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Calheiros e os 40 Ladrões

O Tratado de Comércio de 1810, entre Portugal e Grã-Bretanha, dizia em seu preâmbulo: "..o Tratato se funda sobre as bases da reciprocidade e de mútua conveniência". Ora, parece que quase 200 anos depois, o "Tratado do Senado" está sendo construído sob o terreno da ética e da suposta justiça.
Os textos sobre o assunto estão em abundância. O Senado está sujo por excelência. Melhor dizendo, os senadores estão sujos por excelência. A grande mídia caiu em cima de Calheiros e dos 40 ladrões, crucificando-os, com a veemência de um eficiente discurso em prol do país. Fazem grandes discursos revoltados, revolucionários; como se o ocorrido fosse inesperado (este texto foi escrito após a absolvição de Renan Calheiros). Desde quando os nossos representantes são íntegros? Os NOSSOS representantes? Somos nós, afinal, íntegros?
O resultado daquela votação foi previsível. Renan Calheiros sabe coisas demais sobre seus companheiros. Coisas desse tipo aconteceram, acontecem e continuarão acontecendo. Quem se lembra de Roberto Jefferson? José Dirceu? Collor foi reeleito. Clodovil foi eleito. Robgol não estava muito satisfeito com o futebol; virou deputado. Frank Aguiar não aquele cara que canta forró? Que nada. Foi eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo. Esse quadro "singular" da política brasileira traz uma vontade deveras estranha: eu só queria que Bin Ladden conhecesse Brasília. Ah! Entretanto - como já deveríamos saber - apenas querer não é suficiente.
É necessário que se faça algo. O campo ideológico dos críticos entusiasmados é realmente lindo. Eu fico até emocionado. Quer saber? A culpa é do PT. A culpa sempre é do PT. É o Partido do Terror. Os petistas dominaram o Executivo e parte do legislativo: a culpa é do PT. A direita elitista se CANSOU do PT... Daqui a pouco não haverá em quem pôr a culpa! A culpa, meu amigo, é minha. E eu não sou do PT. EU não tenho partido: não sou um homem partido. Mas é culpa minha, eu admito. Talvez eu até me arrependa, mas não me livro da culpa de ser inerte. Eu continuo inerte. E é necessário que se faça algo além de falar.
A questão é: o que fazer? As passeatas são bonitas e representativas, mas na prática não demonstram mudanças no quadro político. Escrever textos? É um começo, como forma de divulgação e formação ideológica, além do amadurecimento de idéias, mas ainda sim não é suficiente para mudanças. Tudo indica que só existem duas soluções possíveis para a desfaçatez e dissimulação da vida política brasileira: ou Deus desce e dá um jeito nisso tudo, ou chamamos Bin Ladden. Eu fico com Bin Ladden. Deus pode perdoar os desgraçados.
O mais divertido é que o "Tratado do Senado" propõe votações secretas, de interesses secretos. Ninguém pode saber onde foi parar o seu respectivo voto. Recapitulando: você vota no candidato tal. O candidato tal, eleito, defende coisas as quais você nem tem idéia do que sejam. Logo, você nem tem idéia do que está defendendo! Adoro silogismos. Eles são tão... Lógicos. Olha, o Senado tem o direito de ser descarado. Nós o demos esse direito. O que é realmente absurdo é esconder do povo o que é do povo. Eu quero saber qual foi a posição de cada um dos respeitáveis senadores, pois é o mínimo de dignidade que eles podem oferecer.
Falar mal do governo é uma atividade exemplar. Grandes personalidades falam mal do governo, enquanto riem e tomam whisky importado. E fumam o Brasil. Fumam o Senado e o presidente. Fumam a si mesmos. Falar mal do governo é demasiadamente cômodo, mas falamos. E nos isentamos da culpa de sermos essencialmente marasmáticos. E o leitor, após a leitura desse texto, voltará ao seu cotidiano, é fato. O Senado e os senadores permanecem intactos. Nós também; intactos no sofá.
O que é que existe de certo nesse país? Onde é que se acha coerência entre o que se diz e o que se faz? É sempre igual, seja Lula ou FHC. Claro que cada um com suas peculiaridades. A História se repete de vez em sempre. Quarenta filhos da put* envergonham uma nação. O Estado envergonha a nação. E o que é pior? Eu sei. Pior é a nação enganar e envergonhar a si própria. Mas não existe nação nesses inúmeros Brasis; existe é jogo de interesse, no qual cada um é uma ilha hostil.
Em 1810, o Tratado de Comércio teve um desfecho dedutível. Um dos lados levou vantagem, já que era economicamente superior. O Tratado do Senado (lê-se Tratado do Brasil) parece também seguir a mesma linha lógica de desfecho. Quando? Sempre, ontem, hoje. Amanhã? É por isso que eu fico com Bin Ladden.
João Guilherme Magalhães Monteiro de Almeida
Enviado por João Guilherme Magalhães Monteiro de Almeida em 29/10/2007
Código do texto: T715015
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Sobre o autor
João Guilherme Magalhães Monteiro de Almeida
Salvador - Bahia - Brasil, 27 anos
10 textos (637 leituras)
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João Guilherme Magalhães Monteiro de Almeida