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Velocidade e Violência

        VELOCIDADE E VIOLÊNCIA

               Francisco Miguel de Moura*

No mundo da matéria, a natureza possui suas próprias leis, suas medidas.  Na sociedade humana, a medida é o próprio homem. Duas forças que não devem ser desrespeitadas sob pena de desequilíbrio. Tratamos, neste trabalho, apenas do social. Na prática, o mundo atual nos ordena, de manhã à noite, a rapidez, a velocidade. No dia-a-dia é tomar o café correndo, almoçar em pé, andando, e no trabalho, fazer o serviço com economia de tempo, pois a produção deve crescer sempre mais. Mercadorias, mercadorias, dinheiro, poder.
- Quem sabe, você poderá receber o título de funcionário-padrão – diz-lhe o chefe.
Qual a importância de um pedaço de papel pendurado na parede, para ser visto por poucos ou por ninguém, ou guardado numa pasta de documentos para as traças? A violência contra seu estômago, seu cérebro, seu coração, aquela ordem infeliz já fez e continuará fazendo... Torna-se num hábito. E, como diz o filósofo, “o hábito é uma segunda natureza”. Natureza social violentada. Velocidade é violência.  Permitam-me um pequeno exemplo, simples e rápido, paralelo com a matéria/terra: – nosso planeta gira, seu modo de ser e existir é girar, porém, se entra numa roda-viva de movimento desordenado e superior ao natural, tudo em seu redor é violentado, inclusive o homem, os animais e as plantas que ele contém. Nós homens, cada um, somos um planeta como a terra. Giramos em torno de nós, da nossa saúde, do nosso pensamento, do nosso espírito. Para que não violentemos os outros temos de não nos violentarmos a nós mesmo, material, moral e espiritualmente. Não se atinge velocidade maior que a natural sem prejuízo. E cada pessoa tem seu ritmo próprio, que deve ser respeitado.
Alguns inconscientes, banqueiros, capitães de indústria, capitalistas dizem que o capitalismo não possui ideologia. Contesto: a da velocidade (portanto, a da violência) é sua ideologia, com a finalidade de ganhar mais, acumular. E quem possui mais do que o necessário gastar desnecessariamente, comete mais violências. Qual a necessidade da guerra? Do tráfico de drogas? Do crime, em geral? Associo a velocidade à violência, e não gratuitamente. A sabedoria popular é tradição e não deve ser desprezada. Conhecem aquele dizer de que “quem se avexa toma flecha”? E é por isto que, quando alguém manda outrem fazer um serviço muito rápido, diz:
– Vai, vai rápido como quem rouba (ou furta).
Os criminosos são ou aprendem a ser rápidos em suas ações violentadoras, por necessidade. Mais um motivo para associar velocidade à violência. Há muito engano, ou sei lá o quê, na cabeça de quem pensa que o criminoso é mais rápido do que o comum dos homens e por isto é mais inteligente. Quem disse que inteligência é rapidez?  Aqueles acima referidos, os capitalistas, criaram, em benefício próprio, tal discurso, complementando sua ideologia, não obstante façam nos parecer que combatem ladrões e criminosos.  Mistificam-se, idolatram-se os criminosos, desde que não sejam os chamados “ladrões de galinha”.  Pelo vulgo, os ladrões são vistos como “inteligentes”, somente quando agem por idealismo”, mas todos derivam da mesma ideologia dominante. As medidas de inteligência que rolam por aí, inclusive e especialmente na educação, são comandadas pela ideologia do capitalismo, significam a mesma coisa: violência à individualidade do homem. Esse mesmo capitalismo que se vale da ciência para as descobertas de processos que levem as indústrias – sejam de guerra ou de paz – a produzirem mais, ajuda os cientistas a criarem remédios para a medicina e um sem número de outras coisas. Será que imaginam que o trabalho da ciência é lento? Dependendo deles, o capitalista, a ciência muito mais atrasada e mais lenta está do que devia. O capitalismo contribui, a seu talante, para o atraso da humanidade. Também não se pensou que o trabalho dos benfeitores da humanidade é lento, leva uma vida inteira?
No caso dos criminosos, a associação velocidade/inteligência é apenas para uma adaptação à necessidade de darem continuidade ao crime. No caso dos ideólogos é “sabedoria” para alcançarem o que sozinhos não alcançariam nem pagando bem seus empregados, nem mesmo se não os tivessem. Então, para que endeusar a violência? Essa idolatria vai nos levar à completa ruína, aliás, já nos está levando.
Sou poeta, sou independente pensador, sou a favor do ritmo, da cadência, da música, da vida mais digna de ser vivida: sem violência, sem velocidade maior que a natural, seja na matéria, seja na sociedade humana, seja no próprio indivíduo.  Queremos velocidade, sim, mas sem violência. É possível? Então...
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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, Piauí, Brasil, e também membro da Associação Internacional de Escritores e Artistas (IWA-sigla em inglês), com sede em Toledo, OH, Estados Unidos.  E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br

domxiicote
Enviado por domxiicote em 14/11/2007
Reeditado em 23/11/2009
Código do texto: T736387

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Sobre o autor
domxiicote
Teresina - Piauí - Brasil
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