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O CURADOR

         
     Eu estava lá.

     Devido ao convite de um amigo, fomos bem cedo para a mais uma sessão de cura que seria realizada naquele dia de sexta-feira, 24 de novembro.
     Já há muito tempo eu sabia da existência dele, fazendo suas operações e “milagres” na pequena cidade do interior, onde, depois de alguns anos, montara uma fantástica estrutura de atendimento a pacientes.
     Meu amigo pediu-me que o acompanhasse porque ele seria operado naquele dia e, na volta, não poderia expor-se ao esforço e muito menos estaria autorizado a dirigir seu veículo no retorno para sua cidade. Eu serviria de motorista durante o retorno para a cidade.

     Quando paramos o carro no estacionamento existente no local, para as pessoas que o visitavam, já passava das oito horas da manhã. Logo que descemos do veículo, fomos abordados por um conhecido do amigo de há muito tempo e em poucos minutos, ele trazia uma ficha vermelha onde eu li “primeira vez”.

     Depois de entregar-me a ficha, disse que eu aguardasse sentado, pois no momento oportuno seria orientado de como deveria fazer para participar da sessão daquele dia e fazer uma consulta com a entidade que se valia do veículo físico do médium que era a figura principal daquele lugar. Eu já  conhecia o médium desde o ano de 1976, quando o encontrara na cidade de Goiânia. Naquela época ainda não havia aquela estrutura montada. Ele ainda era um médium itinerante, sem lugar fixo.

     Enquanto tentava me ambientar com tudo o que eu achava novo, ia observando as figuras que iam desfilando sobre meu olhar de certo modo espantado, devido à diversidade cultural e lingüística que compunha o quadro que se desenrola sob minha visão.

     No páteo, no bar, nas calçadas e em todos os lugares, centenas de pessoas transitavam e iam compondo um mosaico multicolorido de etnias e culturas diferentes, que ali estavam, procurando, todas elas, uma só coisa: CURA.
     Enquanto eu aguardava, meu amigo desapareceu por uma porta que o levava ao local onde seria realizada uma cirurgia espiritual, para sanar um problema que ele estava enfrentando na próstata. Dias antes ele estivera no médico comum e fora constatado que havia certa irregularidade na próstata e mais que depressa ele procurara aquele local para tentar resolver através da medicina espiritual o problema físico.

     Sentado num banco de uma ampla sala, vi desfilarem pessoas de todos os tipos, desde as mais comportadas bem como aquelas que se poderiam dizer “peruas” e todas elas estavam ali por um único problema. A doença, as dores e sofrimentos haviam trazido todas elas àquele espaço, onde, mesmo sem entenderem uns aos outras por suas línguas diferentes, confraternizavam-se como verdadeiros irmãos. As fronteiras que os homens haviam criado, ali não existiam, todos eram irmãos e iguais, tanto em desejos como em esperanças.

     Um indivíduo se dirigiu ao microfone e, por mais de meia hora, expôs em vários idiomas todas as diretrizes da casa, bem como deveriam todos se portar ali, para receberem,  através do mundo espiritual e seus guias, a cura de que necessitavam.

     Eu, que imaginava que nada tinha, pois sempre me sentira bem, aguardava sentado como a maioria e imaginava o que falar  quando fosse solicitado pela entidade que iria me atender . Mas, durante a consulta, eu apenas ouvi.

     Alguns conversavam e de certa forma incomodavam aqueles que estavam sentados no salão, ouvindo as preleções do orador que depois de toda sua demonstração de conhecimento de idiomas, falou dos livros que se encontravam à venda os quais ajudavam na manutenção daquele lugar que  era, na realidade, uma estrutura fantástica.

     Eu, que havia ido até a cidade apenas como coadjuvante, passaria a ter meu papel, uma vez que também seria recebido pelo guia que incorporava no médium. Depois de passar pelo guia, este solicitou que me sentasse numa sala, que segundo ele, estava reservada aos médiuns e ali ficasse durante o tempo em que os guias do mundo espiritual iriam prestar a assistência aos que ali se encontravam.

     Sentei-me e ali permaneci por longo tempo, de olhos fechados e somente com meu pensamento. A sala, que estava lotada, deveria ter mais de cem pessoas com o mesmo objetivo e cada uma daquelas pessoas ficaram comigo lado a lado, quietos e mudos durante todo o tempo em que lá estivemos.

      O único som que de vez em quando se ouvia eram as recomendações dos encarregados que passavam orientações que visavam manter todos em profunda meditação e cada um deveria estar focando o seu problema para que os espíritos  operassem a devida cura.

     Quando, finalmente, solicitaram que nos retirássemos, eu parecia flutuar, estava leve e uma grande paz me invadira no momento em que ficara em meditação.
     Depois dali, seguindo orientação de outros que já estavam acostumados ao ritual de todos os dias, dirigi-me ao refeitório para tomar uma sopa de legumes, distribuída gratuitamente todos os dias, quando há pessoas ali procurando cura física ou espiritual.

     Enquanto ingeria a sopa, observei que pessoas de diversos países estavam ali, sentadas, um ao lado do outro, tomando a mesma sopa que eu também tomava. Estava realmente muito boa. Depois dali, fomos para um mirante e por lá ficamos longo tempo, sob a sombra de uma cobertura de telhas de barro, observando distâncias infindáveis, enquanto pássaros cantavam e saltitavam por todos os lados. Eles estavam ali para nos encantar com suas melodias.

      Concentrados e esperando a hora de nova sessão que sempre se realiza às duas horas da tarde, fomos chamados por um dos colaborares do médium, que nos conduziu à presença deste. Embora eu já o conhecesse, ele não deve ter-se lembrado de mim, uma vez que centenas de pessoas acorrem em sua procura todos os dias e já haviam-se passado trinta anos.

