conheço isso de perto. E, sabe qual a minha vantagem? Ter a mesma doença que a de meu filho. Eu o compreendo e sofro por ele. Sou mais forte por conviver a mais tempo com a 'Dona Depressão". Ela me ensinou que, quando o vejo calado, corpo curvado sobre os livros ou computador, olhos vagos e tristes, devo me afastar e esperar que ele me procure. O que raramente acontece porque seu cérebro o afasta de quem  poderia ajudá-lo, incitando-o ao desespero, à solidão, aos pensamentos sombrios de que nada, absolutamente nada que ele tentar levar adiante trará benefícios ou surtirá efeitos.


Eles se escondem em seus quartos. Evitam o contato com pessoas porque pessoas são más, cruéis e hipócritas. - "Seu filho tem quantos anos? Vinte um!? Já tá trabalhando, né???"


NÃO, FILHA DA PUTA! TOMA CONTA DO TEU MARIDO QUE CHEIRA PÓ NO TELHADO DA TUA CASA! (perdão...desabafei.)


Dói ver alguém que se ama tanto sofrer sem ter a menor noção de como se defender de si mesmo e desses monstros espalhados por aí, nos becos imundos da cidade.


É normal que eles não levem adiante seus projetos. É normal que durmam mais do que consideramos normal. É normal a ausência deles, ainda que seus corpos estejam ali, ao seu lado. É normal, mas não é saudável.

Estão doentes e o mundo os classifica como PREGUIÇOSOS, RELAPSOS, IRRESPONSÁVEIS, VAGABUNDOS porque nos tempos de seus avós, estes já estavam na labuta desde pequeninos. E isso é dito com tanto orgulho! Aquele orgulho podre de quem deveria sofrer, ao menos, por um dia, o que eles - os filhos dos Transtornos Mentais em Tempos de Guerra - sofrem minuto após minuto, trancafiados em seus quartos ou dentro de si mesmos.


É raro romper as barreiras que eles mesmos constroem em seu entorno, mas, quando isso acontece, quando há uma brecha, eu pulo para dentro do mundo dele e, emocionada, mostro a ele que não é um fardo para mim ajudá-lo financeiramente. Não é um fardo para mim pagar pelo que ele ainda não pode pagar. Como exigir dele algo que está fora de seu alcance? NÃO! Isso não é passar a mão na cabeça dele e deixá-lo desfrutar de uma vida de regalias, isentando-o de responsabilidades. ELES SABEM O QUE QUEREM. TÊM UM ENORME POTENCIAL. Maior do que o que a minha geração jamais tivera.


São autodidatas, visionários, geniais! Faltam-lhes a fé em si próprios. A fé que é roubada pela doença e pelos fatos horrendos que os alimentam através da mídia nojenta que se alimenta da dor e do sangue alheio.


DESCONECTE-SE DO MUNDO EXTERIOR E DE SEUS HORRORES.


Disse ao meu filho que nada...nada me fará desistir dele. Fiquei feliz em poder dizer isso. Sinto-me culpada por ter transmitido o gene da depressão a ele. Será que fui eu? Ele se culpa por ser um fardo em minha vida. BOBINHO! PARE JÁ COM ISSO!


"A única coisa  que pesa em mim é te ver se arrastando pela casa quando eu sei que o seu futuro é brilhante. O que invisto em vc é dado com amor, sem esperar nada em troca."


Vc vai encontrar seu caminho e eu, prometo, não te cobrar nada. Sou sua mãe e o serei para sempre e mães fazem isso. Apoiam, amam, lutam por seus filhos e, creia-me, não vou deixar vc se afundar, filho. NÃO MESMO! NÃO SE ATREVAM A TOCAR NELE como o fizeram comigo!


Não vou repetir os erros de meus pais...não desta vez.


EU-ACREDITO-EM-VC.


Aos jovens que se sentem uma 'bostinha' por não conseguirem alcançar seus objetivos: NÃO PAREM! NÃO DESISTAM! NÃO OUÇAM AS VOZES QUE PRAGUEJAM! NÃO SE DEIXEM LEVAR PELAS OFENSAS!


"São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?"


VENÇAM! VIVAM!

"WE WILL WE WILL ROCK YOU"


https://www.youtube.com/watch?v=-tJYN-eG1zk



Pais, compreendam. Calem-se. Ouçam. Apoiem. Não os empurre abismo abaixo.


15-10-2019

Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 15/10/2019
Código do texto: T6770560
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 52 anos
113 textos (1197 leituras)
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Morgana Milletto