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O “MIRAR” PSICOPEDAGÓGICO: RESSIGNIFICANDO OS VALORES DO PROFESSOR, DESPERTANDO ”O HUMANO DO HUMANO”

RESUMO

A relação do adulto com o jovem ou criança, tem grande influência no desenvolvimento cognitivo e afetivo-emocional, especialmente quando este adulto ocupa um lugar de poder, como é o caso da relação professor/aluno. A qualidade desta relação irá influenciar de forma positiva ou negativa o processo de ensino-aprendizagem, bem como as vivências pessoais que se constituirão nas bases da identidade social desse jovem em formação. Acreditamos que para superar esse vicio, que decorre da nossa cultura, sejam imprescindíveis o autoconhecimento e a re-significação dos valores do professor que se faz educador, que se faz autor e que tem o desejo de suscitar a autoria do educando. Segundo Morin (2002) através do amor podemos escapar da morte da humanidade, do homo ludus, poesis... É, na solidariedade do amor que se torna possível uma relação cordial com o outro. Pela simpatia e projeção/identificação com o outro que é possível a compreensão. A força do amor humano alimenta todas as fontes imaginárias e enche a vida real da poesia. O ser humano não vive só de pão, vive de amor e poesia. Vive de união, cooperação, flores, sorrisos. O estado poético do amor nos dá a esperança de superar os nossos próprios limites, de sermos capazes de comungar com que está além de nós. O educador que compreende qual é o sentido, o sentir, que valores como solidariedade, fraternidade, confiança, respeito e amor têm, germinará a possibilidade de despertamos para a consciência da humanidade da humanidade.



A relação do adulto com o jovem ou criança, tem grande influência no desenvolvimento cognitivo e afetivo-emocional, especialmente quando este adulto ocupa um lugar de poder, como é o caso da relação professor/aluno. A qualidade desta relação irá influenciar de forma positiva ou negativa o processo de ensino-aprendizagem, bem como as vivências pessoais que se constituirão nas bases da identidade social desse jovem em formação.

“O educador olha e interage com o homem - que pode ser seu aluno - em seu contexto, na sua diversidade, em seu devir. O professor vê seus alunos em sua disciplina. O educador é movido por sua vocação no seu campo de trabalho, na vida, enquanto o professor atua somente em sua profissão, mas que também não pode se escusar de atuar com a ética, a sinceridade e amor”. (Freitas, 2000: 33).



A esse respeito o mesmo autor nos afirma que na maior parte do tempo, nós professores:

“Educamos: para norma, e não para o amor; para a regulação das prisões, e não para o respeito à liberdade; para a apatia, impotência e conformidade, e não, para a autonomia, auto-estima e a necessidade de sonhar. Resultado: sofremos com tanta segregação, racismo, solidão, conflitos”. (2000: 28)



Acreditamos que para superar esse vicio, que decorre da nossa cultura, sejam imprescindíveis o autoconhecimento e a re-significação dos valores do professor que se faz educador, que se faz autor e que tem o desejo de suscitar a autoria do educando.



Re-significando valores, construindo novos caminhos.



Con-fiar...



Um dos elementos constituintes de uma boa relação educador/educando é o valor “confiança” que vem do verbo confiar, fiar-com. Quem confia com o outro fia, tece os caminhos da teia da vida. A vida humana se faz em teia. Somente construindo fios e pontes que nos unem ao outro podemos sair do nosso próprio casulo, do saber que nada se sabe só, que criam nós e caminhos que não levam a lugar nenhum.

Confiar é verbo. Um verbo que só se faz ação quando ao outro eu dou a mão.

Quem confia acolhe, traz o outro para si e juntos significam os caminhos da vida.

Ninguém aprende aquilo que não apreende, aquilo que não acolhe. Apreende-se aquilo se que colhe e traz para si. Eu aprendo aquilo que apreendi em mim, aquilo que colhi, signifiquei e em mim, acolhi.

