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Qual o pior crime?

“O poder e a lei não são sinônimos.
Na verdade, frequentemente são opostos e irreconciliáveis”.
Marco Túlio Cícero



Aqui em casa – assim como na maioria das residências dos brasileiros – temos televisão.

Tempos atrás ela nos servia para alguns propósitos muito interessantes: gostávamos de assistir novelas para passar o tempo, programas jornalísticos, shows musicais com artistas variados além de filmes com um conteúdo humano interessante.

Os anos foram se passando e muitos canais e programas foram sendo retirados do repertório familiar. Quando me dei conta, só víamos alguns poucos filmes ou documentários – e mesmo assim, raramente.

O motivo do nosso desencanto televisivo é o nível qualitativo dos programas exibidos em nosso país. A baixa qualidade da programação brasileira, com priorização ao vulgar e ao inútil, faz um verdadeiro desserviço à nação. Curiosamente ela vem trabalhando no sentido de piorar o que já está ruim: o nível cultural do brasileiro, além de manter sua alienação.

Mesmo os programas jornalísticos e seu sensacionalismo gritante desanimam os cidadãos. As poucas boas notícias, salpicadas ao meio de tanta porcaria parecem como minúsculas gotas de água no deserto.

Vale salientar que considero importante estarmos bem informados, porém nossa “peneira mental” precisa ser muito boa para dar conta do recado.

Como saída alternativa passei a ler mais notícias em jornais e revistas. Mas não tem jeito – é só abrir as páginas de qualquer diário impresso que as novidades são sempre norteadas pelos mesmos assuntos. Aliás, corrupção e hipocrisia estão mais na moda do que calça jeans com lavagem stonada. Nossos políticos andam dando verdadeiros shows de patifaria.

Fiquei atônita ao ler, nas páginas do Jornal A Folha de São Paulo, uma manchete lamentável: “Cabral apóia aborto e diz que favela é fábrica de marginal”. Num primeiro momento tive vontade de rir, mas logo passou. Franzindo o semblante, fiquei foi bem furiosa.

Vou fazer um esforço neste artigo e, apelando para o meu bom humor (que confesso, tem lá os seus momentos de enegrecimento) formularei uma inquietante pergunta: “Se favela é fábrica de marginais, Sr. Governador, o Congresso Nacional seria fábrica do quê?".

Sinceramente não saberia dizer se o que mais me chocou foi o discurso pró-aborto ou a fala que reproduz a naturalização da marginalidade, como se todos aqueles que são os excluídos dos benefícios sociais devido ao sistema cuja democracia só é vista nos discursos eleitorais, fossem criminosos. Ainda assim, que tipo de crime é pior? O que acontece por necessidade ou por sem-vergonhice e que em ambos os casos têm grande chance de ser punido ou o que é cometido apenas pelo segundo motivo e é imune às leis?
E ainda - quem é que se favorece com a existência desta realidade, tão desigual?

Devemos lembrar que o tema aborto vai muito além desta análise pontual e maniqueísta. Ninguém tem o direito de tirar a vida de um ser que sequer tem o direito de defender-se, ainda mais com a simples alegação de que ele “poderia” vir a se tornar marginal.

Não seria mais sensato promovermos mudanças sociais no sentido de darmos a estas pessoas condições dignas de sobrevivência?

São tantas perguntas, cobertas de pura indignação (que considero justa), mas que não nascem como um esforço de manutenção crítica. Não. Antes disso, como formiga incansável, desejo auxiliar a muitos no processo de conscientização sobre este mesmo sistema que nos domina e que se esconde por detrás de ideologias naturalizantes.

Essa massificação que serve aos interesses de alguns poucos, ainda ousa, em pleno auge da crise política deste país, apontar mais uma arma contra uma criança que está sendo gerada, retirando dela a ultima chance que teria de vir a se tornar alguém. O governador se superou quando propôs o crime para se tentar abaixar os índices de criminalidade (?).

Peço desculpas ao leitor pelas duras palavras e pela crítica entristecida. Não gostaria de ser apenas mais uma a alardear aquilo que está bem embaixo de nossos olhos...

Enquanto um número gigantesco de brasileiros diverte-se assistindo aos BBBs da vida, ou às novelas ilusórias, uma minoria sorridente continua - como diria o famoso Gerson - a levar vantagem em tudo.

Na esperança de que possas refletir melhor sobre o assunto, quero finalizar este artigo com uma citação feita pelo Exmo. Sr Presidente da República, o Sr Luis Inácio Lula da Silva, quando no lançamento do Programa Fome Zero: "Precisamos vencer a fome, a miséria e a exclusão social. Nossa guerra não é para matar ninguém - é para salvar vidas”.

Será?
Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 27/10/2007
Código do texto: T711885
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (19491 leituras)
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Claudia Gelernter