     Meu amigo, que tivera o privilégio de conduzir o médium àquela cidade, há muitos anos antes, foi recebido por este com muito carinho ao mesmo momento que este ia falando de suas aventuras pelo mundo até sua chegada ali naquele local, para, segundo ele, cumprir sua missão.

     Ficamos ali, ouvindo-o contar suas peripécias e parte de suas aventuras e desventuras, enquanto algumas pessoas que eu deduzi serem estrangeiras, por sua compleição física e mesmo por sua      tipologia, se aproximaram e ficaram ouvindo, tudo como se estivessem diante de um messias, tal era a satisfação e alegria de estarem ali naquele momento.

     Controversas à parte, eu particularmente não posso ter opinião contrária àquele ser humano que, apesar de tudo que se fala dele, naquele momento eu o ouvia e o observava como alguém realmente especial.

     Eu não podia julgá-lo e tampouco deveria, uma vez que não cabe a mim tal papel. Naquele dia, era apenas mais um dos tantos outros que vinham a sua presença, procurando alguma coisa tanto de ordem física como espiritual.
     Enquanto ele ia narrando fatos e mostrando pessoas relacionadas aos mesmos, alguns estrangeiros fotografavam. Aquele momento ficou registrando em alguma parte do mundo, nos países de origem daqueles que fotografavam.

     Quando ele finalmente se retirou para descansar, nós ficamos por ali mesmo, esperando a hora marcada para nova sessão de consultas e curas.  Depois das duas e meia, avisaram-nos que a demora era decorrente da espera que se fazia de um ônibus proveniente de São Paulo que se encontrava atrasado e as pessoas que estavam nele vinham para ser atendidas naquele dia. O ônibus havia quebrado no caminho.

     Finalmente, entrei na fila que se formava e mais uma vez iria passar pelo médium. Eu deveria estar ali naquele lugar e no horário aprazado. Depois da consulta, novamente sentei-me entre tantas pessoas que se encontravam ali e assim ficamos por longo tempo.

     Quando saímos da sala de meditaçã,o já passava das cinco horas. Meu amigo estava lá fora como fiel escudeiro, aguardando-me. Eu que viera ali para servir de motorista a ele e me prontificara a esperá-lo até o fim dos trabalhos, era  eu agora o esperado.

     Esse foi um dia, quando, analisando aspectos de pessoas de todas as partes do mundo que ali se encontravam, procurando alguma coisa que julgavam estar ali ficava mais uma vez reforçada minha convicção, que as fronteiras criadas são aberrações e deve desaparecer a fim de que, novamente os homens, irmãos que são, estejam uns ao lado do  outro, prestando o auxilio necessário aos que sofrem em qualquer parte do mundo e não sejam encarados como estranhos e sim como irmãos.

     As fronteiras dos homens são convenções, os laços de fraternidade tendem a crescer e só assim o homem poderá novamente retornar à casa de onde saiu um ao lado do outro, sem olhar a cor, o credo e as diferenças de língua. A estupidez humana, no entanto, tende a crescer e com tal acirramento a dor aumenta, pois aqueles que ajudam a provocar tal dor são em parte os responsáveis pelas cobranças feitas no mundo da matéria.

      Muitos encontrarão ali o que procuram, outros, no entanto, deverão retornar, frustrados por não alcançarem aquilo que procuravam. De qualquer forma, tudo serviu ao propósito de aproximação de pessoas diferentes num local tão especial. O carma de muitos não permite a transformação de uma noite para o dia os procedimentos de muitas outras vidas e de tantos desacertos.   Aqueles com consciência disso suportam e ainda agradecem, outros apenas irão dizer que tudo aquilo é uma grande fraude ou embuste.

     Eu não julgo e apenas observo, noto que apesar de todas as mazelas humanas, no momento de grande tribulação em que passa nossa humanidade, aquele local, assim como todo o Planalto Central Brasileiro tem uma grande missão, por isso já está sendo preparado bem antes do descobrimento do Brasil.

     Os portadores de problemas vieram com um propósito e mesmo que não consigam a cura, ainda assim estarão fazendo a tessitura de aspectos não físicos, entre as várias culturas e etnias que compõem a raça humana.

     Quando, finalmente chegarmos ao entendimento da finalidade de tudo, poderemos compreender que o sofrimento que temos seja físico ou  apenas espiritual, não é carga ou castigo, apenas uma oportunidade que o Criador nos proporcionou de podermos resgatar dores idênticas às que praticamos contra nossos semelhantes em algum lugar do passado.

     As portas do inferno foram fechadas e somente aquele que realmente desejar viver nele poderá abri-las e tão somente para si. O céu esperado e prometido por outras tantas denominações religiosas é apenas um sonho, que ainda irá realizar-se não num espaço extra-físico  qualquer e sim nesta mesma terra, quando todos os homens, livres, que tenham purgado  e expiado suas culpas derem-se as mãos e novamente caminharem juntos em todos os espaços, livres de fronteiras, religiões, línguas ou côr para o grande concerto de entendimento que somente será possível aqui na terra e especialmente no Brasil de todas as culturas .

     Enquanto isso não acontece, estaremos aqui quantas vezes necessárias até podermos resgatar cada dívida que assumimos, quando nós mesmos ousamos desafiar a Lei Maior.

     E, após termos expiado nossas culpas,  sem medo de um inferno dantesco que nos foi prometido ou mesmo um céu reservado a uns poucos, iremos entender que somos a experiência  e o pensamento  de Deus que está dando certo, mesmo que apesar disso não tenhamos consciência plena disso.





 25/11/06- VEM

Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 23/10/2007
Reeditado em 07/03/2009
Código do texto: T706899
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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