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A locomotiva da vida

* Artigo publicado no Jornal de Hoje - Quarta-feira - 28/agosto/2002.

Numa manhã ensolarada em uma estação ferroviária, um senhor octogenário esperava pacientemente a locomotiva enquanto observava um adolescente inquieto andando de um lado para o outro. O velho sabia que o trem ainda iria demorar e resolveu aproximar-se do jovem para conversar.
- Bom dia. Meu nome é José. Você também vai embarcar no próximo trem?
- Não sei.
- Você não sabe  se vai ou não sabe para onde vai?
- Para onde eu sei, não sei se quero realmente ir.
O velho percebeu muita angústia no jovem e lhe fez um convite:
- Eu gostaria de lhe convidar para irmos juntos até o final da rota. Se até lá você não se decidir se quer ir para onde deveria, eu lhe pago a passagem de volta para o mesmo lugar onde agora você está.
O jovem, perdido, resolveu aceitar.
Esperaram por mais alguns minutos, até que ouviram o distante apito da locomotiva. O jovem levantou-se num sobressalto enquanto o velho permanecia sentado.
- Vamos, Senhor. O trem já está vindo.
- Calma. Eu ainda nem sei o seu nome.
- Desculpe-me. Meu nome é Pedro.
- Esta locomotiva terá que parar nesta estação. Se eu levantar agora não irá fazer com que ela chegue mais depressa, apenas ficarei mais cansado estando de pé.
Pedro ficou intrigado e sentou-se novamente ao lado de José. Esperaram mais um pouco até a chegada do trem a estação. Os dois se levantaram e embarcaram no último vagão. Após os primeiros quilômetros percorridos, o velho volta a indagar o jovem:
- Você já sabe para onde quer ir agora, Pedro?
- Ainda não, mas eu gostaria de continuar conversando com o senhor até a próxima estação.
O velho concordou com a cabeça e voltou a olhar pela janela.
Num determinado momento, após um trajeto de paisagem deserta e seca, onde o único sinal de vida por ali passada eram ossadas de gado, o velho perguntou ao jovem:
- Você gostaria de ficar aqui?
- Não, de jeito nenhum. Aqui é seco, não tem água, nem fruteiras. Como eu iria sobreviver?
O velho fez um tímido sorriso e voltou a olhar pela janela.
Minutos depois, o maquinista gritou:
- Vamos fazer uma rápida parada para a limpeza dos vagões. Partiremos em quinze minutos.
Os dois antes de descerem passam por um jovem que está sentado na primeira cadeira do vagão lendo concentradamente. Sentam-se num banquinho de cimento, localizado de frente para os vagões e começam a observar os demais passageiros. Um outro rapaz quase da mesma idade de Pedro, desce cambaleando do trem e vai direto para um botequim do outro lado da estação. Antes da partida, ouve-se um disparo de arma de fogo. Uma correria dos servidores da ferrovia chama a atenção de todos. Eles pegam um corpo ensangüentado e colocam dentro de uma ambulância. Era o jovem que a pouco tinha decido do trem.
Ao reiniciarem a viagem, Pedro pergunta a José:
- José, por que isto acontece? “Eu estou indeciso; um jovem se embriaga e leva um tiro bem na nossa frente e perde a viagem; um outro fica lendo o tempo inteiro e nem desce do trem.”
- Isso é a Locomotiva da Vida, Pedro. A nossa existência é uma longa viagem onde em cada estação nos devemos descer, aproveitar o que ela tem de bom para nos oferecer e seguir em frente. Não podemos festejar demais, porque acabamos por cair ferido e perdemos o restante da caminhada e, nem podemos somente ler concentradamente para não perder as belas paisagens do percurso. Nós estamos no último vagão onde normalmente viajam as pessoas mais experientes. A locomotiva quando estaciona, para todos os vagões de uma só vez. Quando parte, todos saem no mesmo momento. O que importa na verdade é o ambiente dentro de cada um dos compartimentos.
