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Deus está no leme

"Deus é a evidência invisível."
Victor Hugo



Fé é idéia muito antiga.
Desde os primeiros registros humanos podemos encontrar esta palavra e seus significados.
Repetidamente a usamos para expressar a nossa certeza em algo ou alguém ou para pedir a outros que se convertam e que pensem como nós.

Ter fé é ter certeza; é considerar que apesar dos ventos contrários, algo deverá acontecer e fazer com que o melhor se realize - mesmo quando este melhor nos pareça, momentaneamente, muito pior.

Caro leitor, você já se deu conta de que muitas vezes algo que é bom para o nosso desenvolvimento vem disfarçado de um ou vários acontecimentos ruins? Só com o passar do tempo é que compreendemos como foi importante cada experiência difícil em nossas vidas – mesmo as mais doloridas. Mas claro que estas reflexões acontecem apenas com aqueles que não ficam perdendo seu tempo com lamúrias intermináveis, diante das adversidades. Só os que tentam buscar os ensinamentos dentro das dores é que podem realizar este tipo de avaliação, que, aliás, considero de extrema importância. Ter fé nesta realidade é condição fundamental para que possamos seguir adiante, sem medo de injustiças, que certamente nunca acontecem, uma vez que Deus está no leme.

Porém, existe uma fé que é muito perigosa. Seu nome é fé cega.
Cuidado! Este tipo de fé pode castrar, ferir ou ainda, matar.

Fé cega é aquela que pune quem não pensa e se comporta como ela ordena. Leva homens e mulheres ao crime contra outros ou contra eles mesmos. Em seu nome muitos corrompem, perseguem, sufocam, tiranizam. Trata-se, em alguns momentos, de uma verdadeira violência simbólica – uma forma de coação que se apóia em crenças e preconceitos coletivos. Os indivíduos são forçados a se enxergar e a avaliar o mundo seguindo critérios e padrões dos dominantes.

Conheço as mais variadas formas de fé cega – algumas mais perigosas, outras menos. Praticamente todas elas admitem a existência de Deus, louvam Sua presença no mundo, posicionam o Pai Celestial como sendo Perfeito (portanto Justo e Bom), porém, as atitudes deste Criador são as mais variadas, de acordo com as religiões vigentes e denotam falta de uso da razão diante de certos pressupostos básicos.

Para alguns, Deus é um verdadeiro legislador da pesada. Não perdoa os infratores. Sem dó nem piedade, joga no fogo eterno, nas garras do “coisa ruim”, todos os que agem de forma contrária às suas leis. Interessante que meu pai terreno, um homem simples nascido no interior de São Paulo, cheio de defeitos e qualidades, tem uma piedade muito maior pelos seus filhos.

Outros crêem num Deus bom apenas para quem nasceu em certa localidade, na Terra. Aliás, sequer admitem que existam outras criaturas no Universo (ou Universos, como a ciência têm nos mostrado). Interessante a parcialidade deste Pai que escolhe alguns eleitos em detrimento de outros.
Existem, ainda, os que acreditam num Deus muito parecido com um lanterninha de cinema. Ele vigia cada passo de seus filhos: vê quando eles cortam os cabelos, quer saber se eles jejuaram conforme manda a tradição, está atento aos namoricos mais calientes, inspeciona a forma como se vestem, etc. Certamente Ele também quer saber o que vai no coração dos homens, mas este detalhe é apenas mais um dentro de muitos outros, não menos importantes.

Não estou aqui para julgar tais crenças, mesmo porque todas elas são muito válidas, desde que consigam cumprir com o seu papel que é a transformação do homem em um ser melhor, mais espiritualizado, menos instintivo.
O que chamo a atenção neste artigo é ao fato de que esta mesma fé que pode auxiliar a muitos no processo de burilamento intimo, também pode vir a se tornar uma arma perigosa. É como certo veneno que quando ingerido em pequenas doses atua como medicamente salutar, porém se ministrado em grande quantidade, torna-se fatal.

É o tipo de fé que cria preconceitos, desigualdades, marginalizações. É contraditória porque a ciência está incessantemente mostrando outras verdades, contudo suas lentes embaçadas não desejam enxergar sequer as provas mais contundentes. Afirma que o Pai é Perfeito, porém suas obras são imperfeitas (?). Como um Pai Soberano poderia criar seres eternamente voltados ao mal, como se tivessem um chip defeituoso de fábrica, sem chances de mudança? Por que um Pai amoroso agiria com parcialidade? Em que momento passamos a conceber que Ele estaria desatento, deixando esta embarcação chamada Terra à deriva?

Precisamos reavaliar nossas crenças. A partir do momento em que aceitamos um Pai Onipotente, Onisciente, Onipresente, Justo e Bom, não podemos mais admitir que Ele nos permita sofrimentos injustos. Não podemos mais aceitar a idéia de que Ele tenha criado algo em vão. Nem nós, nem a natureza, nem todas as formas do Universo.

Tudo é força, tudo é vida, tudo é evolução.
Só quando nos dermos conta de que o Pai é o Grande Comandante desta nau maravilhosa e nós os marujos aprendizes, aspirantes à Mestre, o mar se tornará menos revolto. Mesmo diante das tormentas ocasionais, estaremos firmes com Ele, cientes de que este grande Comandante sabe o que faz, portanto, tudo visa o nosso bem.
De nossa parte precisamos trabalhar pelo progresso de todos. Não há embarcação que consiga atingir seu objetivo com marinheiros individualistas. Tudo tem de ser pelo coletivo. Todos precisamos colaborar para que esta embarcação escolar, que nos recebe à bordo com tanto desvelo, seja muito bem cuidada.

Só assim conseguiremos nos desenvolver plenamente e então desembarcaremos em porto seguro, prontos para novas viagens, rumo à perfeição
Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 11/10/2007
Código do texto: T689771
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (19480 leituras)
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Claudia Gelernter