Para aprender e apreender precisa-se colher e acolher. Mas, para o acolhimento precisa-se confiança... con-fiar. E, para confiar é preciso acolher. Despir-se dos medos dos espinhos, colher e acolher as rosas...

Pelo acolhimento, juntos, professor e aluno unidos por laços de confiança e respeito, solidarizam-se através do amor fraterno e tecem os caminhos que levam ao bem maior da vida: o conhecimento. Assim,

Para confiar é preciso respeitar...



Respeitar...

Respeitar é retomar a nossa raiz. Quem respeita sente-se como parte do todo. Respeita a si mesmo porque compreende que contém o todo em si e ao todo pertence. É um ser raiz do universo. O que lhe atinge ao todo atinge.

O educador que respeita permite a seu aluno apropriar-se de um conhecimento e fortalecer seu ego na medida em que constitui uma personalidade mais segura e responsável. Assim, esta criança domina a realidade, torna-se sujeito desta realidade, compõe sua autoria, Pain (1996).

Quando o professor aprender a respeitar e a respeitar-se, alargando seu olhar e adquirindo consciência dos próprios pré-conceitos, será possível conceber sua própria autoria e promover no seu aluno a possibilidade de ter seus próprios pensamentos.

Para respeitar é preciso desprendimento e acordar para um mundo que não existe somente em mim, mas traz para mim o significado de minha singularidade pela solidariedade...



Solidarizar...

Solidarizar... é aquecer o outro com o olhar do seu coração. Solidarizar é ter os mesmos sonhos e valores universais que criam a possibilidade de “co-munhão”. Ao compartilhar os mesmos sonhos descobrimo-nos irmãos através da fraternidade do amor.

Solidarizar é tornar sólido. Quando solidarizamo-nos tornamo-nos consistentes, unimos forças, fiamos caminhos. Encontra-se sentido em sentir-se como parte do todo. Pela solidariedade retornamos a nossa essência, tornamo-nos essência, religamo-nos ao todo, à teia da vida.

Não se ensina ou se ordena o outro a ser solidário. Somente se pode fazer brotar e crescer as sementes da solidariedade pelo compartilhar, pelo partilhar com o outro os sentimentos que estão contidos na morada de nossa alma: o coração.

A solidariedade nos torna humanos. O olhar do outro outorga nossa própria identidade humana e assim, reconhecemos nossa essência, o nosso valor.



“A solidariedade é a forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade o meu corpo passa a ser morada do outro. É assim que acontece a bondade”. (Alves, 2000:207).



O contrário da solidariedade é a solidão. Deixamo-nos sozinhos em nosso próprio mundo porque as pontes que construímos não foram solidificadas e desmoronaram-se no egoísmo de sonhos não compartilhados...não realizados. Tornamos nosso mundo vazio.

Um sonho sonhado sozinho é apenas um sonho, mas um sonho solidarizado, compartilhado, acreditado, é um sonho realizado.

Pela solidariedade unimos forças, continuamos gestando nossos sonhos, voando... crescendo, dividindo e multiplicando, parindo nossa autoria e a autoria de quem acolhemos. Juntos tecemos pelos caminhos de amor fraterno...



Fraternizar...

Con-fraternizar é ligar-se ao outro por laços de amor. Fraternidade é compreendermos nossa necessidade vital de estamos abraçados uns aos outros para podermos alçar vôo. Pela fraternidade temos a compreensão que somos todos irmãos, pertencemos a uma só raça: a raça humana.



Compreender...

Preender-com. Quem compreende prende o outro em si. Percebe o outro como parte de si próprio. Compreender é transcender o olhar para além do que se olha.

Quem fraternalmente, amorosamente compreende, gesta o saber: A ciência que nasce do amor, que vem do ”mais dentro”, que vem da alma que ama.



Morin, em sua sapiência octogenária nos ensina que é necessário a autocompreensão pelo autoconhecimento. Podemos pela compreensão: na simpatia, na amizade, no amor, introduzir e integrar o outro em nosso eu. Na intersubjetividade, produze-se a convivência com a possibilidade de compreensão que permite reconhecer o outro como outro sujeito e senti-lo, eventualmente, no amor, Morin (2002).