Pedro estava pensativo. Volta a olhar pela janela e logo em seguida avista uma pastagem verde com um lago no centro e muitas fruteiras em volta. O velho volta a indagá-lo:
- E ali, meu jovem? Você gostaria de ficar?
- Você ficaria comigo?
- Não, eu preciso seguir a minha viagem.
- Então eu não ficaria. Prefiro seguir ao seu lado e aprender mais com você.
O velho deu um largo sorriso e voltou a olhar pela janela. Por volta do meio dia o maquinista volta a gritar:
- Na próxima estação faremos uma parada de uma hora para o almoço.
Assim foi feito. Desceram para almoçar e sentaram numa mesa junto com outras duas pessoas; uma linda jovem de olhos verdes acompanhada pela sua mãe, visto que o pequeno restaurante tinha um número limitado de lugares.  Pedro olhava cabisbaixo para a moça sem ligar muito para o almoço. Ela muito recatada, apenas sorria educadamente. Quando retornaram ao trem, Pedro perguntou:
- Que moça linda aquela lá do almoço. Qual será o vagão em que ela viaja?
-  A única certeza que tenho é que ela não viaja neste vagão. Na próxima parada você desce e pergunta para ela. Você gostaria de continuar a viagem no vagão ao lado dela?
-  Não sei, acho que estou apaixonado. Talvez eu deseje, mas preciso de tempo para decidir.
Continuaram a percorrer paisagens e desertos e Pedro apesar de olhando pela janela, não percebia nenhuma delas. Sonhava com a beleza da moça que conhecera a pouco. Despertou com o apito da locomotiva e com o grito do maquinista:
- Vamos dar nossa última parada para um lanche de final de tarde. Em trinta minutos partiremos.
Pedro ficou inquieto. Sabia que iria descer e encontrar a princesa dos seus sonhos.
- José, eu decidi. Vou continuar a viagem no vagão dela. Talvez ela seja tudo aquilo que eu estou procurando.
- Que bom, Pedro. Espero que você seja feliz.
Após um fraternal abraço, Pedro desce para procurar a moça. Já tinha na cabeça as palavras apaixonadas para se declarar para ela. Depois de procurá-la entre os passageiros, ele vê-la caminhando para uma das saídas da estação carregando uma mala. Pedro se apressa para ajudá-la e quando está bem próximo, é surpreendido por um outro rapaz com uma criança nos braços. Ele ficou estático. O rapaz troca um longo beijo apaixonado com a jovem, que pega a criança no colo e começa a niná-la. Pedro se desespera. Não sabe o que fazer. Retorna para o vagão a procura de José e não o encontra. Volta a procurá-lo por toda a estação e não tem nenhum sinal. Ouve o apito de aviso da partida e, espera até o último momento para embarcar no vagão do maquinista.
- Por favor, maquinista. Não parta agora. O meu amigo José não embarcou no último vagão.
- É meu jovem, infelizmente. Seu  José era o melhor dos nossos passageiros, mas a vida é assim, chegou a sua hora e ele teve que partir para uma outra viagem.
- Partir, como? Ele nem entrou no vagão.
- Claro que não entrou. Para a viajem celestial não é preciso entrar em nenhum vagão. Deixamos o seu corpo na estação para que fosse enterrado por lá. Ele não tinha família.
Pedro ficou incrédulo. Sentou-se num banquinho e se pois a chorar. Algum tempo depois decidiu-se:
- Vou voltar para buscá-lo e vou enterrá-lo no lugar para onde estou indo.
- Você já sabe para onde vai?
- Sei, vou voltar para a casa dos meus pais. Quero recomeçar a minha vida e não perderei mais nenhum dos ensinamentos que as estações me oferecer.
O maquinista deu uma boa gargalhada e disse:
- Muito bem, rapaz. O velho José colocou você de volta no vagão correto da Locomotiva da Vida.

Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 08/11/2007
Reeditado em 08/11/2007
Código do texto: T728912
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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