Kardec e os mentores.

Havia se mudado há pouco para o bairro e aquela seria a primeira noite que compareceria em reunião no Centro Espírita daquela comunidade.

Ao chegar, percebeu algo inusitado; todos os freqüentadores estavam de roupa branca; resolveu nada perguntar.

Porém, ao término dos trabalhos , como fora bem recebido, sentiu-se à vontade para saciar sua curiosidade.

Dirigiu-se até um dos coordenadores e questionou:

- Há algum motivo especial para todos estarem trajados de roupa branca?

O coordenador pediu-lhe um tempo, precisava levar sua pergunta para análise do mentor, porquanto, ele não teria condições de responder, afinal, nunca havia pensado em questionar orientações do guia espiritual.

Voltou com a seguinte resposta:

- Nosso mentor disse que utilizar roupas brancas auxilia a purificar o ambiente.

O visitante curioso, insatisfeito, redargüiu:

- Melhor do que usar roupa branca para purificar o ambiente é manter pensamentos e atitudes em conexão com as Leis Universais, concorda?

O coordenador, fazendo cara de espanto, pediu-lhe novamente um tempo para levar mais esse questionamento até o líder espiritual; retornou após 10 minutos com cara de poucos amigos e disse ao indiscreto visitante:

- Por favor, não mais compareça a nossa casa de oração, nosso mentor disse que seus questionamentos irão causar grande confusão e conturbar o ambiente.

Poderíamos discorrer sobre a utilização de roupa branca ou de qualquer indumentária e sua influência na harmonia do ambiente - que salientamos é zero - como mesmo informou o visitante, todavia, deixemos para outra ocasião.

Falemos sobre a impaciência do mentor ao ser questionado.

E isso deixa de ser “privilégio” apenas de Centro Espírita para se exprimir em todos os campos da atuação humana.

Na seara profissional, familiar, religiosa, social, política, encontraremos os que gostam de manipular, impondo idéias esdrúxulas e as divulgando como pérolas reais.

Na maioria das vezes, recusam-se a responder questionamentos, e, não raro, irritam-se frente as verdades que lhes são apresentadas porque falta-lhes capacidade para equacionar as questões, além de humildade para admitir que são falíveis, ou seja, não têm o conhecimento de todas as coisas. Temem serem desmascarados e perderem o controle da situação, e, por conseqüência, a credibilidade de seus “discípulos”.

Para os manipuladores, quem questiona suas teorias, negando-se a aceitá-las sem antes passar pelo crivo da razão torna-se total ameaça.

Por isso quem manipula tem alergia de quem costuma pensar.

Mentores verdadeiros, guias espirituais ou não legítimos, jamais se aborrecem com os questionamentos sinceros de seus discípulos.

Em “O livro dos Médiuns”, Cap – Identidade dos Espíritos -, Kardec nos traz preciosas lições concernentes aos atributos de um verdadeiro mentor, afirmando que:

“Os bons Espíritos nunca ordenam; não se impõem, aconselham e, se não são escutados, retiram-se. Os maus são imperiosos; dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam, haja o que houver. Todo Espírito que impõe trai a sua inferioridade. São exclusivistas e absolutos em suas opiniões; pretendem ter o privilégio da verdade. Exigem crença cega e jamais apelam para a razão, por saberem que a razão os desmascararia”.

Notável ensinamento! Orientadores jamais desrespeitam o livre arbítrio de seus orientados, em realidade, estimulam seus discípulos a cultivar o pensamento, a razão, o discernimento ante as situações. Já criaturas manipuladoras se aborrecem com aqueles que procuram semear a luz e o esclarecimento que vem através do raciocínio. A história do mundo nos mostra a saga de inúmeras pessoas que sofreram porque fizeram à humanidade pensar.

Sócrates – o filósofo grego – herdou vários inimigos por apontar a hipocrisia da sociedade ateniense e convidar a juventude a pensar, acabou pagando sua petulância de raciocinar com a própria vida.

Com Jesus também não foi diferente, o doce rabi era mestre em convidar à reflexão aqueles que dele se achegavam - uma verdadeira ameaça para a manipuladora sociedade da época - trataram logo de tirá-lo do caminho.

O cientista Galileu Galilei também não ficou imune aos controladores, em 1.616 ao confirmar a teoria de Nicolau Copérnico, de que a Terra e outros planetas giram em torno do Sol, foi convidado a desmentir sua comprovação em tribunal público; Galileu cometeu grave pecado – pensou demais, e assim, incomodou os influentes de sua época.

Há algum tempo, o jornalista e escritor Fernando Morais teve seu livro tirado de circulação por mexer com poderoso político.

Os poderosos desgostam quando começamos a pensar e questionar!

Um de nossos mais sagrados direitos é o de pensar, questionar, buscar a verdade para aprender, e assim, evoluir.

Prezado leitor, questionemos sempre!

Se a resposta não nos satisfez, questionemos; um verdadeiro líder sempre terá prazer em responder nossas dúvidas e nos clarear os caminhos, guardando sempre o respeito e jamais tendo a pretensão de nos manipular ou pedir para que nos retiremos do local como fez o suposto mentor da história acima.

Pensemos nisso!

Wellington Balbo
Enviado por Wellington Balbo em 02/11/2007
Código do texto: T720701