Precisamos olhar o outro, do olhar do outro... para recriarmos a compreensão de nossa individualidade, identidade, singularidade, humanidade...Pelos caminhos do amor...



Amar...

Neste momento atual da contemporaneidade, diante de tantos conflitos, desordens e destruições, não podemos mais sonhar com um paraíso na terra. Temos sim, a possibilidade de esperarmos...



“(...) um mundo menos terrível, menos cruel, podemos esperar uma humanização, podemos humanizar e civilizar nossa Terra.

Tudo isso pressupõe, ainda, a religação. Ela é uma necessidade vital para o pensamento, para o desabrochar dos seres humanos, que precisam de amizade e de amor e que, sem isso, definham e se amarguram “. (Morin, 2003:53)”.



Morin (2002) profere que através do amor podemos escapar da morte. Não da morte do corpo, mas da morte da humanidade, do homo ludus, poesis... É, na solidariedade do amor que se torna possível uma relação cordial com o outro. Pela simpatia e projeção/identificação com o outro que é possível a compreensão. A força do amor humano alimenta todas as fontes imaginárias e enche a vida real da poesia. O amor traz a consistência da sabedoria e da loucura, faz-nos sustentar o destino, faz-nos amar a vida. O ser humano não vive só de pão, vive de amor e poesia. Vive de união, cooperação, flores, sorrisos. O estado poético do amor nos dá a esperança de superar os nossos próprios limites, de sermos capazes de comungar com que está além de nós.



“Sem o amor tudo nos seria indiferente-inclusive a ciência. Não teríamos sentido nem direção, não teríamos prioridades (....) mas a vida, toda ela, é feita com decisões e direções - de valores- (grifo nosso). Essas direções de decisões são determinadas pela relação amorosa com os objetos.” (Alves, 2000:113)



O saber engravidado pelo prazer de compreender, colher, acolher, confraterniza os frutos dos conhecimentos que fiamos juntos por gestos solidários de amor, faz parir nossa autoria, traz mais vida para a vida.

O amor vem de uma inacreditável força da vida que transfigura a vida.

O amor liga-nos ao outro restituindo a nós mesmos. (Morin, 2003).

A cor e o valor do mundo depende do nosso olhar e de nosso amar...

O mundo ao meu redor são luzes dos meus pensamentos, de minha autoria...

O educador que compreende qual é o sentido, o sentir, que valores como solidariedade, fraternidade, confiança, respeito e amor têm, germinará a possibilidade de despertamos para a consciência da humanidade da humanidade. Então, fiaremos juntos uma nova ciência com consciência, encontraremos nossa identidade humana.



“Os homens não têm de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!” (Exupéry, 70).



Assim, vamos ensinar pelos caminhos do amor. Cativar nossos alunos para vejam o que é essencial: a essência humana, o valor da vida. A vida com valor: a vida vivida com amor!



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MARIA DOLORES FORTES ALVES É Professora, Pedagoga, Psicopedagoga. Escritora, Palestrante, Conferencista, Doutoranda em Educação pela PUC/SP; Mestre em Educação: Currículo pela PUC/SP; Mestre em Psicopedagogia; Pós Graduação em Distúrbios da Aprendizagem pela Universidade de Buenos Aires; Especialista em Educação em Valores Humanos pela Fundação Peirópolis; Pesquisadora de Educação em Valores Humanos, Inter e Transdisciplinaridade pela PUC/SP e Fundação Peirópolis; autora do livro “De Professor a Educador: Contribuições da psicopedagogia: ressignificar valores e despertar autoria.” e “O Vôo da águia: uma autobiografia” todos pela WAK. mdfortes@hotmail.com
Site pessoal: www.edupsicotrans.net.
Maria Dolores Fortes Alves
Enviado por Maria Dolores Fortes Alves em 06/10/2007
Reeditado em 29/11/2008
Código do texto: T683209

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Sobre a autora
Maria Dolores Fortes Alves
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